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1º Moto Passeio Fotográfico - Quixadá

Fotografia é um dos meus hobbies. Para o amigo Paulo Walrawen, além de hobbie, é trabalho. Como temos motocicletas do mesmo modelo, Yamaha XT660R, combinamos de, juntos fazer um passeio de moto voltado para fotografia.

Sábado, dia 04/06/2009, saímos de Fortaleza por volta das seis horas da manhã rumo à Quixadá (170km de Fortaleza), município localizado no Sertão Central cearense e conhecido por suas formações geológicas peculiares denominadas monólitos, além do histórico Açude do Cedro, construído no segundo reinado, quando Dom Pedro II, diante de uma seca arrasadora, disse que, mesmo que tivesse de vender a última jóia da Coroa, nenhum cearense mais morreria de sede.

Depois de enfrentarmos os desconfortáveis solavancos dos primeiros 20km da BR-116, cujos buracos foram tapados por uma péssima operação tapa-buraco, rodamos mais 50km de estrada duplicada em ótimo estado. Quando a parte duplicada acabou, tivemos que passar entre carros e muitos caminhões numa buraqueira infernal até chegarmos na localidade conhecida por Triângulo, onde paramos para o café da manhã.

Do Triângulo até Quixadá, a Estrada do Algodão é praticamente uma reta só de 93km. Surpreendeu-me encontrar esta estrada em razoável estado de conservação, mesmo depois do forte período de chuvas recém passado.

Em passeios de motocicleta geralmente fotografamos mau. Parece que o tempo e a vontade de rodar nos impedem de parar a cada bela paisagem. Realmente é complicado, numa viagem, ficar parando sempre que se vê algo que merece ser registrado. Imagino até que logo depois de uma eventual parada para fotos, caso surja pouco à frente outra cena para foto, naturalmente que não se vai parar mais uma vez. Por conta disso é que resolvemos fazer este passeio apenas nós dois, parando onde cada um desejar, sem problemas com horário ou distâncias.

Aproximando-se de Quixadá começamos a ver os enormes blocos de pedra. Fizemos uma primeira parada para fotos. Menos de 50m depois vi uma enorme cobre jibóia morta no acostamento e paramos novamente. Verifiquei com a ponta da bota se a cobra estava morta mesmo e depois a levantei pela cauda para um registro fotográfico do bicho. Era uma cobra grande mesmo, mais de 2 metros de comprimento. Era pesada e ficava escorregando da minha mão, enluvada, claro, antes que o Paulo fotografasse. Quando larguei a cobra percebi que minha luva estava com um mau cheiro terrível. Cheiro de carniça mesmo.

Com a luva fedorenta, ainda antes de entra na cidade paramos para fotografar outros monólitos à beira de pequenas lagoas, escalando pedras e buscando imagens.

Entramos na cidade e, logo que paramos numa lanchonete, para beber água, procurei uma torneira e detergente para lavar luvas e mãos. Quem manda mexer em bicho morto em beira de estrada? Nesta lanchonete conversamos com algumas pessoas sobre a possibilidade de colocarmos nossas motos sobre a barragem do Cedro. Disseram-nos que não seria permitido até que eu falei que estávamos fotografando para uma revista de moto-turismo e que desejávamos mostrar um Ceará diferente, um Ceará que não era só de praias, que as belezas de Quixadá mereciam ser conhecidas mundo afora. Falei até que o Paulo fotografava para a National Geografic... O pessoal se empolgou e queriam nos levar à presença do secretário municipal de turismo. Falaram mil possibilidades, porém preferimos deixar para conversar com o responsável pelo acesso à barragem.

Antes de irmos para a barragem, seguimos por um caminho de barro até um ponto com ótima visão da Pedra da Galinha Choca, cartão postal de Quixadá. Fizemos algumas fotos e voltamos a nos dirigir para a barragem.

O açude do Cedro é o mais antigo do Brasil. Sua construção foi iniciada por D. Pedro II em 1873 sendo inaugurado somente em 1906 pelo presidente Afonso Pena. O reservatório é tombado como patrimônio histórico da humanidade. O reservatório foi construído por ordem de Dom Pedro II em decorrência do grande impacto social provocado pela terrível seca de 1877 - 1879. Foi um obra considerada de emergência. Sua edificação demorou 25 anos (grande emergência!...) e contou, em grande parte, com o emprego da mão de obra escrava e de flagelados da seca. Sua capacidade é de 126 milhões de metros cúbicos. Sangrou pela primeira vez em 1924 e também no ano seguinte. Entre 1930 e 1932 secou completamente. Só voltou a sangrar novamente em 1974, quando lembro que minha família se organizou e fomos todos juntos em comboio assistir o raro acontecimento. Minha avó paterna havia visto a primeira sangria e não desejava morrer sem ver o Cedro sangrar outra vez.

Conversamos com o responsável pela entrada na barragem e este informou que o rigor em não permitir veículos motorizados era tal que o dono de um quiosque era obrigado a parar seu veículo na entrada e levar grades de refrigerantes, cerveja, etc no próprio lombo. Diante de tal argumento não insistimos. Fotografamos alguma ruínas da época da construção do açude, voltamos para as motocicletas e fomos para a outra extremidade da barragem. Neste ponto também foi impossível colocar as motos onde desejávamos, não obstante um rapaz afirmar que, à noite havia um grupo que subia uma estreita e curva escada e andavam com suas motos sobre a barragem. Não, decidimos que não seria prudente fazermos tal coisa.

