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Rumo ao Norte - Viagem à Ilha de Marajó - Jan 2011

Eu nunca tinha rodado de moto além do Piauí, a Região Norte me era desconhecida por terra e sobre duas rodas. Nestas férias de 2011, portanto, resolvi, com minha namorada, Marta, na garupa, aproar a motocicleta para essa Região tão peculiar do nosso país.


Fortaleza-Ce/Parnaíba-Pi - 475km

Como não sou velejador, deixei as superstições marinheiras de lado e partimos com a DL 650 V-Strom, cinza, ano 2009, no dia 13 de janeiro. Saímos de Fortaleza sob uma chata chuva, mas nos primeiros quilômetros de estrada o tempo melhorou, apesar de rodarmos quase o tempo todo em asfalto molhado.

Abastecemos a moto em Camocim, depois de rodarmos 360km, e o consumo mostrou-se mais alto do que eu esperava: 18km/l, porém lembrei-me de que diante do risco de derramar gasolina sobre o tanque, não deixei que um trêmulo frentista enchesse o tanque completamente no abastecimento inicial.

Bastou sairmos do posto que desabou uma forte chuva. Até aí tudo bem, a estrada era boa e nosso equipamento de proteção razoável. O problema eram os raios que caiam logo adiante, como se estivessem atingindo a estrada alguns quilômetros à frente. Não é uma sensação boa pilotar nestas condições, ouvindo trovões... é assustador! Não havia onde nos abrigarmos, o jeito era seguir em frente. Esta chuva nos acompanhou até a entrada de Parnaíba, Piauí, onde surpreendentemente não chovia e as ruas estavam secas.

Em Parnaíba, procurando pousada, paramos num lugar onde havia ruínas de antigas instalações portuárias para fazer a foto de chegada e encontramos algumas modelos sendo fotografadas vestindo apenas peças íntimas. Interessante... Rodamos um bocado pela cidade, pedimos ajuda a um mototaxista até que paramos numa pousada, Pousada Porto das Barcas - exatamente vizinha àquelas antigas instalações...

Depois de apreciarmos o sol deixando o dia por debaixo da ponte sobre um braço do rio Parnaíba, fomos, de táxi, comer os famosos caranguejos da região acompanhados de boas cervejas.

Parnaíba-Pi/São Luís-Ma – 523km

Em dia ensolarado saímos de Parnaíba rumo a São Luís. Ao cruzarmos a bela, longa e alta ponte de Jandira, sobre o Rio Parnaíba, que divide o Piauí do Maranhão, tivemos o maior susto de toda a viagem: Como a ponte possui largos acostamentos, paramos para fotos. Naquele momento passou um caminhão e a ponte começou a balançar tanto que nos sentimos como em um terremoto grau oito na escala Richters. Marta, que estava sentada na amurada, chegou a pensar em como poderia, em caso de desabamento, nadar vestindo capacete e roupa de cordura!


A propósito, minha roupa de cordura está começando a incomodar. Esquenta prá burro e não protege da chuva. Penso que melhor estaria com minha velha e boa jaqueta de couro, calça jeans e capa de chuva...

Entramos no Maranhão. O Maranhão é verde! E, diferentemente do Ceará, passa água em tudo que é ponte, sejam de que tamanho forem. Também começamos a perceber a predominância dos babaçus nas matas que ladeiam a estrada, principal fonte de renda das pessoas mais pobres da região. O Maranhão tem água e um IDH pior do que o do Ceará. O Ceará carece de água. O problema, portanto, não parece ser de falta de água...

Senti-me em um outro país ao chegar em São Bernardo-Ma, na BR-222. Muitas motocicletas pequenas circulando na cidade, quase todas sem placa e nenhum piloto ou garupa usavam capacetes. Que estranhos éramos nós! Tal situação repetia-se em quase todas cidades que cruzamos no interior do Maranhão.

Não posso deixar de lembrar das lombadas nas estradas maranhenses. Basta haver na beira da estrada algumas malocas de índios que lá vêm uma meia dúzia de quatro ou dez lombadas altíssimas - e muitas sem qualquer tipo de sinalização! Ainda bem que coloquei um protetor de cárter na Struminha, pois este ralava em quase todas as lombadas, mesmo quando eu as escalava vagarosamente, colocando um pé sobre elas. Durante toda a viagem senti saudade dos civilizados foto-sensores das estrada estaduais do Ceará. Nunca mais reclamarei de foto-sensores!

