Destaque

A Trlha do Seu Naz√°rio

Quando cheguei em Fortaleza, encontrei os trilheiros da terra fazendo passeios apenas em dunas, beira de praia ou nos manguezais que margeiam o rio Cocó e Pacoti.

Eu gostava mais de serras e estradas de barro, como estava acostumado na Baixada Santista e litoral norte de S√£o Paulo. Para mim, fazer trilha era ser surpreendido por uma bela paisagem, encontrar uma cachoeira, atravessar riachos, desbravar caminhos e fazer descobertas.

Eu trouxe de Santos a minha DT 180, companheira de tantos passeios na Serra do Mar, Ilha Bela, Paraty, Itanhaém, etc. Mas logo comecei a namorar a XL 250 R e, em meados de 83 estava com a minha XL zerinha.

Pensando nisso e aproveitando a facilidade que meu trabalho me dava em obter mapas detalhados, comecei a procurar novos caminhos.

N√£o foi dif√≠cil. Fortaleza √© cercada, num raio de cerca de 25km, pelas serras da Pacatuba, Maranguape e Concei√ß√£o. Fixei-me inicialmente na serra de Maranguape e tracei um poss√≠vel caminho que atravessaria a serra. Os mapas chegavam ao detalhe de representar picadas e para saber o grau de inclina√ß√£o, bastava analisar as curvas de n√≠vel. Neste roteiro que imaginei, havia uma interrup√ß√£o na picada, mas como havia representa√ß√£o de habita√ß√Ķes no alto da serra, conclu√≠ que deveria haver uma passagem.

Combinei fazer este roteiro com os amigos Nelson Bezerra, Franz Georg e Nestor. Sairíamos no sábado cedinho da lagoa de Tabapuá, passando pelo bairro barra pesada da Jurema e dali já estaríamos em estradas vicinais de terra.

Passamos por lugares como Munguba e finalmente chegamos em Tucunduba. Ali paramos numa mercearia para tomar um refrigerante e obter informa√ß√Ķes sobre o caminho que quer√≠amos fazer. As pessoas do lugar diziam que com as motos seria imposs√≠vel atravessar a serra por ali. Perguntei se jumento passava e a resposta que tive foi positiva. Ora, como aquela gente n√£o sabia das possibilidades de uma moto trail, pensei: se jumento passa a moto tamb√©m passa.

Agradecemos o pessoal e seguimos em frente. A estradinha se estreitava e mostrava que há muito tempo não havia tráfego de veículos motorizados por ali. A vegetação ficava cada vez mais cerrada e muitas vezes éramos obrigados a nos abaixar para desviar de galhos que invadiam a trilha.

Chegamos ao leito pedregoso de um rio seco, destes rios de serra, caudalosos e fugazes, e tamb√©m ao fim da estradinha. Agora sim, come√ßaria a subida da serra pela picada que vi no mapa. Uma picada cheia de pedras e eros√Ķes.

O Nestor, alegando fome e cansaço, já queria desistir. Eu, mesmo sem ter certeza de para onde estava indo, insisti, dizendo que não deveria ser longo o trecho de picada dentro da mata fechada e todos toparam ir em frente, até o Nestor, mais por falta de opção do que por vontade de se aventurar na mata desconhecida.

Lá fomos nós, moto após moto, um ajudando o outro quando necessário. Vencemos muitos batentes de pedra, cavas profundas, troncos de árvores caídas e alguma lama. Muitas vezes foi preciso descer na moto e pedir ajuda para passar obstáculos mais difíceis.


Estávamos nesta luta contra as adversidades do terreno, que para um trilheiro é um prazer, quando apareceu um senhor idoso acompanhado de um rapaz, que alertados pelos ruído dos motores desceram para ver o que era aquilo.


Eles nada perguntaram e o idoso senhor j√° chegou ajudando a empurrar uma das motos que estava patinando na lama. Perguntei se o terreno piorava mais para frente e responderam que era tudo igual e que nunca uma moto havia chegado l√° em cima, onde eles moravam.

