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Notícia de Primeiro de Abril

Vencemos o I Enduro das Águas por acaso. Naquela época, 1986, o resultado não saia quase que imediatamente como nos informatizados dias hoje. Demorava alguns dias para se apurar a pontuação dos competidores e, quando recebi o telefonema informando que minha dupla seria a vencedora, demorei a acreditar, afinal era um primeiro de abril e o segundo dia da competição havia sido tão complicado e cometemos tantos erros que só deixei de pensar que era trote quando recebi o troféu na solenidade de entrega da premiação aos vencedores.

Fiz dupla com um piloto cujo apelido era Apolo, apelido este em referência a um personagem do Chico Anísio que fazia um sujeito bem fraquinho, mas que era admirado pela mulher como sujeito fortão, de maneira que o próprio se achava o tal. O Enduro das Águas era realizado em trilhas e estradas vicinais que saiam da periferia de Fortaleza levavam ao Maciço de Baturité, distante cerca de 150km, pelo asfalto. Era o mais molhado e enlameado do calendário cearense, afinal, março é mês de muita chuva por aqui. Nossas motocicletas eram XL 250R.

O primeiro dia de enduro foi tranqüilo, apesar da chuva e lama, mantivemos bem as médias da planilha e não cometemos erros de percurso. Uma parte da competição entrava na noite. Na parte noturna creio que nosso “pulo do gato” foi que, ao verificarmos que seria muito difícil visualizar os cronômetros com a iluminação que preparamos e que as médias exigidas eram muito altas para se rodar em escorregadias estradas de barro ou de pedra em subida de serra, decidi abandonar a navegação e ficar atento somente ao roteiro indicado, rodando o mais rápido que podíamos sem nos preocuparmos com as médias de velocidade e, portanto, sem nos arriscar a tombos.

Muitas boas duplas de competidores que tentaram manter na parte noturna do enduro as médias de velocidade da planilha levaram tombos, alguns se machucaram e outros se perderam. Nós, felizmente passamos por todos os PCs, com um pouco de atraso, é verdade, mas no caminho certo e com motos e pilotos inteiros.

Já o segundo dia foi um mar de lama generalizado, muitas travessias de riachos caudalosos cheios de traiçoeiras pedras e de indicações confusas na planilha. Meu parceiro Apolo estava exausto em poucas horas de competição. Ao tentar transpor uma larga erosão levou um tombo tão espetacular que pensei que nossa participação no enduro acabaria ali. Aliás, durante vários momentos eu pensei que chegara o fim da linha para nós. Meu parceiro já não conseguia sequer ligar o motor da própria moto e isso era mais um problema para mim. Muitas vezes eu tive que retornar por caminhos cheios de lama para ligar a moto dele e arrasta-lo junto comigo. Não se vence enduro de dupla sozinho. Mas a favor do Apolo havia uma coisa; ele, apesar de dolorido por conta do tombo e desorientado por conta do cansaço, não desistia nunca, foi um bravo com seu valente Rocinante, digo, sua XL250R.

Chegamos a um ponto onde diversos competidores tentavam fazer a travessia de um rio cheio de pedras e um barranco no final. Muitos se ajudavam mutuamente lembrando o velho e bom espírito das trilhas. Consegui passar o rio e subir o barranco sem problemas. Voltei para ajudar o Apolo e mais alguns outros que estavam em dificuldades. Logo depois do rio mais um obstáculo; era uma imensa poça de água, não, poça de água não, uma verdadeira lagoa que cobria a estradinha e arredores. Já havia gente empurrando de volta motos com água acima do banco. Desconfiei que todos nós que ali chegamos havíamos errado o caminho e sequer tentei passar o aguaceiro com minha moto.

Um dos que tentavam tirar a moto da água desmaiou caindo por cima da moto. Corremos todos para ajudar e tiramos o piloto da água antes que se afogasse. Tiramos também sua moto, uma DT180 no limite da exaustão. Mesmo fora da água o piloto continuava desmaiado, deitado inerte naquele chão enlameado e ninguém sabia o que fazer. Para não pecar por omissão, corri para a lagoa, tirei minhas luvas de dois dias de enduro e as enchi com aquela água barrenta que nos impedia de seguir em frente e derramei na cabeça do cabra. Não sei porque mas aconteceu um milagre: ao molhar o rosto do piloto desmaiado com aquela água ele se reanimou! O chato é que hoje não tenho mínima idéia de onde ficava aquele poço encantado. Teria sido por aquela água lendária cuja fonte Ponce de Leon tanto se sacrificara?

Tivemos que voltar, passar novamente o rio, vencer sua correnteza, suas pedras e seu barranco, analisar a planilha e procurar entender onde erramos e qual seria o rumo correto, a planilha estava confusa, estava tudo muito molhado e confuso. Com nossas motocicletas praticamente sem freios continuamos na competição sem muitas esperanças de boa classificação. Encontramos alguns PCs ainda, mas passava das três da tarde e, ao encontrar asfalto por perto, resolvi esquecer a planilha e, desta vez, desistir mesmo do enduro.

Chegamos muito cansados ao local de concentração do final do enduro, na avenida beira-mar. Havia dezenas de motocicletas imundas estacionadas ao lado do muro do Náutico Clube. Ao descer de sua moto, foi a vez do Apolo desmaiar. Ainda bem que ele caiu para um lado e a moto para outro, felizmente para mim, ele deixou para desmaiar onde havia muita gente para ajudar.

Não, não daria mesmo para acreditar que aquela informação, dada por um telefonema, num dia 1º de Abril, fosse mesmo verdadeira. Não sei como as demais duplas conseguiram errar mais do que a minha, pelo menos no segundo dia do enduro.

 
 
 

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