Festinha de Jagunços

Em viagem à Paulo Afonso, BA, em maio de 2005, para participarem do Moto Energia, os amigos Marcelo e sua esposa Katharine, estreando sua nova moto, uma Suzuki V-Strom, juntamente com o Jorge, pilotando sua valente Harley Sportster 1200, (um dos poucos que conheço que viaja de Harley sem necessidade de levar junto caminhão ou carro com carreta para apoio) foram engolidos pela noite, ainda na estrada, em pleno sertão pernambucano antes de alcançarem Garanhuns, onde pretendiam pernoitar.

Como não bastasse a escuridão e o perigo iminente de assaltos naquele trecho, começou a chover forte. A chuva não dava trégua para os pilotos quando a sensata Katharine sugeriu que parassem num barzinho ao lado de um posto para tomarem um café quente e aguardar, quem sabe a chuva parar ou diminuir.

Estacionaram as motos no posto e dirigiram-se para o tal bar. Imaginem a cena; os três encharcados, vestidos com roupas de couro preto abrindo a porta do bar e se deparando com um grupo de dez ou doze jagunços, todos alcoolizados... Comemoravam alguma coisa...

Qual grupo ficou mais assustado não se sabe, houve um momentâneo silêncio entre os convivas locais e os visitantes. Porém o extrovertido Jorge, com seu metro oitenta e lá vai pedra de altura, quebrou o gelo apresentando-se como tenente e oferecendo uma rodada de cachaça para os jagunços. Tenente de que era o Jorge eu não sei, acho que nem ele mesmo sabe. Desfeito o susto do choque entre dois mundos, um dos jagunços se aproximou e ficou repetindo para o "tenente" Jorge: - “Ói seu tenente, óia aqui seu dotô tenente, num fui eu que matô e queimô o corpo do fí de seu Tonho não! Os minino aqui tão di prova, num fui eu não viu? Num fui eu que matô e quimô o cabra não”.

O dono do estabelecimento, vendo o espanto da Katharine, que naquele momento estava amuada num canto, tentou acalmá-la informando: “Liga não moça, é que ele foi solto hoje e estão comemorando”. Diante de ambiente tão insalubre, de tão insólita comemoração entre suspeitos pares, o grupo resolveu não esperar pelo desejado café e rapidamente se despediram, preferindo enfrentar as incertezas da noite na estrada e a chuva forte.

 
 
 

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