Na beira da estrada víamos aqui e ali conjuntos de cinco ou oito casas como se fossem uma pequena tribo. As casas eram construídas de taipa com cobertura de palha de babaçu, portas estreitas e, quando havia, uma pequena janela. Quando paramos para almoçar em Chapadinha pedi a Marta para ficar com a máquina fotográfica pequena à mão e tentasse fazer fotos daquele tipo peculiar de habitação. Engraçado, depois de Chapadinha não vimos mais aquele tipo de habitação.

A única forma de entrar em São Luís por terra é pela BR-135. A partir do entroncamento da BR-222 com a BR-135 pegamos tráfego intenso e pesado. A frequentes lombadas geravam filas intermináveis de carros e caminhões. Fiz diversas ultrapassagens pelo acostamento nos trechos de lombadas, com o trânsito parado. O Código de Trânsito Brasileiro diz que não deve haver lombadas físicas. Por que só o Estado há de descumprir as normas?

Ao nosso lado, na via férrea paralela à estrada, movia-se na nossa velocidade uma enorme composição ferroviária. Nunca vi tantos vagões juntos, tracionados por pelo menos três grandes locomotivas intercaladas na composição rumo ao porto de Itaqui. É o minério de ferro de Carajás indo para a China...





Entramos em São Luís por volta das 16:00h. Parei em um posto e liguei para o Brazil Riders Expedito, que logo nos encontrou, levou-nos para hotel e deu-nos todo apoio possível. Hospedamo-nos no Centro Histórico, pois fora dali, toda cidade tem um quê de parecido. Foi uma ótima decisão, circulamos e fotografamos aquele sítio histórico dia e noite. Era noite de sábado e todas as ruas estavam lotadas de todo tipo de gente, uma imensa variedade de fauna e “flora”. Muito interessante tudo aquilo. Chamou-me atenção a quantidade de moças bonitas a se beijar em público (que desperdício!). Será que é algum modismo de novela da Globo? O presente e constante policiamento ostensivo nos dava segurança e tranqüilidade.


Nos dias de São Luís, circulamos por toda cidade e praias, voltamos para noitada no Centro Histórico, conhecemos Mestre Amaral e seu tambores crioulos, entramos em festa onde éramos os únicos com pele clara, bebemos e comemos bem e caro. Sim, saindo do Piauí rumo ao norte tudo é mais caro.


O ferry boat que parte do Porto de Itaqui para Alcântara saía as 07:30h, portanto o dia era de acordar cedo, coisa natural para mim e sacrifício para Marta. Navegamos por cerca de três horas com centenas de gaivotas acompanhando a embarcação. No continente rodamos 50km até chegar a histórica Alcântara. Cidadezinha simpática com um calçamento de pedras tão duras que a moto parecia que ia se desmanchar. Ficamos na razoável pousada Mordomo Régio, cujo administrador era motociclista e contador de histórias. Vale a pena visitar Alcântara, conhecer seu casario e ruínas coloniais de igrejas e casarões, nenhuma de escola!, porém é bom alertar que há uma certa carência de infra-estrutura de hospedagem e alimentação. O único restaurante localizado na parte histórica encerrou o serviço em plena tarde de domingo porque o faz-tudo do lugar foi a uma festa reggae. De táxi, para evitar o desconforto de pilotar a moto naquelas ruas, fomos jantar panquecas em restaurante na entrada da cidade.


Alcântara-Ma/Mosqueiro-Pa – 578km

Saímos de Alcântara sob chuvinha chata e estrada molhada. Ao cruzarmos com dois motociclistas de São Luís, 70km depois, em uma lombada, (sempre as lombadas) paramos para conversar um pouco. Revivi desta forma o costume dos velhos motociclistas de estrada. Aproximando-se de Santa Helena, já sem chuva e num calor dos diabos, percebe-se que nesta região a floresta de babaçus cede lugar a extensos arrozais. Paramos em Turilândia-Ma, para descanso e abastecimento. Neste trecho a DL 650 fez seu melhor consumo de combustível de toda a viagem; 21,36km/l.






