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Destaque

Viagem à Aracaju

(Visita ao Euclides)

1- Aracaju???

Em viagem ao Sul da Bahia e Chapada Diamantina realizada em 2006, sa√≠ de Aracaju dizendo que aquela cidade n√£o gostava de mim e que n√£o mais voltaria l√°. Nada de especial aconteceu, mas entrar numa cidade em come√ßo de noite chuvoso, com seus acessos em obras, tr√Ęnsito congestionado, e sem saber que rumo tomar n√£o √© nada agrad√°vel. Havia na minha agenda um contato na cidade que consegui atrav√©s do Brazil Riders ou Clube XT600. Era uma pessoa de nome Euclides, que se prontificara a dar o apoio necess√°rio, mas que eu n√£o tinha a m√≠nima ideia de quem seria. Chovia muito. Quando finalmente consegui reencontrar os outros dois companheiros de estrada, paramos numa lanchonete.

Liguei para Euclides, informando aproximadamente onde estávamos e solicitei indicação de pousada. Ele respondeu que não saberia indicar um hotel ou pousada, mas que viria ao nosso encontro para ajudar no que fosse necessário. Ora, não iria deixar uma pessoa sair de casa, imaginei que de motocicleta, à noite e debaixo de chuva apenas para nos ajudar a encontrar pousada. Ele insistiu, mas recusei a ajuda ficando muito grato pela disposição dele. Nos alojamos razoavelmente bem e, dia seguinte, partimos em direção a Salvador (Ba) sem sequer termos visto o mar que banha a cidade. Este episódio está no relato de viagem que escrevi sobre a viagem de 2006.

Passa o tempo e volto a manter contato com o Euclides através do M@D, fórum de motociclistas de que participo há muito tempo.

Em julho deste ano (2011), Jota, velho e bom amigo do M@D, sugeriu uma viagem a Aracaju, para visitarmos o Euclides e demais membros do f√≥rum na cidade. Relutei, a princ√≠pio ¬Ė Aracaju?... Mas a ideia foi tomando corpo e resolvemos que, no dia sete de setembro, Jota sairia de Belo Horizonte e eu de Fortaleza rumo √† capital de Sergipe.

2- Fortaleza-Jo√£o Pessoa (Quarta feira 07/09/2011)

As mala laterais da DL 650 V-Strom já estavam, de véspera, carregadas na moto. Incluindo o bauleto, a mala de tanque, e Marta, minha namorada na garupa, viajaríamos com carga total na motocicleta.

Sa√≠mos de Fortaleza √†s seis da manh√£, com tempo bom e tradicional forte vento de proa. Rodamos 145km na rodovia Ce 040 at√© Aracati para o primeiro abastecimento e r√°pido descanso. Na mon√≥tona reta at√© Mossor√≥, Br 304, o motor da Struminha ronronava tranq√ľilo, empurrando-nos na faixa dos 120/130km/h. Quando contorn√°vamos Mossor√≥, um motoqueiro avisou que uma das malas laterais estava aberta. Isso gerou uma r√°pida parada imprevista e seguimos em frente. Por conta disso, resolvi alongar a tocada at√© Lages, a 242km do √ļltimo abastecimento, deixando de descansar em Assu conforme pensei inicialmente. Em Lages a Struminha bebeu 16,02 litros de gasolina, perfazendo um consumo de 15,13k por litro.

Marta comentando:

"Eu estava muito comportada na garupa, Luiz comandava a viagem. Ele havia, anteriormente, reclamado da minha necessidade de paradas mais ami√ļde. Mas confesso que adorei a parada por conta da mala lateral aberta. Era hora de alongar o corpo, esticar bem as pernas (que n√£o s√£o pequenas ! ). O ruim? Era em Mossor√≥, terra que al√©m de ter √°guas quentes, tamb√©m tem o ar quente e sufocante, acrescente-se a isso a nossa indument√°ria, e teremos um forno ambulante. Fazer o qu√™? Nem tudo √© perfeito."


Com a visão dos edifícios de Natal ao longe, por volta do meio dia chegamos a Parnamirim, onde fizemos uma parada para um sorvete e descanso. Marta está suportando muito bem estiradas acima de 150km, mas é bom não abusar, afinal não estamos em busca de recordes de bundas duras. O legal de uma motocicleta com boa autonomia é que nem sempre é necessário abastecer em cada parada e de ter a possibilidade de escolher onde se vai completar o tanque. Porém, paradas para pequeno descanso se fazem necessárias, pois a autonomia da moto é maior do que a autonomia da bunda.

A partir de Parnamirim a Br 101 está duplicada e nova, mas ainda há muitas lombadas sem a devida sinalização. Será que essa gente do Denit nunca ouviu falar em fotosenssores?

O rel√≥gio marcava duas e meia da tarde quando entramos na zona urbana de Jo√£o Pessoa. Fomos direto para a praia do Jacar√©, pensando em ficarmos numa pousada j√° conhecida, pertinho do famoso recanto onde se observa o p√īr do sol ao som do Bolero, de Ravel. A pousada estava desativada. Deixamos a quest√£o de hospedagem para depois e fomos almo√ßar em um dos restaurantes sobre palafitas, aguardando o show do final do dia, tomando cerveja e curtindo o ambiente.

Marta:
"De pé, por muito tempo ainda depois da chegada (adivinha por quê?), aguardamos uma carne de sol com macaxeira, prato típico do paraibano. A espera foi recompensada. A macaxeira tava do jeitinho que eu gosto, desmanchando, molinha. Ponha manteiga de terra por cima, e aí é só se deliciar. Especial."

A programa√ß√£o de final de dia no Jacar√© j√° foi melhor. Atualmente tem gente demais, barulho demais e tudo muito caro. Para piorar, ainda h√°, al√©m de outra embarca√ß√Ķes, dois catamar√£s de duplo piso que vendem passeios e que, no momento do Bolero com o sol sumindo no horizonte, ficam na frente da vis√£o de quem est√° nos restaurantes. Dif√≠cil fotografar o saxofonista a bordo de uma canoa sem a polui√ß√£o visual das embarca√ß√Ķes em volta.

