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Passeio na Serra de Maranguape

Revivendo velhas trilhas

O dia terminou feliz. Todos com largos sorrisos no rosto e uma gostosa sensação de plenitude.

Tiramos o s√°bado, 21/06/2008, para reviver, fotografar e filmar velhos caminhos, antigas trilhas que desbravamos h√° 25 anos.

Daqueles desbravadores, hoje na ativa s√≥ restam o Franz Georg e eu. Naquele dia, por√©m, tivemos a companhia do Rafael, do Katilanga e do J√°der. J√°der de Falcon, Katilanga de XT 600, Rafael de T√®n√®r√® ¬ďdois z√≥io¬Ē, Franz de XT600 e eu de XT660. Ou seja, n√£o est√°vamos com motocicletas adequadas para trilhas pesadas tipo caminho de rato. A id√©ia era rodarmos por estradas vicinais de terra, com n√≠vel de dificuldade de m√©dio para f√°cil.

Nos encontramos em um posto de combustível na exata hora combinada, oito da manhã, apenas com a exceção do Katilanga, que tradicionalmente nos fez esperar por cerca de 40 minutos.

Iniciamos o passeio na Lagoa de Tabapu√°, palco da largada do Enduro da Serra do Sufoco, em 1986, no qual eu e Franz largamos com o n√ļmero 1 e fomos os vencedores da prova. O mesmo local tamb√©m foi largada de Cerapi√≥ 87.

O que antigamente era só uma lagoa cercada de barro vermelho hoje tem em sua volta uma praça e alguns quiosques onde, nos finais de semana, muitos se embriagam pouco antes de morrerem afogados.

Cruzamos o bairro de Jurema sem problemas ¬Ė consta que hoje √© barra pesada.

Finalmente saímos do asfalto e a memória começou a encontrar velhos arquivos conforme íamos revendo a paisagem. Poeira, um pouco de lama, puxa a moto para um lado, acelera, puxa para outro lado, desviando de erosão, até que encontramos um riacho formado por um sangradouro de açude cujas águas de antigamente eram o primeiro ponto de elevação dos níveis de adrenalina. Em tempos de chuva, muitas motos tiveram que passar aquele riacho nas costas dos pilotos.

Como tivemos um bom e recente período de chuvas, a mata nas margens da estradinha estava densa e em muitos pontos, repletas de flores silvestres. Em um momento de caminho estreitado pela mata nas margens, lembrei-me de quando, certamente no mesmo local, paramos para fotografar quando uma tropa de jumentos veio em sentido contrário. Os jumentinhos desviaram-se naturalmente das motos, eles têm noção da própria largura. Mas não têm noção da largura da cangalha sobre seus lombos. Depois da primeira XL 250 derrubada, foi um tal de correr para afastar motos!

Rodamos mais um pouco e o Franz identificou a pedra do Nelson Bezerra. Pedra do Nelson porque certo dia, sexta feira da paix√£o ou s√°bado de aleluia de 1984, paramos para apreciar uma bela paisagem e o Nelson subiu naquela pedra e dali, como que pregando ao mundo, come√ßou a falar em Jesus Cristo, que fazia quase dois mil anos de sua passagem por este mundo, etc. Sem muitas delongas, um amigo, o Tony, o interrompeu dizendo: - Porra de cristo coisa nenhuma, que coisa mais chata, vamos logo pegar as motos e prosseguir nas trilhas que foi isso que viemos fazer. Nelson, bruscamente interrompido em sua divaga√ß√Ķes espirituais, desceu da pedra cabisbaixo e fez um √ļnico coment√°rio pouco aud√≠vel: - Filho de dona Marly...

Na verdade, a pedra está difícil de identificar. O Nelson também subia nela para peidar, se agachava um pouco e ficava parado. Ao ser perguntado que fazia alí Nelson respondia: - Calma, estou peidando. Observando a matagal que cresceu em torno dela, alguém comentou que certamente, além de peidar, o Nelsão devia ter cagado muito por ali.

Passamos por outros lugares facilmente identificáveis e demos uma parada na Fazendinha. Local onde outrora parávamos para matar a sede e comer um queijo de coalho novinho, de fabricação própria do local. A casa que servia de mercearia estava fechada, mas a fazenda ainda funcionava e trocamos um dedo de prosa com o proprietário.

Ao parar para fazer uma foto mesmo sem desmontar da moto, encontrei duas crian√ßas transportando bacia e balde com roupas molhadas. Eram Eliane, com seus 9 anos e Brena, uma menina de largo sorriso com 5 aninhos de idade. Perguntei √† Brena se ela ag√ľentava o peso daquele balde; ela respondeu que a irm√£ Eliane a ajudava. Fotografei-as e mostrei-lhes a foto digital. Ficaram muito felizes. Tomara que elas tenham um futuro digno.