Entramos na BR-316 em Gov. Nunes Freire e logo cruzamos a divisa entre o Maranhão e o Pará. Neste trecho as cidades têm bonitos jardins ao longo da parte urbana da estrada, com flores e muitas árvores podadas em formato de palhaços, castelos, animais, etc. Curioso que paramos numa cidadezinha para um lanche e pedimos coca-cola de dois litros por não haver menor. Oferecemos mais da metade da garrafa a alguns estudantes que haviam acabado de descer de transporte escolar e nenhum deles aceitou. Como poderiam receber algo de gente tão estranha? Já havia começado as aulas?, perguntei. Não, estavam todos em recuperação. Rigorosos professores ou relapsos alunos. Eram dois ônibus e um caminhão lotados de estudantes.

Pouco antes de entrar em Belém resolvi telefonar para meu contato Brazil Riders na cidade, Alex Reis, para saber se seria interessante visitar logo a tão falada praia de Mosqueiro. Alex disse que sim, indicou-me contato e pousada. A estrada para Mosqueiro é ladeada por exuberante floresta e cheguei a ver tucanos em vôo cruzando a estrada. Encontramos o contato indicado, Antônio, que nos levou a uma pousada desativada que ele tomava conta. Colocou-nos em um chalé sobre palafitas no meio da mata e, enquanto fomos fazer uma refeição decente, Antônio deixou o lugar habitável. Estávamos com uma fome canina, com vontade de comer um bom filet alto e mal passado, mas lembrei-me; estamos no Pará, a cerveja deve ser a Cerpa (quatro contos a garrafinha abaitolada!) e a comida uma caldeirada de peixe(filhote), camarão e mariscos ao tucupi e jambú. Prato caro e bem servido. Comemos tudo, só restando um pouquinho do caldo. Eita gula pecaminosa!

Dois casais que farreavam em plena segunda feira na casa principal da "pousada" ouviam reggae em alto volume nos incomodava um pouco. Nada que aborrecesse, mas melhor teria sido o ruído das ondas do mar bem próximo. Quando amanheceu fomos conhecer a praia. A floresta amazônica terminava num mar de água barrenta, com ondas que permitiam o surf e, sim, de água doce!

Uma informação: A palavra Mosqueiro (que o paraense pronuncia Moxxxqueiro) vem de Moquém, de Moquear, de Moqueiro, que significa defumar ou assar na língua indígena. Nada a ver com moscas, como sugere a corruptela vigente.


Improvisamos um café da manhã e fomos para Belém, distante 77km. Entramos na cidade por volta das 10:30h, enfrentando um trânsito travado e muito calor – como incomodava a roupa de cordura! Belém, apesar das ruas mais largas, tem trânsito mais travado do que Fortaleza. Não consegui falar com o Alex e fui indo, fui indo, indo até que cheguei na Estação das Docas, lugar bacana onde relaxamos, almoçamos muito bem e finalmente conseguimos contato com nosso amigo, que nos indicou hotel e ensinou que rumo tomar. Era perto das três da tarde quando saíamos da Estação das Docas e o céu fechou-se numa caratonha horrorosa. Cheguei a perguntar se aquela chuva passaria a um funcionário da Estação. Diante da resposta negativa, o jeito foi enfrentar a chuva, afinal, motociclistas são superiores ao tempo.



O céu desabou com tudo que tinha direito pegando-nos em plena Avenida Nazaré, meio que perdido numa cidade estranha em trânsito congestionado, quase parado. A mala de tanque estava sem a proteção de plástico e eu temia pelas máquinas fotográficas. Raios e trovões atacavam por cima das enormes mangueiras características de Belém enquanto rios de água atacavam por baixo, chegando a cobrir minha botas. Que sufoco! Marta até conseguiu um saco plástico com um solidário motorista ao lado, salvando assim a câmera Sony H-55, que estava mais desprotegida. Depois de uma eternidade sendo vítima de bíblico dilúvio consegui entrar num posto de gasolina para respirar um pouco e buscar orientação. Estávamos no rumo certo. A chuva amainou e não demoramos a chegar no hotel.