Marta:
"Concordo com Luiz. O turismo em grande escala prejudica o lugar. Há uma poluição sonora incomodante, todos querem ouvir seus forrós em uma altura competitiva. Os prejudicados? Todos nós. A lembrança que me vem a mente é o de um caroço de manga chupado e cheio de mosquitos em cima."

Noite feita, saímos do Jacaré em busca de pousada, que segundo nos foi informado, seria fácil encontrar em Camboinha ou em Cabelelo.

Em Camboinha a √ļnica pousada existente estava desativada. Fomos para Cabedelo. A rua principal da cidade estava interrompida por desfile do Dia da P√°tria e uma confus√£o danada no tr√Ęnsito. Desisti. O jeito foi retornar e seguir para Intermares e depois Jo√£o Pessoa. Acho que eu havia esquecido de como √© complicado encontrar pousada razo√°vel em Jo√£o Pessoa. Perguntando aqui e ali chegamos numa Pousada do Caju e pernoitamos em seguran√ßa.

Marta:
"Dormir? Desmaiar era a palavra mais adequada, no meu caso. Mas eu fico mesmo é impressionada com a disposição do meu namorado, pilota com tanto prazer que nem se cansa. Haja energia pra acompanhar o pique do Luiz."

3 ¬Ė Jo√£o Pessoa/Aracaju (Quinta feira 08/09/2011)

O café da manhã na pousada só é servido a partir das sete horas, e Marta aprecia isso, tivemos que sair de João Pessoa um pouco mais tarde do que eu desejava. Os amigos m@dianos Gustavo Erivan e Diego Nunes nos aguardariam em Abreu de Lima, na entrada de Recife. Fiquei um pouco estressado na saída da cidade porque me fizeram uma indicação errada e eu quase entrei no caos do centro de João Pessoa. Dobra aqui, pergunta ali, sente-se perdido acolá e finalmente alcançamos a Br e torci o punho no rumo de Recife. Saber que alguém está à minha espera me deixa meio angustiado. Não gosto de me atrasar.

O tr√°fego intenso e a forma ca√≥tica com que tem sido feita a duplica√ß√£o da estrada deixaram esta parte da viagem um pouco tensa. Por√©m, chegamos dentro do previsto no posto de combust√≠veis combinado e l√° estavam os amigos. Jogamos uma meia hora de conversa fora, abasteci a moto e fomos juntos nos aventurar no caldeir√£o do inferno que era o contorno da Regi√£o metropolitana de Recife ¬Ė calor, caminh√Ķes, muitos caminh√Ķes, mal cheiro, pistas interditadas, acidentes, carretas engui√ßadas, filas de ca√ßambas, vans e furg√Ķes em todo e qualquer estado de conserva√ß√£o imagin√°vel, al√©m de muito barulho, por sei l√° quantos quil√īmetros. Tudo isso sem nenhum policiamento ou controle de tr√°fego. Entre filas de carros e caminh√Ķes, entre brechas nos acostamentos, fomos nos espremendo no meio daquela loucura sem fim e, como que saindo de um pesadelo, acordamos na estrada mais perfeita de toda a viagem: a Br 101, da entrada do Porto de Suape at√© Palmares ¬Ė rodovia duplicada com sinaliza√ß√£o perfeita e deliciosas curvas. Foram 130km de prazer e curvas para se curtir acelerando forte.

Marta:
"Foi como sair do inferno e entrar no c√©u. Parecia que est√°vamos numa rodovia de primeiro mundo. Luiz deitava a V-Strom nas curvas, uma del√≠cia. Acho que assustei os amigos algumas vezes, esticava as pernas e elas quase tocavam o ch√£o. Sinto-me muito segura na garupa de meu namorado, s√≥ me ocupo em abra√ß√°-lo, sentindo o vento e curtindo a paisagem. Esta confian√ßa na pilotagem √© essencial. Tenho amigas garupeiras que pretendem pilotar junto com seus consortes. Resultado: reclama√ß√Ķes, aborrecimentos, les√Ķes corporais tamb√©m, algumas at√© aplicam belisc√Ķes nas costelas deles. Neste momento, eu entendo quando escuto alguns deles dizendo que deveriam ter vindos sozinhos."

Chegando a Palmares entendi que meus amigos não tinham nada o que fazer na cidade. Nos acompanharam pelo prazer de estar na estrada, pelo prazer de rodar junto. Não preciso dizer o quanto fiquei lisonjeado e feliz com tal deferência. Foi bom estar naquela estrada com vocês, Diego e Erivan!

A partir de Palmares a estrada ainda n√£o est√° duplicada e o tr√°fego ficou mais denso e pesado. H√° obras e muitos desvios na pista, cada um com umas quatro lombadas altas. A maioria dos desvios s√£o contornos em viadutos em constru√ß√£o. O interessante √© que em dezenas de viadutos reparei que apenas dois eram sobre estradas vicinais, de barro. Os demais viadutos eram sobre os canaviais mesmo ¬Ė in√ļteis! Deu para entender direitinho o que um ent√£o presidente do Denit dizia sobre ¬ď mudan√ßa no escopo¬Ē para justificar Termos Aditivos aos contratos licitados...

Na BR 101, bem como em muitas outras estradas, h√° diversos trechos de terceira faixa nas subidas, destinadas a caminh√Ķes e outros ve√≠culos lentos. S√£o uma ¬ďm√£o na roda¬Ē para evitar filas de caminh√Ķes. Por√©m, pode ser que algum sabidinho em sentido contr√°rio queira fazer ultrapassagem proibida se aproveitando disso. No entanto, a terceira faixa pode conter manchas de √≥leo, sujeira ou at√© mesmo um caminh√£o parado, depois de uma curva, fora do nosso alcance de vis√£o. O ideal - conversei sobre este assunto com o Jota e agimos exatamente da mesma maneira - √© trafegar praticamente na faixa que separa a estrada normal da terceira faixa.

