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Conversando Sobre Estradas

Sim, viajar é preciso! Mas, contrariando o poeta, para viajar, viver é mais do que preciso. Pilotar uma motocicleta em qualquer lugar é sempre um grande prazer. Porém, é na estrada, com um imenso horizonte à frente, que o motociclista se realiza. É onde nos sentimos integrados à paisagem, é onde percebemos o quanto somos frágeis e, ao mesmo tempo, gigantes montados nestas máquinas maravilhosas que são as motocicletas.

Antes de colocar a motocicleta na estrada, é preciso também haver uma preparação do motociclista para viajar. Não, não estou querendo falar de praparação física, esta todos já devem conhecer. Quero falar de se preparar a mente para uma viagem. De que adianta viajar muitos e muitos quilômetros em busca de um lugar, uma paisagem, se não nos inserimos nela? Como se divertir num cenário paradisíaco se levamos conosco todas as angústias, todo o estresse da nossa rotina de vida? É preciso se despir de todas as preocupações para verdadeiramente viajar. Sem abandonarmos nosso eu de casa, da cidade, do trabalho, das obrigações, como aproveitar a essência de uma viagem de lazer?

A solidão do capacete é a mesma, tanto faz viajar em grupo ou sozinho. Nas duas situações, há vantagens e desvantagens. Viajar em grupo nos dá mais segurança e sempre estamos ao lado de amigos para fazer comentários ou observações. Sozinho, anda-se na velocidade que se quer e pode-se parar aonde bem entender, sem dar satisfação a ninguém. Tudo o que se vê é guardado para si, como um encontro consigo próprio. Também fica mais fácil interagir com as pessoas que vamos encontrando pelo caminho. Por fim, há inúmeras vantagens e desvantagens em cada caso.

Em grupo, na estrada, além de muitas outras regras de condução e segurança, recomendo que se faça uma corrente cujos elos são os faróis e os retrovisores. O motociclista que está à frente é responsável pelo que vem logo atrás, e assim sucessivamente, e deve ter sempre o farol deste em seu retrovisor. Assim, caso aconteça um parar, todos param, não se deixando ninguém para trás.

Para curtir o prazer de uma viagem em segurança e sem surpresas desagradáveis é preciso, além de seguir as normas gerais de segurança na estrada, ficar atento a animais na pista, coisa comum nas estradas nordestinas e ter muito cuidado com buracos e irregularidades no asfalto, uma praga que inferniza todos os usuários das estradas brasileiras. A velocidade deve ser compatível com as condições climáticas, com o estado de conservação da estrada. Deve ser compatível com o tipo e a cilindrada da moto e, antes de tudo, deve ser compatível com a experiência do piloto, isto sem falar nas placas indicativas de velocidade máxima.

Cuidado com os acostamentos É dali que surgem os animais e veículos vindos de estradas secundárias, onde há poças de óleo, sujeira e desníveis. Evite pilotar muito à direita da pista, pois nesta posição tem-se pouca margem para manobras de emergência e certamente será ultrapassado por carros e caminhões sem que estes façam a manobra pela pista da esquerda, deixando o motociclista imprensado entre o veículo que ultrapassa e o acostamento, isto quando não o obriga a ir para fora da estrada. O melhor posicionamento é na faixa mais ao centro da pista, por onde passa a roda esquerda dos carros. Claro que, ao se cruzar veículos grandes, devemos nos posicionar mais à direita evitando a turbulência. Eu costumo me abaixar sobre o tanque nestes momentos de turbulência, assim protejo-me de eventuais pedriscos e poeira.

Muitas vezes, vemos enormes marcas de freiadas no asfalto em locais que aparentemente não teriam motivos para tal. Claro que podem ter sido causadas por erros de ultrapassagens, cochilos ao volante, dentre outras coisas, porém, alerto que estas marcas de pneus freiando também são fortes indicativos de presença de animais na pista, portanto, ao vê-las, redobre a atenção.

A respeito de animais de pequeno porte na pista, tais como cães e gatos, na minha opinião, para evitar correr maiores riscos, creio que o, digamos, menos ruim, é passar por cima do bicho mesmo. Uma manobra brusca ou uma freiada forte para se desviar de um pequeno animal pode ser muito mais arriscado do que segurar firme o guidão, acelerar e passar por cima. Evidente que cada caso é diferente, mas imagine perder o controle da motocicleta por causa de um pequeno animal e descer um acostamento desnivelado ou mesmo se ir parar na outra pista com tráfego em sentido contrário/ Ou, numa forte freiada, ser abalroado por um veículo que vinha atrás?

Outra atitude em caso de emergência, que espero que ninguém passe, é encontrar veículo em sentido contrário fazendo ultrapassagem em local não permitido. Não vai haver tempo/espaço para se freiar, portanto, teremos muito mais chance se imediatamente desviarmos para o acostamento, mesmo que este seja muito ruim ou mesmo inexistente. Caindo em um barranco, ou área não pavimentada ainda teremos muito mais chances de escapar com vida do que batendo de frente em um caminhão.


Cuidados nas ultrapassagens. Para ganhar alguns segundos na estrada, muitos colocam, irracionalmente, a preciosa vida em risco. Hoje, a impressão que tenho é que as faixas contínuas informando a proibição de ultrapassagem estão sendo feitas de acordo com a aceleração de carros 1000. Mesmo assim, deve haver outros fatores que nós não conhecemos (pedestres, entroncamentos com estradas vicinais dentre outros) que devem ter feito com que os técnicos tenham definido a localização e o comprimento daquelas faixas, portanto, o mais seguro é ter paciência e obedecê-las.

Um susto que tive em ultrapassagem foi quando aproximei-me do veículo a ser ultrapassado e aguardei a oportunidade; faltava apenas um caminhão tipo baú cruzar com o veículo à minha frente para que a pista estivesse livre. Assim que este caminhão baú passou eu acelerei forte para fazer uma rápida e segura ultrapassagem, mas, felizmente, a tempo de ver que a carroceria tipo baú havia escondido outro veículo que vinha atrás. Foi só um susto, freiei forte e voltei rapidamente para a segurança da minha posição, mas serviu de alerta.

Caso a monotonia de alguma estrada esteja fazendo com que você acelere mais forte, procure não olhar para o odômetro ou para o relógio, lembre-se de que você está na estrada com a sua motocicleta e que isto em si, já é um grande prazer. Cante ou recite versos dentro do capacete – converse consigo mesmo, encontre-se consigo mesmo! Lembre-se de que há sempre novas paisagens por mais reta que seja a estrada e que, assim como os personagens do filme “Easy Riders”(Sem Destino), numa cena carregada de simbolismo, nós também, mesmo que simbolicamente, devemos tirar o relógio do pulso e o deixarmos no acostamento logo no início da viagem.

Não deixe para fazer revisão na última hora. A revisão deve ser feita por mecânico de confiança (de preferência com a gente estando junto) com pelo menos uma semana antes da viagem. Neste espaço de tempo deve-se rodar com a motocicleta verificando se tudo foi feito corretamente e que nada vai falhar na estrada. É muito chato ficar no prego por causa de um pequeno parafuso que ficou solto dentro do carburador ou até mesmo, perceber, tarde demais, que não foi colocado óleo no motor...

Para concluir, nunca esqueça:
Viaja-se de motocicleta para curtir a vida, jamais para colocá-la em risco.

Luiz Almeida

 
 
 

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