Para o hotel Formule 1 você é apenas um número. Acho que é tipo MacDonalds, só não tenho maior certeza porque nunca comi em MacDonalds. Você chega e o robô, digo, a moça do balcão de alistamento, digo, recepção, te entrega automaticamente uma ficha para preencher. -Moça libere nosso apartamento que desceremos em seguida para preencher as fichas, afinal estamos muito molhados. Não pode! Tudo bem, entregamos a ela duas fichas bem preenchidas e bem molhadas... Tudo é pago na hora e adiantado. O hotel é novo e bem cuidado. Garagem no subsolo. A diária é de R$85,00 para até três pessoas, os apartamentos são bem pequenos e todos iguais. Não tem frigobar nem interfone. Lucratividade máxima. Não gosto de MacDonalds, mas passar fome é pior.


À noite saímos com Alex para encontro com o motoclube dele em um lugar denominado Ver-o-Rio - turma boa! - e depois passamos no Ver-o-Peso para umas cervas acompanhadas de peixe, tudo muito rústico e tradicional.


Dia seguinte Marta foi consertar unhas, eu trocar óleo e filtro da moto (com mais de 500km de atraso). No processo de trocar óleo e filtro, verifiquei que o suporte traseiro direito do protetor de cárter estava quebrado – as lombadas da estrada mandavam lembranças... Depois voltamos ao Ver-o-peso, fotografamos, comemos tacacá, visitamos museus e aguardamos a chuva passar para irmos ao Mangal da Garças, lugar que me parecia ser muito bacana. Porém, quando a chuva passou já não dava mais para ir ao Mangal. No Ver-o-peso, por timidez ou outro motivo deixei de fazer uma foto que imagino seria bem interessante: Num local em que se fazia Maniçoba e Tucupí, conversei com um "negão sem camisa" que enquanto ensinava-me o processo de cozimento da maniçoba enfiava o bração inteiro no tambor transbordante para mexer o tucupí que ali se preparava. Oportunidade perdida!


À noite, mais uma vez fomos ao encontro de moto clubes, desta vez para reunião de planejamento de futuro primeiro Encontro Motociclístico em Belém. Terminada a reunião saímos com Alex e esposa para um farto e saboroso jantar típico.



Mais um dia de acordar cedo. O ferry boat para a Ilha de Marajó partia as 07:30h. Saímos do hotel anonimamente, tal como entramos. Tomamos café da manhã em Icoaraçi, na rampa de embarque mesmo. Foram três horas de navegação por barrentas águas amazônicas. A gente observa nos mapas uma tirinha de água separando a ilha do continente, mas aquilo é um mar que mal dá para se ver terra em ambos lados.

Desembarcamos no Porto do Camará e rodamos 27km curtindo o ambiente da Ilha até chegarmos a mais um ferry boat que dá acesso a Soure, maior cidade da Ilha de Marajó. Enquanto aguardávamos o embarque começou uma forte chuva. Abrigados num boteco, aproveitamos para provar churrasquinhos de gato com carne de búfalo regado a umas duas latinhas de cerveja. A chuva passou exatamente na hora do embarque.



Era dia de festa em Soure, aniversário da cidade. Procuramos a Pousada do Francês, onde o Alex havia recomendado e confirmado reserva para nós ao preço de R$80,00 a diária. O francês nos atendeu no portão de sua pousada, olhando para nós e a motocicleta dizendo, meio que desconsertado, que não havia vagas em sua pousada. Falei da reserva confirmada pelo Alex na minha frente e ele disse que havia ligado posteriormente para o meu amigo avisando da falta de vagas. Mentira! Jantamos com o Alex até depois da meia noite e este nada falou sobre o assunto. Sentimo-nos como naqueles filmes em que judeus são discriminados em lojas, restaurantes e hotéis. O estrangeiro não honrou a reserva e ainda mentiu duas vezes - quando disse que ligou para o Alex e quando informou que a diária era de R$100,00. Ficou inventando todo tipo de desculpas enquanto montávamos na V-Strom e saíamos em busca da Pousada Inajá, onde eu havia pensado em ficar antes da recomendação do Alex. Gasto meu dinheiro preferencialmente com gente da terra.



As ruas e avenidas de Soure são todas numeradas. Oito avenidas e 28 ruas. Há mais búfalos soltos nas ruas do que cachorros vira latas. Numa esquina da rua 23 encontramos a Pousada Inajá. Fomos muito bem recebidos pela dona Fátima, proprietária do estabelecimento juntamente com seu marido Sr Bartolomeu. Piscina, ar-condicionado, frigobar, estacionamento para a moto e tudo mais que tínhamos direito por R$70,00. Que pousada de francês fedorento que nada!