Paramos em Pilar (AL) para descanso e aproveitei para abastecer a moto. 19,22km/litro. Um ótimo consumo, levando em conta o tráfego travado no contorno de Recife e a boa velocidade que andamos até Palmares.

Come√ßava a anoitecer quando encontramos uma imensa fila de caminh√Ķes e carros parados na estrada. Imaginei um acidente. Diante de tantos ve√≠culos parados resolvi conduzir cuidadosamente a moto pelo acostamento at√© que, cerca de dois quil√īmetros √† frente, percebemos que era uma interdi√ß√£o parcial da pista por conta de obras em uma ponte na cidade de Maruin, em Sergipe. Havia uma viatura da PRF e me dirigi ao policial perguntando se poderia seguir em frente, ele, meio que alheio √†quela confus√£o fez um gesto de ok e estacionei a moto ao lado de um caminh√£o que estava como primeiro da fila. J√° havia outras moto no local.

Uma ambul√Ęncia com sirene ligada chegou. Vi o motorista da ambul√Ęncia se dirigir √† pequena guarita onde deveria estar o controlador daquele caos e voltar. Passou o tempo e nada de se inverter o fluxo da passagem. Fui at√© a guarita lembrar ao controlador que se havia uma ambul√Ęncia certamente havia uma pessoa correndo risco de vida. O cara ficou uma arara e me respondeu grosseiramente. Quando ia devolver a grosseria um dos motociclistas que estava por perto me informou que o cara da guarita estava b√™bado e que n√£o valia a briga. √Č, pensei, n√£o √© briga minha e ainda tem um cabra da PRF na √°rea. N√£o valeria a pena.

Quando finalmente fomos liberados, seguimos escoltados por um camarada numa XRE300. No lusco-fusco pouca coisa via √† minha frente. Logo entramos em pista dupla e nosso guia moment√Ęneo s√≥ se despediu quando j√° est√°vamos dentro da cidade.

4 - Aracaju!

Parei no mesmo posto que havia parado em 2006, em uma pequena rotatória ao término da avenida de acesso à cidade. Telefonei para o Euclides que informou que o Jota tinha acabado de chegar e estava num posto vizinho e que o Paulinho logo apareceria para nos conduzir pela cidade. Se eu e Jota tivéssemos combinado hora e ponto de encontro não teria dado tão certo.

Jota chegou ao posto e logo est√°vamos com latinhas de cerveja brindando √† nossa amizade. Paulinho logo chegou, de carro, e tamb√©m participou dos brindes. Seguimos nosso guia por um tr√Ęnsito bem congestionado, mas sem estresse nenhum, chegamos √† pousada que nos foi indicada, a Pousada do Farol, bem no in√≠cio da orla de praia da cidade.


Euclides e amigos j√° nos aguardavam no restaurante Ponto da Picanha, n√£o muito longe da pousada, ali√°s, at√© que era bem perto. Tiramos as tralhas das motocicletas e fomos para nossos aposentos. Marta ainda iria tomar banho e se arrumar. Jota tamb√©m resolveu se banhar. Eu, como n√£o queria fazer o ¬ďpolvo¬Ē nos esperar no restaurante, resolvi, j√° que a estrada purifica, n√£o tomar banho, s√≥ trocar a camiseta. Marta desceu e nada de Jota. Esperamos uns dez minutos e eis que chega o cabra todo arrumadinho, barba feita e tudo mais. Ri√©gua mineiro fresco!

Pegamos um t√°xi, bastava de montar em motocicleta por aquele dia. Era pertinho e acho que o retorno na avenida foi mais distante do que o percurso propriamente dito. A turma toda estava l√° e foi uma grande festa. Sentamo-nos √† mesa com Euclides e sua esposa T√Ęmara, com Paulinho, La√©rcio, Bruno e Felipe. Euclides, um simp√°tico camarada na faixa do 45/50 anos n√£o era nada do que eu poderia ter imaginado em 2006. O empres√°rio quarent√£o e bem sucedido, dono de uma V-Strom 1000 preta, n√£o estava dentro das possibilidades do que eu esperara, perdido em Aracaju, naquela confusa noite chuvosa na √ļltima vez em que estive na cidade. Foi uma √≥tima noitada com direito a muita conversa regada a cerveja e um bom jantar com amigos.

De volta à pousada, finalmente um bom e relaxante banho morno seguido de um bom sono embalado pelas deusas das estradas e das cervejas.

Marta:
"Uma das grandes alegrias de uma viagem é chegar ao seu destino. Isto quer dizer que, no dia seguinte, não precisamos acordar de madrugada, podemos dormir até mais tarde. Como eu gosto disso. O sono foi justo e merecido. Ficou combinado que os amigos nos pegariam por volta das dez horas. Era hora de conhecer Aracaju."

5 - Aracaju ¬Ė Passeio no Litoral Sul (Sexta feira 09/09/2011)

Euclides foi nos buscar na pousada por volta das dez da manh√£. Foi de rural (camionete l200), j√° que n√£o daria para passear na cidade conversando e pilotando motocicleta. Seguimos pela orla de praia da cidade ¬Ė a mais bem urbanisticamente estruturada de todo o Nordeste ¬Ė at√© o final do asfalto e continuamos pela areia da praia at√© chegarmos a uma embocadura de rio. Tudo muito interessante e pitoresco. Aracaju tem muito para crescer e se especular na orla. Sa√≠mos da praia e fomos passando por pequenas vilas, ruas de areia, depois um lugar bem urbanizado, Orla do Mosqueiro, com barcos esportivos na √°gua e, por fim, paramos em um ponto de atraca√ß√£o de ferry boats. Havia no lugar uma grande ponte em constru√ß√£o e um ferry-boat lutando para passar entre seus v√£os. Acho que √© o ponto de embarque para Mangue Seco, famosa praia cen√°rio de filmes e novelas outrora t√£o inacess√≠vel. De onde est√°vamos dava para ver as dunas de Mangue Seco.