Mais à frente encontrei um cidadão de nome Gonçalves. Ele trabalha fazendo distribuição de pães na região. Não usa mais jumento ou cavalo com as típicas cangalhas para transportar o pão. Agora ele usa uma CG 125 com uma enorme caixa onde acondiciona sua mercadoria. Ele mal cabe no banco de tão grande é a caixa. Detalhe; a CG possuía amortecedores duplicados na suspensão traseira.

Chegamos ao Riacho das Negras. Local de parada e eventualmente um banho de bica nas velhas trilhas. Nada mudou, a não ser um bar construído pouco mais à frente, na bifurcação entre uma subida de serra e a localidade de Tucunduba.

O asfalto e o barulho chegaram à Tucunduba. Nesta localidade de antigas paradas e compras de farnel para presentear Seu Nazário e família, paramos na bodega de sempre. Tudo seria muito parecido como há 20 anos não fora o estridente barulho causado por aparelho de som tocando aquele execrável forró dito moderno.

Pedimos cerveja e panelada. J√°der, que √© paulista, admirou-se de encontrar maria-maluca no local. Falou que era a segunda vez que comia maria-maluca no Cear√°. Perguntado sobre a primeira maria-maluca, algu√©m da turma, adiantando-se, respondeu por ele afirmando que com esta ele havia casado.... Muitas risadas! Demoramos mais do que esper√°vamos na Tucunduba; tempo para uma meia d√ļzia de cinco ou oito cervejas e duas po√ß√Ķes de panelada.

Seguimos adiante at√© a bifurca√ß√£o de onde se escolhe ir para a subida do Seu Naz√°rio ou outros caminhos menos √≠ngremes. Escolhemos o segundo, afinal, n√£o est√°vamos com motocicletas adequadas para enfrentar subid√£o travado com muitas eros√Ķes profundas e pedras de todo tipo e tamanho. Quer√≠amos prazer, n√£o sofrimento e preju√≠zos.

O terreno ficou um pouco mais dif√≠cil e, naturalmente, como no passado, eu e o Franz demos apoio aos amigos que sentiram mais dificuldade. Uma subida mais √≠ngreme e pedregosa e uma descida cheia de eros√Ķes prenunciou sufocos que ficaram por ali mesmo. Depois melhorou e chegamos num apraz√≠vel local onde uma corredeira descia murmurante pelas pedras. Mais uma parada para curtir o lugar, com direito a banho com √°gua gelada.

Franz sentou no alto de uma grande pedra e come√ßou a cantar uma par√≥dia de ¬ďsentado √° beira do caminho¬Ē , ¬ďsentado em cima de uma pedra¬Ē, enquanto eu filmava. Segurei a gargalhada ao notar que, ao fundo, sem que o Franz percebesse, o Rafael fazia a coreografia da ¬ďdan√ßa do siri¬Ē.

A estrada passou a ter um pavimento muito antigo feito de grandes pedras toscas. Lembrou-me a histórica Estrada Real, que ligava Ouro Preto, MG, á Parati, RJ, no tempo do Brasil colonial. Era a estrada por onde escorria a produção de ouro das Minas Gerais com destino à metrópole, Portugal. Falei para os amigos que havíamos encontrado a Estrada Real e contei alguma coisa sobre ela. Perguntaram-me se aquela estradinha não estaria um pouco distante dos dois pontos originais. Sim, respondi, é que eles fizeram um pequeno desvio para escapar da fiscalização Real e não pagar o imposto devido à Coroa.

Começamos a descer. Do alto ainda dava para se ver uma pequena aglomeração urbana. Bonita paisagem.

Voltamos para o chão de terra batida, passamos por alguma casas e por fim, chegamos a um boteco onde eu e Franz já havíamos parado, há cerca de três anos, para um café da manhã que consistiu em paçoca, cerveja e banana. Ao identificar o local fiquei lutando com a memória para me lembrar o nome do dono e nada. Porém, assim que desliguei a moto o Ezheimer falhou e eu falei alto: - Bodega do comandante Luiz Correia ! Dava para ver a satisfação do dono da birosca por ter seu nome lembrado depois de tanto tempo.

Tomamos a ruma de umas meias d√ļzias de sei l√° quantas cervas para tirar o p√≥ da goela e, j√° que n√£o havia outra coisa, com acompanhamento de chilitos sabor camar√£o, tucunar√©, gengibre e mais outros sabores ex√≥ticos enquanto o Franz recuperava glicose chupando pirulitos.

Passava das três horas da tarde quando deixamos o boteco e voltamos para o asfalto, retornando para Fortaleza. Apesar da poeira e lama, estávamos todos leves, sorridentes e felizes da vida. Cada um pensando em que restaurante iríamos almoçar.

Luiz Almeida

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