Relaxamos das navegações do dia com piscina, cerveja e queijo de búfala. À noite fomos para a área do Píer, ver os festejos do aniversário da cidade, mas frustrou-nos não ver carimbó, em vez disso, um Dj montado numa enorme mesa de som em formato de cabeça de búfalo despejava som eletrônico em nível ensurdecedor. No restaurante da pousada jantamos suculentos e saborosos filet de búfalo antes de irmos dormir.



O tempo em Marajó é muito instável, pelo menos nesta época do ano. Parece que vai chover e não chove. Parece que vem sol e desaba chuva forte. Não há garantia de nada. Mesmo assim, hereticamente (sem capacetes e de chinelos), pegamos a moto e fomos conhecer a praia de Barra Velha, recomendada por Dona Fátima. Valeu a pena. Não choveu e a praia é bem diferente de tudo que estamos acostumados a ver. Chega-se cruzando a pé uma longa e estreita ponte sobre um mangue, na praia há enormes e isoladas árvores, vestígios de manguezais aterrados, e muitas barraquinhas que ficam sobre palafitas. Enquanto comíamos belos caranguejos regados a cerveja cerpa, vi uma motinha rodando na praia e logo a Struminha entrou na areia. Só não rodei mais, para conhecer toda a faixa de areia além da praia, porque temia armadilhas em praia estranha e desconhecida. Sabem como é, a lama do mangue aterrado estava logo ali, embaixo da areia fina e durinha. Um detalhe; foi nesta praia que foram feitas parte das fotos da modelo da capa da revista Playboy de janeiro de 2011.

À noite fomos novamente para a agitação do Píer, sem carimbó. Outra vez jantamos, filet mignon de búfalo em um bom restaurante.

Nosso terceiro dia em Marajó amanheceu chuvoso. Conhecemos um casal de mineiros que estava na pousada, Núria E Pablo. Dona Fátima resolveu nossos problemas emprestando-nos um velho e sedento Fiat Uno. Com indicações de roteiro de visita ao artesanato marajoara rodamos por diversos ateliês, jogamos conversa fora com artesãos e por fim, fomos conhecer outra praia, a do Pesqueiro. A quantidade de moscas e urubús na Praia do Pesqueiro não nos agradou, além do que, a Praia de Barra Velha era muito mais interessante e foi para lá que fomos, enlatados no fervente Uno, com nossos novos amigos.

Dona Fátima nos informou que à noite haveria uma apresentação de carimbó no Hotel Ilha do Marajó e nos ensinou como chegar. Obrigado Sr Francês, por não ter aceito motociclista em sua pousada! Foi uma apresentação muito bonita. Esta manifestação típica do Marajó merece mais zelo e incentivo à sua preservação como um valor patrimonial daquele povo. Abaixo descrevo o carimbó com texto meu misturado com outros pinçados na internet:


O Carimbó é uma dança típica da Ilha de Marajó, no Estado do Pará. Sua origem é indígena, porém incorpora elementos africanos e ibéricos. Quando tive a oportunidade de assistir um apresentação, não deixei de registrar com dezenas de fotos tão encantadora manifestação cultural.


As mulheres (sempre simpáticas e sensuais) dançam descalças e com saias coloridas que vão até os pés muito franzidas e amplas. A saia normalmente é de cetim ou também pode ser de seda e outros tecidos. Blusas de cores lisas, pulseiras e colares de sementes grandes. Os cabelos são ornamentados com ramos de rosas ou jasmim. Todos os dançarinos apresentam-se descalços.


Os homens dançam utilizando calças geralmente brancas e simples, comumente com a bainha enrolada, costume herdado dos ancestrais negros que utilizavam a bainha da calça desta forma devido as atividades exercidas, como a exemplo, a coleta de caranguejos nos manguesais. Além disto ainda utilizam camisa de pano com desenho e corte comum a que a população ribeirinha tradicionalmente utilizava até meados do início do século XX, juntamente com o tradicional chapéu de palha.

As letras de carimbó geralmente são poemas espontâneos compostos por trabalhadores que versejam sobre fatos da sua rotina: suas batalhas no trabalho, seus amores etc. Como Algodoal, por exemplo, onde os pescadores registram em seus cantos os mitos e as lendas locais, seus trabalhos pesqueiros e a beleza natural da ilha. Geralmente são poemas curtos rimados com palavras simples fáceis de memorizar, pois são repetidos algumas vezes no momento do canto.