A trilha melhorou um pouco e não foi mais necessário empurrar as motos. Chegamos no alto daquela parte da serra de Maranguape. Ali estava uma casa antiga e toda a família daquele prestativo cidadão que apesar da idade avançada, foi ajudar a um grupo de estranhos malucos que teimavam em subir a serra de motocicleta.

Nos apresentamos, já sem capacetes ou luvas. O senhor que nos ajudou na subida era o Seu Nazário, 84 anos, patriarca do lugar. Sua esposa era Dona Nenzinha, com 79 anos, e havia muitos filhos genros e netos ao redor. O nome do lugar era Cafundó e tinha mais outras casas de parentes a aderentes por perto.

Nos ofereceram uma água leitosa que mais parecia refresco de ameba. Tomamos com gosto. A sede era muita! A fome do Nestor e a nossa também foi aplacada com saborosos ovos da galinha caipira cozidos. Fazia tempo que eu não via gemas com cor tão viva.

Ficamos um tempo ali, sentados nos troncos que serviam de assento, conversando com o seu Naz√°rio e seus familiares. Nunca esquecerei da alegria daquele pessoal em nos receber, em nos oferecer o pouco que tinham. Do brilho nos olhos da meninada de barriga grande.

Nos despedimos do pessoal prometendo voltar. A partir dali s√≥ havia uma grande descida, que a fizemos perseguidos por v√°rios cachorros, da√≠ ter sido batizada de ¬ďdescida das cachorras¬Ē, uma subida √≠ngreme ap√≥s um riacho e a picada aos poucos se alargava, transformado-se novamente em estrada abandonada, tomada por mato, mas bem mais palat√°vel do que a subida de serra que encaramos para chegar no Naz√°rio.

Logo est√°vamos de volta ao asfalto da ¬ďciviliza√ß√£o¬Ē. A cidade de Maranguape estava pertinho, mas decidimos passar direto e almo√ßar em Fortaleza, rodando mais 25km.

Voltamos muitas vezes a fazer a que ficou conhecida como ¬ďTrilha do Seu Naz√°rio¬Ē. Levamos muitos amigos juntos e v√°rios Enduros passaram por ali. Sempre t√≠nhamos os bagageiros das motos carregados com caf√©, a√ß√ļcar, arroz, macarr√£o e outros mantimentos para presentear aqueles que t√£o bem nos receberam. Sem esquecer de levar tamb√©m, biscoitos para a crian√ßada, al√©m de alguns brinquedos quando se aproximavam os festejos do Natal.

Um detalhe: depois da nossa promeira ida ao Nazário, ele mandou "consertar" a picada e nunca mais foi tão difícil subir como da expedição pioneira.

Em um dos muitos retornos que fizemos ao Naz√°rio, teve uma situa√ß√£o at√© engra√ßada, j√° que n√£o foi tr√°gica. Est√°vamos parados em Tucunduba, recuperando o f√īlego, quando vaqueiros perderam o controle sobre uma boiada bem no meio da √ļnica rua do lugar. Eram bois mascarados. Sabem, aquelas m√°scaras de couro que colocam em bois bravos? Pois bem, n√≥s rapidamente subimos num muro e ficamos olhando o rebuli√ßo, temendo que algum animal se chocasse com nossas motos. Havia a agravante de estarem estacionadas ali, tr√™s XLs vermelhas e nossas roupas de trilha bem coloridas... Confesso que fiquei apreensivo. Inesperadamente, do meio da poeira levantada pelos cascos dos animais, um boi mais arisco se desgarra mais uma vez e, descontrolado, entra de repente pela porta da frente de uma casa.

Foi uma cena de filme pastelão. Um monte de gente saindo da casa pulando as janelas! Dava para ouvir um barulho danado de panelas caindo no chão. Felizmente, entre mortos e feridos, ninguém se machucou.

Faz muito tempo que não ando por ali. Mais de 15 anos. Soube até que o Seu Nazário morreu. Não importa. Ele e todos que conheci no Cafundó estão bem vivos na minha memória.

 
 
 

HIST√ďRIAS DE MOTOCICLETA - ¬© 2016 Todos os direitos reservados