Notamos que passava das onze horas; hora de bater o ¬ďcentro¬Ē. Euclides trazia na ca√ßamba da rural uma caixa t√©rmica abarrotada de latinhas de cerveja mergulhadas no gelo. Sa√ļde e Sorte!

Tal qual as pessoas, os lugares têm suas peculiaridades. Observei que em Sergipe, as canoas de pesca artesanal possuem velas duplas e quadradas, bem diferentes das jangadas com vela latina do Ceará.

Conversando e fotografando, tomamos uma meia d√ļzia de umas tr√™s ou quatro rodadas de latinhas, bateu uma chuva besta e passageira e Euclides resolveu nos levar √† Praia do Saco, uma mistura de rio e mar, para, em um simp√°tico boteco, continuarmos a conversa e Marta devorar sua cota de uma d√ļzia de cinco ou oito caranguejos. A mar√© na Praia do Saco tem amea√ßado destruir muitas casas de veraneio nas vizinhan√ßas.

A tarde se encaminhava para o fim quando fizemos quase o mesmo caminho de volta. Paramos para observar um pequeno cemitério onde foram sepultadas vítimas de um naufrágio próximo àquela praia. Havia muitos despachos de macumba. Galinhas pretas, charutos de qualidade duvidosa, cabeças de bodes também pretas e mais uma ruma de coisas dentro de panelas de barro muito bem fabricadas. Até pensei em levar uma daquelas panelas (alguidás) para eventualmente fazer uma moqueca...

Marta:
"Marta n√£o deixou."


Detalhe: nosso anfitri√£o e motorista dirige muito cuidadosamente antes e depois de algumas cervas.


Escurecendo, chegamos √† Passarela do Caranguejo, provamos um estranho amendoim cozido, tira-gosto muito comum na cidade e preferimos castanhas de caju para acompanhar as √ļltimas cervejas do dia. Fomos devolvidos √† pousada l√° pelas nove e tantas da noite... sei l√°...

Marta:
"Algumas pessoas ficam impregnadas na nossa mente. O vendedor de amendoim cozido (Erg! Eco!) foi uma destas pessoas. De baixa estatura, rosto moreno, sorriso farto, espont√Ęneo, carregava na cabe√ßa, sem nenhum esfor√ßo, um saco bem grande com amendoins. Um equil√≠brio √≠mpar mantinha o saco firme a cada movimento feito. N√£o insistiu para vender seu produto, aquietou-se √† cabeceira de nossa mesa, e l√° ficou assistindo a um filme que passava na televis√£o pr√≥xima. Parecia que, para ele, o tempo havia parado. Nada pedia pressa ou movimentos bruscos, nada pedia m√°scaras. Ele era ele, em toda sua simplicidade, em todo o seu jeito de menino encantado com imagens de sonhos. Luiz o fotografou, mas nem era preciso. Ele vai ficar nos meus arquivos mentais, independentemente de minha vontade. Nestes momentos, entendo o que Carl Rogers e Martim Buber, mesmo que de forma distinta, queriam dizer quando falavam em ¬ďencontro humano¬Ē."



6- Churrasco na Casa do Euclides (S√°bado 10/09/2011)

Logo depois do café da manhã, fomos visitar o Oceanário que fica na orla. O que mais me impressionou foram as enormes moréias que ficam em um aquário juntas com grandes arraias e um mero grandalhão. As moréias pareciam monstros marinhos. Não gostaria de me encontrar com um bicho daqueles embaixo d’água... Por lá encontramo-nos com Jota e Agostinho e depois voltamos para a pousada.

Paulinho, prestativo como sempre, nos apanhou na pousada com seu carro. Jota foi de moto porque ficaria hospedado em um ¬ďcanil¬Ē disponibilizado pelo anfitri√£o. Euclides mora um tanto afastado do miolo da cidade, numa bela ch√°cara bem jardinada, piscina, deck e churrasqueira, al√©m de uma ruma de aves e cachorros. Dentre a bicharada, destaco o Hugo, um enorme c√£o fila brasileiro, muito d√≥cil, quase ignorando os visitantes, mas com uma express√£o de idolatria silenciosa para com o dono, raramente se observa isso em c√£es.

M@D reunido para um churrasco - vamos aproveitar para falar mal dos ausentes! Quando chegamos j√° estavam Augusto Erivan e Karine, sua esposa, que haviam chegado de Recife, Jefferson ¬ďCrique_aqui¬Ē, j√° cuidando do braseiro e Agostinho que havia chegado de Salvador. Conforme o pessoal ia chegando a conversa ficava mais substanciosa...

Levei, de presente para o Euclides, uma garrafa da cacha√ßa cearense Ypioca 160 anos, para se contrapor a uma cacha√ßa mineira que o Jota havia prometido, por√©m, por Seus inexplic√°veis des√≠gnios, deixado de levar. Ao provar a bebida, Euclides disse: coisa deliciosa de Deus. Se ele n√£o tivesse protegido a garrafa, a cacha√ßa teria acabado logo, principalmente por conta de Jota, o Pr√≥prio, que sempre queria mais uma ¬ďprovinha¬Ē.

Foi um dia inesquec√≠vel. Bons amigos, boa comida, cerveja √† vontade e muita conversa fiada. Compareceram √† festa na casa do Euclides, al√©m do anfitri√£o e T√Ęmara, sua esposa e de mim e Marta e do agora h√≥spede Jota, Gustavo Erivan e Karine, Paulinho, Jefferson, Bruno, Agostinho e La√©rcio. Senti falta do Radi, m@adiano antigo, que gostaria de conhecer pessoalmente, que n√£o pode comparecer.

Fomos despachados para a pousada l√° pelas dez da noite... sei l√°!