A dança é apresentada em pares. Começa com duas fileiras de homens e mulheres com a frente voltada para o centro. Quando a música inicia os homens vão em direção às mulheres, diante das quais batem palmas como uma espécie de convite para a dança. Imediatamente os pares se formam, girando continuamente em torno de si mesmo, ao mesmo tempo formando um grande círculo que gira em sentido contrário ao ponteiro do relógio. Nesta parte observa-se a influência indígena, quando os dançarinos fazem alguns movimentos com o corpo curvado para frente, sempre puxando-o com um pé na frente, marcando acentuadamente o ritmo vibrante. As mulheres, cheias de encantos e sensualidade, costumam tirar graça com seus companheiros segurando a barra da saia, esperando o momento em que os seus cavalheiros estejam distraídos para atirar-lhes no rosto esta parte da indumentária feminina. O fato sempre provoca gritos e gargalhadas nos outros dançadores. Em determinado momento da "dança do carimbó" vai para o centro um casal de dançadores para a execução da famosa dança do peru, ou "Peru de Atalaia", onde o cavalheiro é forçado a apanhar, apenas com a boca, um lenço que sua companheira estende no chão. Caso o cavalheiro não consiga executar tal proeza sua companheira atira- lhe a barra da saia no rosto e, debaixo de vaias dos demais. Caso consiga é aplaudido. Também há a dança do "Boto" sedutor, entre outras.



O acompanhamento da dança tem, obrigatoriamente, dois "carimbós" (tambores) com dimensões diferentes para se conseguir contraste sonoro, com os tocadores sentados sobre os troncos, utilizando as mãos à guisa de baquetas, com os quais executam o ritmo adequado. Outro tocador, com dois paus, executa outros instrumentos obrigatórios, como o ganzá, o reco-reco, o banjo, a flauta, os maracás, afochê e os pandeiros. Esses instrumentos compõem o conjunto musical característico, sem a utilização de instrumentos eletrônicos.




Nosso último dia marajoara foi de inesquecível passeio na Fazenda São Jerônimo. Montamos búfalos, entramos em matas fechadas abrindo caminho a facão e navegamos em canoas a remo por belos igarapés. Tudo isso com guias, claro. O custo do passeio que dura de três a quatro horas é de R$50,00 por pessoa. Nesta fazenda foram feitas mais fotos da moça da capa da Playboy de janeiro, montada peladona em búfalo, aparentemente o mesmo que Marta montou no nosso passeio, Marta vestida, claro!



Depois de três noites e quatro dias em Soure, às 15:30h embarcamos de volta ao continente. Desta vez foram quatro horas de navegação, por conta da maré que estava baixando. Como resolvemos não retornar à Belém, ficamos no hotel G-1, próximo ao entroncamento com avenida de acesso à BR-316.

Belém-Pa/Bacabal-Ma – 647km

O dia amanheceu prometendo chuva, céu nublado e rua molhada. Depois do café da manhã, enquanto Marta arrumava as bagagens (só ela conseguia fechar o bauleto), desci para lubrificar corrente e checar a motocicleta, coisa que fazia sempre em todo começo de viagem. As 08:30h saímos de Belém rumo a Santa Inês-Ma, a 540km de Belém, onde pretendíamos pernoitar. Agora era voltar para casa.

Mantive o conta-giros entre 5000 e 6000 rpm, que significa em sexta marcha na DL650 rodar em velocidades entre 110 e 130 km/h. O motor ronronava gostoso, mas as médias não rendiam devido à quantidade de lombadas a cada aglomeração urbana. As lombadas eram mais largas e o protetor de cárter não mais roçava nelas, mas era necessário reduzir para segunda marcha e eu continuava com saudades dos tão antes odiados foto-sensores. Eu já disse que nunca mais vou reclamar de foto-sensores sinalizados?

Não choveu direto, mas por duas vezes o tempo ficou feio, céu muito escuro e formações de nuvens que pareciam tornados. Enfrentamos duas pancadas de chuva forte, mas como não parávamos, em dez/quinze minutos a chuva passava. Alcançamos Santa Inês ainda cedo, por volta das quatro da tarde. Passamos direto e resolvemos rodar mais 100km e ir até Bacabal-Ma ou onde mais fosse possível.