Visitamos o sangradouro do açude e vimos que, apesar das grandes chuvas deste ano, ainda faltavam cerca de 4 metros para o volume de água começasse a transpor o vertedouro. Como o Cedro é um reservatório sem ter um rio que o abasteça, é fenômeno raro seu volume de água ultrapassar o limite e sangrar. Quando isso acontece há verdadeiras romaria de gente de todo Ceará para assistir o espetáculo. Uma mulher, aparentemente da região, que também visitava o lugar comentou, dando graças aos seus santos, que as chuvas haviam sido generosas e que, caso chovesse bem no próximo ano, poderia ser que o Cedro sangrasse. Eu a contestei dizendo que, se neste ano que tivemos chuvas muito acima do normal e mesmo assim não houve sangramento, não se poderia esperar que este fenômeno ocorresse novamente.... Ela então falou que antes das chuvas chegarem o açude havia se transformado em uma poça de lama, quase que totalmente seco e que, portanto, poderia ser que no próximo ano, chovendo bem, eles tenham a felicidade de ver a água passando por cima daquela parede de concreto.

O horário não estava bom para fotos, pois já passava da dez horas, porém o tempo nublado quebrou um pouco a dureza da forte luz do sol do Ceará.

Caminhamos por toda extensão da bela barragem com suas grades e lajotas do piso importadas da Europa, fizemos diversas fotos, caminhamos até um outro ponto além, para mais fotos. Neste lugar subi numa pedra para tentar fazer uma foto do reflexo da Galinha Choca na água. Fiquei esperando a água alisar, ficar paradinha para se obter uma boa imagem refletida e, quando isto estava para acontecer alguém por perto botou um barco na água estragando tudo...

Fizemos um pequeno intervalo para comer um peixe e matar a sede com uma cervejinha.



Retornamos à cidade para procurar uma antiga construção restaurada denominada Chalé da Pedra. Antes fomos abastecer o tanque das motocicletas. A minha XT acendeu a luz da reserva com196km, a do Paulo com 176km. E eu achava que minha moto estava bebendo demais... fez 20,2km/l.

O Chalé da Pedra foi construído, sobre um monólito, na década de 20 do século passado, localiza-se no centro de Quixadá. Sua edificação foi realizada pelo Sr. Fausto Cândido de Alencar, copiando uma construção realizada pelo engenheiro inglês Jules Revy durante a construção do Açude do Cedro. Foi residência dos familiares de Fausto Cândido e também abrigou secretamente a Loja Maçônica de Quixadá. Ao redor do monólito sobre o qual foi construído existia uma lagoa, esta foi aterrada e agora nos arredores localiza-se a Praça Cultural, o Centro Cultural Raquel de Queiroz, a Fundação Cultural e Secretaria de Turismo de Quixadá. Fizemos ótimas fotos no local.

Há 12km da cidade, construído sobre um imenso monólito, fica o Santuário de Nossa Senhora rainha do Sertão. O acesso é por estrada de barro e, na parte da subida, com sinuosas curvas, o piso é de pedra tosca. O mesmo dia nublado que colaborou para as fotos com sol alto foi de encontro aos nossos desejos de boa luz ao entardecer. Pegamos até uma chuva neste caminho que, molhado ficou bastante escorregadio.

Do alto do Santuário se vê quase toda a região. Nas proximidades do santuário também existe uma plataforma para vôo livre de asa delta, para-pente, etc. Desta plataforma já se bateram diversos recordes mundiais de vôo. A região é das mais privilegiadas para tal esporte. Nossa idéia frustrada era fotografar o nascer da lua, que naquele dia seria ainda com bastante luz solar e também fotografar as cores do crepúsculo que imaginávamos seriam fantásticas. Como disse, naquela momento o tempo deixou de colaborar deixando tudo muito nublado e com chuva fina intermitente.

Não deixamos de fotografar, entretanto deixamos o lugar mais cedo do que esperávamos. Não haveria nascer de lua nem por do sol. De volta ao “solo” concluímos o dia fotográfico com algumas saideiras fazendo imagens com a pouca luz do final do dia.

Antes de pegar estrada de volta à Fortaleza, paramos em um posto para nos recompormos vestindo as jaquetas, limpando as viseiras dos capacetes e tomando um café novo quente e forte oferecido por uma simpática funcionária do posto. Esta parada também foi importante para passar o lusco-fusco – aquele momento em que o dia se mistura com a noite e nossa visão fica prejudicada. A propósito, a moça do posto achava que éramos pai e filho só por conta do nosso cavanhaque o corte de cabelo parecido...

Com os bons faróis das XT660 viajamos tranquilos, evidentemente com velocidade menor do que quando viemos, durante o dia. O ruim de viajar à noite, o ruim mesmo, não são buracos na pista, também não é tão ruim os eventuais animais na pista. Tudo isso com cautela e velocidade compatível se tira de letra. O ruim mesmo, a desgraça da estrada à noite são estes imbecis, estes energúmenos que não baixam os faróis ao cruzar com outro veículo. Ô peste!

Felizes com o dia vivido, mas com fome e sede, chegamos em Fortaleza por volta das oito horas da noite. Nossas mulheres nos aguardavam numa excelente pizzaria. Com o reconfortante afago delas, matamos nossa sede com cerveja geladíssima e a fome com pizzas muito especiais.

Obs: Para ver as fotos, entre na Galeria correspondente.

Luiz Almeida

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