Marta:
"Lugar gostoso de se estar a casa de Euclides e T√Ęmara. A vibra√ß√£o do lugar tem muito da alma dos donos. Propriedade bonita, tal qual T√Ęmara. Acolhedora, tal qual Euclides. N√£o que as duas qualidades n√£o estejam presente nos dois, est√£o. O cuidado em oferecer aos amigos uma estadia gostosa, estava presente na boa comida preparada por T√Ęmara, no rosto de Euclides se via sempre a pergunta se est√°vamos sendo bem tratados, se estava faltando alguma coisa. A √°gua de coco geladinha, a farofa gostos√≠ssima, o feij√£o caprichado, a rede do Hugo, oferecida sem uma pr√©via consulta ao dono, o dia sem trabalho para ser ofertado aos amigos, tudo fala da alma dos anfitri√Ķes. Alma farta, leve e generosa. Com tudo isso, quem queria ir embora? Ningu√©m. J√° √≠amos com 12 horas de farra e ningu√©m queria ir embora. Sugeri que os anfitri√Ķes colocassem vassouras atr√°s da porta, sal para queimar em uma ca√ßarola, mas foi mesmo na marra , n√£o sem protestos do Luiz, que consegui ir para o hotel, esperar mais um dia rico ao lado dos novos amigos."

7 ¬Ė Praias do Norte (Domingo 11/09/2011)

Euclides e T√Ęmara, mais Jota, nos apanharam de rural na pousada para um dia de passeio nas praias do lado norte de Aracaju. Passamos por uma parte mais antiga da cidade, que se encontrava limpa e bem conservada, atravessamos a ponte que cruza o Rio Sergipe e chegamos √° Praia de Pirambu. Nada de muito interessante nesta praia, principalmente para cearenses. Mas o que vale √© conhecer e quem faz o ambiente √© a companhia. Armamos nossa barraca na palho√ßa anexa a um restaurante, na areia da praia, e passamos mais um dia jogando conversa fora, molhando o bico com cervas (menos Euclides que estava abst√™mio neste dia) beliscando castanhas de caju e camar√Ķes ao alho e √≥leo.



Almo√ßamos muito bem no restaurante e o ¬ďdiabinho ladr√£o de tempo¬Ē atuou sem caridade, pois, sem que percebessemos, o dia escureceu e a lua estava brotando de dentro do mar.

Marta:
"Sou uma mulher inteligente. Mas, diacho, √ī coisa complicada √© entender o sol se pondo no lugar errado, e a lua nascendo onde devia estar indo dormir. ¬ďAriadinha¬Ē (Pra quem n√£o sabe o significado desta palavra, ver dicion√°rio Cear√™s: Sem √°rea, com a b√ļssola doida, sem se achar). A primeira vez que isso aconteceu, est√°vamos em Alagoas, numa das poucas praias mais bonitas que as nossas Praias de Redonda, Peroba e Ponta Grossa, no Cear√°. O lugar era a Ilha da Croa, acess√≠vel, na √©poca, s√≥ por ferry boat. Est√°vamos no bar do Seu Pio, homenzinho de menos de metro e meio de tamanho, mais com uma acolhida fant√°stica, em sua barraquinha de palha √† beira do mar. E aconteceu: a lua nasceu no lugar errado. ¬ďAriei¬Ē totalmente. Luiz, o mundo t√° se acabando, falei agoniada, brincando. Ele riu, e me explicou o fen√īmeno. Desenhou o mapa do Brasil no ch√£o, falou que t√≠nhamos dobrado a esquina do continente. Num teve jeito. E olhe que sou uma mulher inteligente. Bateu um frio. Foi preciso o caldinho de Mocot√≥, jantar do seu Pio, para me aquecer e confortar um pouco. Em Aracaju, foi a mesma coisa. Fica pra entender na pr√≥xima vida... Viu, Euclides."


Fomos largados na pousada pelas sete da noite, com a combinação de nos encontramos no dia seguinte ás oito e meia da manhã, para pegarmos estrada rumo a Piranhas, em Alagoas, começando nosso retorno para casa.


8- Aracaju/Piranhas ( Segunda feira 12/09/2011)

Euclides, trazendo Jota a reboque, chegou quase nove horas. Eu j√° estava com tudo pronto para a viagem, malas na moto, motor aquecido, etc√©tera e etc√©teras. Nos despedimos agradecendo a hospitalidade do Euclides e do pessoal de Aracaju. Ainda tivemos uma √ļltima gentileza, Euclides nos forneceu um motoqueiro de sua empresa para nos servir de guia at√© a sa√≠da da cidade. Achei bem f√°cil sair de Aracaju, desta vez...

Marta:
"Despedidas. Nunca √© f√°cil se despedir. Como diz o Luiz, cai um cisco no olho. Luiz, ao se despedir de Euclides, diz forte para mim: Marta, n√£o chora! (Acho que √© porque se eu chorar, ele chora tamb√©m). O caseiro da casa de Euclides perguntou se eu era irm√£ de seu patr√£o. Respondi-lhe que, nesta vida, n√£o. Acho que ele num entendeu muito n√£o. Mas, em poucos dias de conv√≠vio, desenvolvi um carinho e amor especiais por Euclides, coisa que se sente por irm√£o. A sensa√ß√£o de que o encontro √©, na verdade, um reencontro. Agora v√° explicar isso para um sujeito que √© ateu convicto. √Č quase imposs√≠vel. E o reencontro passa por T√Ęmara tamb√©m. Ainda guardo comigo o calor e a for√ßa do abra√ßo de despedida da T√Ęmara, al√©m de sua carinha de surpresa ao me ouvir dizer que n√£o gosto de trabalhar, s√≥ trabalho por que √© o jeito. Enfim, s√£o coisas que v√£o ficar, pra sempre, grudadas na minha alma."

Paramos num posto para abastecer a moto ¬Ė a medi√ß√£o de consumo deu 20,72km/litro. Entramos na BR 101, estrada sem gentilezas, por cerca de 32km, at√© pouco depois de Maruim, e entramos √† esquerda na dire√ß√£o de Siriri, em uma boa e tranq√ľila estrada estadual, a SE 206. Curtimos uma tocada suave na faixa de 100/110km/h, sem estresse, sem ultrapassagens. Fotografei visualmente muitas cenas de pessoas, paisagens e animais. Foi relaxante. Observei tamb√©m a suave transi√ß√£o de Mata Atl√Ęntica para Caatinga, mudando de clima ameno para o calor do sert√£o .