Chegamos a Bacabal por volta das cinco horas da tarde com um céu muito ameaçador à frente. Para não arriscar pilotar à noite debaixo de chuva forte resolvemos dormir em Bacabal mesmo, onde encontramos facilmente hotel, junto a um posto BR. Quase despenquei no chão de susto quando levava a bagagem para nosso apartamento. Um raio caiu num poste ao lado do hotel causando um estrondo assustador. Faltou energia elétrica na cidade toda. Enquanto Marta arrumava nossa bagagem desci para estacionar a moto em lugar protegido e tomar umas cervas admirando a torrencial chuva que jorrava sobre a cidade.



Bacabal-Ma/Praia da Lagoinha-Ce 920km

Saímos de Bacabal às 08:00h, sem chuva e sem ter certeza de onde chegaríamos na jornada daquele dia. Havia Sobral a 610km, Praia da Lagoinha com mais 310km ou mesmo a opção de forçar a pernada e chegar em Fortaleza, rodando cerca de mil quilômetros. Com garupa isso é meio complicado...

Entramos em Caxias-Ma principalmente para sacar dinheiro em caixa eletrônico. Cidade de médio porte com ruas estreitas e trânsito complicado. Sob um calor da peste, Marta aproveitou para comprar spray para dores musculares. Demoramos um pouco no abafado centro de Caxias. Abastecemos a moto e voltamos para a estrada.

Nos despedimos do Maranhão cruzando a cidade mais feia de toda a viagem; Timon. Trânsito infernal, barulho, cheiro ruim, sujeira e muito lixo nas ruas, além da buraqueira e lombadas para completar. Cruzamos a ponte sobre o Rio Parnaíba, contornamos Teresina, capital do Piauí, por estrada agradável ladeada por mata atlântica preservada, onde paramos para um frugal almoço.

A BR-343, no Piauí está em bom estado e bem sinalizada. Falta tirarem os animais da pista. Pouco depois de Campo Maior tive que dar a única freada forte da viagem por conta de jumentos na estrada. Uma providencial chuva amainou o calor quando chegávamos a Piripiri, onde paramos para descanso e abastecimento. Molhados seguimos viagem observando muita água barrenta movimentando-se nas laterais da estrada, sinal de muita chuva há poucos dias.

O molhado que nos confortou em Piripiri nos fez sentir algum frio na subida da Serra da Ibiapaba, onde demos uma paradinha em Tianguá-Ce para descanso, cigarrinho, água e uma dose dupla de Old Parr para Marta. Descemos o perigoso trecho de serra com cuidado adicional por conta de pista molhada e da lama que em um ponto ou outro escorria dos barrancos. Todas as placas de sinalização entre Tiaguá e Sobral estão pichadas por vândalos, inclusive as que indicam postos da Polícia Rodoviária Federal a menos de 50m destes.

A propósito, há um ano, quando passei por Tianguá a caminho do Parque Nacional de Sete Cidades, o contorno desta cidade estava um caos devido à obras, incluindo viaduto, na Rodovia Federal. Exatamente um ano depois tudo se encontra na mesma situação, com a obra parada, deteriorando-se e causando transtornos. Brasil...

Depois da descida da serra, em estrada conhecida, de poucas curvas, grande retas e pouco tráfego acelerei forte, na faixa dos 130/140km/h para chegar cedo em Sobral e decidir o que fazer. Alguns amigos aguardavam nossa ligação telefônica para fazerem-se presentes na Praia da Lagoinha, caso chegássemos naquele dia.




Era pouco antes das cinco da tarde quando paramos num posto na estrada, no contorno de Sobral. Perguntei à Marta o que seria mais perigoso, dormirmos em Sobral ou rodarmos à noite com possibilidade de chuva. Diante da disposição da brava garupa em seguir em frente, enquanto eu abastecia a moto Marta ligou para os amigos avisando que chegaríamos na Praia da Lagoinha por volta das oito da noite. O ponto de encontro seria no restaurante Fullxico, do grande chef e amigo Sampaio.

Devido a forte tocada para chegarmos cedo em Sobral, fizemos neste ponto o mais alto consumo de combustível da viagem; 17,47km/l.