Em Canind√© do S√£o Francisco, por volta de meio dia, paramos em um posto para descanso, √°gua, xixizinho e um pouco de prosa. Assim que tirei meu capacete o telefone tocou. Era Pablo, de Fortaleza. ¬Ė Ainda bem que voc√™ ligou assim que tirei o capacete, n√£o ao contr√°rio como sempre costuma acontecer, eu falei. Pablo disse que tinha not√≠cia ruim para me dar. Naquela manh√£ de segunda feira, o grande amigo Jackson, motociclista das antigas, havia sofrido um infarto fulminante quando chegava para trabalhar em sua pizzaria/restaurante. Ficamos muito abalados com a triste not√≠cia. Dif√≠cil acreditar que uma pessoa t√£o alegre, ativa, simp√°tica e querida como o Jackson viesse a morrer do cora√ß√£o. Falei para o Jota de quem se tratava e ele lembrou que eu o levei √† pizzaria onde conheceu o nosso amigo. Demos um tempo para absorvermos o choque da not√≠cia e seguimos viagem para Piranhas, que estava h√° menos de 10km.

Marta:
"Por muito tempo tive medo da morte, nem falava sobre ela, pra n√£o dar azar. Com a morte de meu pai, Eudo Carvalho Monteiro, tive de enfrent√°-la, mesmo sem muita coragem. Parecia que eu estava sendo rasgada por dentro. N√£o foi f√°cil. J√° se v√£o seis anos, e, √†s vezes, ao me dirigir para a casa de meus pais, a dois quarteir√Ķes de chegar, me sufoca a garganta a lembran√ßa de que ele n√£o est√° me esperando l√°. As l√°grimas caem, √© a saudade que chega. Jackson era aquela pessoa que enchia o ambiente em que estava, seu riso, sua gargalhada e sua voz forte e limpa sempre anunciavam sua presen√ßa boa. Estivemos juntos, Luiz e eu, Jackson e Rosinha, em muitos momentos bons e inesquec√≠veis, na Lagoinha, na Pousada do Salema, em noites de lua cheia, no Restaurante Full Xico, comendo o cabrito coiceiro, preparado por nosso amigo Sampaio, na festa dos meus 41 anos, na Redonda, na inaugura√ß√£o de nossa casa na Praia de Peroba, enfim, constru√≠mos felicidades juntos. A not√≠cia de sua morte me tirou a for√ßa das pernas. O cora√ß√£o ficou apertado, as l√°grimas flu√≠ram sem pedir minha permiss√£o para isso. A paisagem ficou borrada, o capacete emba√ßou. O resto do dia foi pesado. Na hora de colocar o ¬ďb√©quini¬Ē, pra irmos √† barragem de Xing√≥, caem muitos ciscos nos olhos do Luiz. Mas o que vivemos com as pessoas que se foram, fica em n√≥s, armazenado. Aprendi a caminhar de m√£os dadas com meus medos, a morte era um deles. Quando conseguimos isso, o que parecia monstruoso, perde tamanho. Resta-nos esperar que a Vida nos junte novamente. E assim o √©."

(Ao ler este texto da Marta, ciscos voltaram a pousar nos meus olhos)

Atravessamos a bela ponte sobre o São Francisco, com direito à vista da barragem de Xingó e logo estávamos na pequena e histórica Piranhas. Entre a pousada Maria Bonita e a Lampião, ficamos na Lampião, porque as motos ficariam em área murada, enquanto que na Maria Bonita, ficariam na rua, pois o acesso à pousada é feito por escadarias.

Tiradas as tralhas das motos e ocupantes, fomos procurar um boteco para matar a sede. Em dire√ß√£o ao rio, havia um bar aberto, mas uma camionete abusava da m√ļsica ruim e em alto volume. Essa praga parece que me persegue! Outros dois estavam fechados, era segundona... Descobrimos mais para a direita um local aberto e fomos muito bem recebidos pela Iv√Ęnia, dona do restaurante. Logo est√°vamos brindando √† mem√≥ria do Jackson com bons copos de cerveja.

Dona Iv√Ęnia deu v√°rias dicas sobre a regi√£o e sugeriu que fiz√©ssemos um passeio, naquele dia mesmo, at√© a Grota do Angico, local onde foram mortos Lampi√£o, Maria Bonita e outros cangaceiros. Falou que conseguiria uma ¬ďvoadeira¬Ē (barco de alum√≠nio com motor de p√īpa) para n√≥s. N√£o demorou bebermos duas garrafas de cerveja e l√° estava a voareira na margem do rio para o passeio. Embarcamos deixando a conta das cervas para a volta e l√° fomos n√≥s rio acima, entre poderosas margens escarpadas e assustadores redemoinhos. Mas a voadeira passava os obst√°culos como uma V-Strom passa as buraqueiras das estradas, sem susto, apenas turbul√™ncia leve.

Marta:
"A cidade de Piranhas parece que parou no tempo. Tenho a sensação de estar no tempo do império. Casas antigas, linha de trem, ponte de pedras, muitas ladeiras, igrejas simples e singelas, meio que emolduram o Rio São Francisco. Ah, o velho Chico! O Rio tem uma cor fantástica, de um verde esmeralda/turquesa, a mesma cor que encontrei no corrimão da escada, de pedra Jade, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A mesma energia, só que em movimento, muito movimento. Redemoinhos gigantescos nos dão a impressão de que vão engolir tudo que a eles chegar. Nossa voadeira os desafia, passando sobre eles com determinação e vigor. A água é gelada, mesmo em pleno meio dia. A areia grossa de rio sustenta meus pés doloridos das botas de viagem. O rio me sustenta, também nas minhas dores de alma."