De acordo com minha rápida pesquisa no mapa e informação vaga do frentista, seriam apenas mais 170km de estrada. Saímos da BR-222 e entramos na rodovia estadual Ce-178, que nos leva a Morrinhos. Escureceu rapidamente. Imaginei que de Morrinhos já estaríamos na Ce-085, rodovia Estruturante, recém ampliada e bem sinalizada. Ledo engano, tivemos que fazer um “bico” até Itapipoca pela Ce-354, irmos até a localidade de Barrento e só então alcançamos a Ce-085. Errei a pernada noturna por “apenas” 140km.

O único problema do trecho noturno foi que os excelentes faróis da V-Strom estavam regulados para apenas o piloto, fazendo que, com garupa e bagagem, o facho alto ficasse alto demais e o baixo ofuscando quem vinha em sentido contrário, gerando muitas reclamações que me cegavam por alguns segundos. Perto de Itapipoca encontramos um caminhão atravessado na pista e alguns bois por perto. Imaginei que era um acidente causado por animal na pista. Não era. O caminhão quebrou, não sei por qual motivo, naquela posição, interrompendo a passagem em ambos sentidos. Encontrei uma passagem para a Struminha e fomos embora, deixando a confusão para trás.

Era nove da noite quando finalmente chegamos ao Fullxico, na Lagoinha. Joarez e Dandã já haviam chegado minutos antes e Pablo e Graça chegaram poucos minutos depois. A primeira coisa que fiz foi pedir a Marta para abrir o bauleto e dar a “heróica”, pois não suportava mais aquela calça de cordura que me esfolava os joelhos. “Heróica” foi como eu passei a chamar uma bermuda azul, única que levei na viagem e que usei quase que diariamente nas mais diversas atividades, que de tão versátil nem foi preciso lavar...

Foi muita conversa jogada fora, muita cerveja, vinhos e um jantar digno dos mais exigentes paladares somado ao pecado da gula. Vale a pena sair de Fortaleza, rodar 120km até a lagoinha apenas para jantar no Fullxico. A cozinha do Sampaio é muito melhor e mais bem servida do que a de muitos restaurantes caros ou metidos a besta de Fortaleza.

Pouco depois da meia noite nos recolhemos na Pousada Pontal das Dunas, na mesma Lagoinha, onde nosso amigo Salema, o proprietário, nos recebeu, estranhando o fato de eu chegar de viagem calçando chinela havaiana e usando bermuda. Tomamos breves saideiras porque nossos amigos teriam de acordar cedo para retornarem à Fortaleza, ao trabalho.

Concluímos nossa viagem de férias de 13 dias caminhando pela praia com mar de água verde-esmeralda, almoçando um fantástico filet alto no Fullxico, tirando uma soneca e fazendo uma curta jornada de 120km até em casa.


Considerações Finais

A quilometragem total da viagem foi de 3650km.

O consumo médio de combustível ficou em 19,32km/litro. O mais baixo em 21,36km/l e o mais alto em 17,47km/l. Na maioria das vezes o consumo ficou na faixa dos 20km por litro. A despesa total com gasolina foi de R$514,28.

Gastamos R$1237,00 com diárias em hotéis e pousadas e R$1457,70 com refeições, bebidas e lanches. A despesa total foi de R$3756,38, incluindo aí lavagem de moto, troca de óleo e filtro, ferry boats, lavagem de roupas, passeios, guias, e muitos etcéteras.

O pneu traseiro da V-Strom chegou pedindo troca. Nada escandaloso, mas era hora de trocar – rodou 14600km. Troquei ambos, pois não acho legal ter um pneu novo atrás e um prá lá de meia vida na frente. Além do que, os originais eram Bridgestone e os substitui pelos Anakee da Michelin. O custo da troca foi de mil contos.

Meu conjunto de roupa de cordura está aposentado. Nunca mais usarei jaqueta Zebra e calça JC, incomodaram demais e deram proteção apenas parcial na chuva.

É bom lembrar que viajamos em época de chuva. Chove muito em todo o Brasil nos primeiros meses do ano. Pelo menos é assim no Sudeste, Nordeste e Norte. Julho é alta temporada turística na Ilha de Marajó. Penso que o ideal seria visitar Marajó nos meses de setembro, outubro ou novembro.

Por fim, quero dizer que valeu a pena conhecer Soure e parte da enorme Ilha de Marajó, com sua gente acolhedora e simpática, além de todo o roteiro que fizemos.

Obs: Veja as Fotos da Viagem na Galeria Correspondente..

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