Vinte minutos depois, chegamos ao ponto de apoio onde se inicia a caminhada, de trinta minutos, at√© o local do conflito √ļltimo do mais famoso dos cangaceiros. Um guia se apresentou e come√ßamos a caminhada pela caatinga bruta, entre mandacarus, xique-xiques, urtigas, toda aquela retorcida vegeta√ß√£o xer√≥fila, e muitas pedras, subidas e descidas. O problema dos guias em geral √© que eles falam demais e cometem muitos equ√≠vocos hist√≥ricos que podem passar despercebidos por quem n√£o conhece os fatos. O melhor √© pedir que falem apenas quando perguntados.

Marta:
"Eu e Jota nos entreolh√°vamos, rindo da situa√ß√£o. O guia, coitado, n√£o sabia quase nada da Hist√≥ria verdadeira. Luiz o sabatinava. Diante de seu desconhecimento, dava-lhe li√ß√Ķes de Hist√≥ria. O guia, ind√≥cil, n√£o podia parar seu discurso, haja vista o fato de ser decorado, tendo necessidade de ser dito de um s√≥ f√īlego. A guerra tava feia. N√≥s nos divert√≠amos, al√©m de aprender coisas novas com o discurso do Luiz. Tudo era muito seco, √°spero, at√© o ar. N√£o havia muito verde, os galhos quebravam facilmente. Deixei-os ir um pouco adiante, queria sentir o lugar. Arrepios me percorriam a pele. No local da chacina, a alma pedia sil√™ncio. E o guia n√£o parava de falar, parecendo um papagaio em areia quente. At√© Luiz estava em sil√™ncio. Podia n√£o saber explicar, mas sentia o lugar em plenitude."

Chegamos ao local onde aconteceu o morticínio famoso. Fica em um leito seco e pedregoso de rio. Há uma placa com os nomes dos cangaceiros mortos e dois crucifixos. O local seria mais circunspecto em silêncio... O guia contou que todo ano se realiza uma missa naquele local. Cangaceiros, heróis ou bandidos? Recomendo leitura sobre o assunto.

Come√ßamos a retornar, quando Marta pediu para ficar alguns minutos sozinha na Grota. Nos afastamos algumas dezenas de metros e a deixamos em sua reflex√£o. O caminho de volta foi relativamente mais f√°cil e logo embarcamos na voadeira rio acima. Navegando entre pedras e redemoinhos, apreciamos o sol poente dourando as √°guas l√≠mpidas, ora tranq√ľilas, ora turbulentas, do Velho Chico.

De volta ao restaurante da Iv√Ęnia, e √†s cervejas, e √†s conversas, pedimos um delicioso almo√ßo com surubim (peixe t√≠pico da regi√£o, parecido com o pintado do Pantanal) ao molho de camar√£o e surubim grelhado. Muito bons! Com as barrigas cheias voltamos para a pousada para um descanso.

A parte antiga de Piranhas (existe um ou dois bairros fora da parte histórica) é cercada por morros e possui duas longas escadarias que parecem pernas abertas e voltadas para cima. No final de uma perna há uma igrejinha e no final da outra perna um restaurante. Quando saímos da pousada, lá pela s oito da noite, fomos caminhar pela cidade e resolvemos subir a perna, digo, a escadaria que terminava em restaurante. 387 degraus... estaria o restaurante aberto em plena segunda feira? Jota, que tem muito pecados, pensou em se livrar de todos eles de uma só vez subindo a escada de joelhos, mas parece que os pecados falaram mais alto e não quiseram partir.

A vista a√©rea da cidade √© bem interessante. Daria para irmos de moto, mas somos "ninja" e encaramos sem susto aquela ruma (Quantidade conferida pela Marta) de degraus desalinhados. Al√©m do restaurante h√° uma loja de artesanato bem sortida e uma placa em que as pessoas do s√©culo XIX sa√ļdam as dos s√©culo XX. Ficamos numa borda do terra√ßo vendo a lua e seus reflexos no rio. Com o tempo fez um frio legal e mudamos para a √°rea protegida. Comemos bem, mas os fil√©s n√£o eram medalh√Ķes, o pur√™ era daqueles em p√≥ e o molho madeira era master foods...


9 ¬Ė Piranhas (Ter√ßa feira 13/09/2011)

Dia seguinte bem cedo, deixei Marta dormindo, Jota também parece que gosta de dormir, e fui caminhar pelas estreitas ruas da cidade e subir novamente a escadaria para fazer algumas fotos do alto.

Depois do café da manhã, subimos nas motocicletas e fomos para Xingó, restaurante Carranca, de onde partem os saveiros e catamarãs para o passeio no Canion do São Francisco, a montante da barragem de Xingó. Quando comprava os ingressos, falei para a moça do balcão que meu temor, se além de haver muita gente, seria o som tipo forró em alto volume. Ela disse que haveria som, forró, sim, só não saberia dizer em qual volume. Ai meus pobres tímpanos, imaginei.

As 11:30h fomos chamados a embarcar. Havia uma boa quantidade de gente, mas n√£o estava lotado. A maioria era de adultos, ficamos, portanto, livres de choro e gritaria de crian√ßas e zoeira de adolescentes. . Come√ßamos a navega√ß√£o e o som, para meu al√≠vio, era em volume civilizado e as m√ļsicas eram as nordestinas de boa qualidade, tipo bai√£o, xote, etc. Com Gozaguinha, Luiz Gonzaga, S√° e Guarabira, etc. Escapei de ter que voltar nadando se tivesse de passar horas ouvindo aqueles terr√≠veis forr√≥/ax√©s em alto som.

Jota descobriu onde ficava o boteco de bordo, abriu uma conta e iniciamos os ¬ďtrabalhos¬Ē. O hor√°rio e a dureza da luz do sol n√£o ajudavam muito para fotografar, mesmo assim insisti em registrar o majestoso rio e suas margens em forma de fal√©sias esculpidas pela natureza.


O ¬ďservi√ßo de bordo¬Ē ¬Ė latinhas de cerveja e espetinhos - prosseguia quando, depois de cerca de uma hora de navega√ß√£o, atracamos em uma esp√©cie de cais flutuante para banho e passeio de canoa a remo por uma fenda onde os pared√Ķes do canion por pouco n√£o se juntam. A banho no rio √© delicioso, a √°gua √© cor de esmeralda, e tem temperatura refrescante. Foi muito prazeroso ficar flutuando nas b√≥ias tipo macarr√£o que s√£o fornecidas. A profundidade √© cerca de 60m.

Durante todo o passeio, fiquei estranhando os pared√Ķes das margens, que n√£o me pareciam t√£o altos quanto em 2004, quando fiz meu primeiro passeio pelo canion. Durante o passeio de canoa, entendi o porqu√™ do meu estranhamento; o tronco de √°rvore em que me apoiei ao nadar at√© uma gruta, no passeio anterior, agora estava submerso sob uma l√Ęmina d¬í√°gua de pelo menos 10 metros. Ou seja, as escarpas eram as mesmas, o rio √© que estava com o n√≠vel elevado.


Foram cerca de tr√™s horas de interessante passeio. Logo que atracamos no Carranca, combinamos de passar sem olhar para o ¬ďself-service¬Ē que pornograficamente oferecia uma tenta√ß√£o dos diabos aos famintos passageiros. N√£o, nossa combina√ß√£o era almo√ßar no boteco da Iv√Ęnia e para l√° fomos cheios de fome. Mais cervejas, mais surubins, mais camar√Ķes. S√≥ n√£o tinha pitus porque era per√≠odo de defeso. Uma pena, aquele enormes camar√Ķes de √°gua doce s√£o uma del√≠cia.



A tarde caminhava para o fim e Jota quis descansar. Eu e Marta fomos conhecer a igrejinha no alto da outra escadaria. Era quase a mesma quantidade de degraus da outra, só que mais altos e, por conseguinte, mais cansativos. Ficamos sozinhos naquele, alto apreciando a pintura que o sol poente fazia na água do rio. Marta quis tocar o sino da igrejinha, cujo badalo estava amarrado. Ela jogou seu chinelo e o chinelo ficou enganchado num umbral, fora do alcance. Tivemos que deslocar um pedestal para resgatar o chinelo e Marta aproveitou para tocar o sino. Falei que seria melhor acertarmos pequenas pedras no sino, que desta forma tocaria melhor. Acreditem, amigos, jogamos pedras na igreja! Sim, porque com nossa pontaria quase não acertávamos o sino. Ainda contemplamos um magnífico nascer da lua cheia, avermelhada, por trás dos montes.

Descemos, encontramos o Jota e fomos rondar pelos botequins da cidade. S√£o poucos. Ficamos em um que n√£o havia som e que tinha as mesas na rua, num largo. Conversa vai, cerveja vem, e logo apareceu um cabra com carro e o indefect√≠vel som alto. M√ļsicas de p√©ssimo gosto, como sempre. Felizmente o dono do boteco mandou baixar e ficamos um pouco mais. Fomos dormir cedo, que dia seguinte era estrada.

10 ¬Ė Piranhas/Fortaleza (14/09/2011)

Contas acertadas na pousada, motocicletas carregadas, corrente lubrificada e lá vamos nós para a estrada novamente. Saímos às oito da manhã, em direção à Paulo Afonso, via Delmiro Gouveia, cuja estrada estava em bom estado. Rodamos 70km até que chegamos no cruzamento com a BR 423. Meu rumo seria seguindo em frente, mas resolvi acompanhar o Jota por mais 6km até a ponte metálica que cruza o São Francisco, na entrada de Paulo Afonso, de onde o amigo seguiria pela BR110 até o entroncamento com a BR101, passando nas bordas do Raso da Catarina, um deserto de caatinga onde há o maior vazio demográfico do Nordeste.

Neste pequeno trecho, havia uma interrup√ß√£o na estrada com um controlador ordenando o tr√°fego com um r√°dio intercomunicador. Paramos ao lado do camarada, desligamos as motos e esperamos. Demorou at√© que eu dissesse ao simp√°tico controlador que avisasse pelo r√°dio para liberarem a estrada porque Luiz Almeida estava l√°. Coincid√™ncia ou n√£o, quase que imediatamente veio a ordem para liberar nossa m√£o de estrada. Imaginem se soubessem Quem era o Homem que estava na outra motocicleta... (Para quem n√£o freq√ľenta o M@D, Deus √© um dos apelidos do Jota)

Marta:
"Sempre que temos de parar em um controlador de tr√Ęnsito, ficamos aborrecidos. O sol quente faz ferver dentro das roupas de viagem. √Č uma verdadeira sauna. Mas, desta vez, foi diferente. Ante o momento da despedida, o tempo parou. Jota e Luiz tiraram os capacetes, fumaram cigarros, riram sobre acontecimentos da viagem, falaram sobre suas alegrias por estarem juntos durante estes dias, falaram sobre Euclides, com muito afeto, combinaram uma nova viagem, isto tudo sem sentir o sol escaldante sobre suas cabe√ßas. Pareciam dois meninos, felizes ao sol. Eu assistia a festa, gostando."

N√£o sem emo√ß√£o, nos despedimos com um forte abra√ßo, e um cisco no olho, na cabe√ßa da ponte. Jota ainda teria mais de mil e quinhentos quil√īmetros at√© Belo Horizonte e eu perto de mil at√© Fortaleza. Foi muito bom rever o amigo, passar juntos os dias de Aracaju e, melhor ainda, rodar de motocicleta juntos nas mesmas estradas. Valeu, Irm√£o!

Marta:
"A recomenda√ß√£o de n√£o chorar do Luiz, nem chegou a ser dada. Num ia ser obedecida mesmo. Jota √© um companheiro maravilhoso, ¬ďcacete e agulha!¬Ē F√°cil gostar dele. Vai fazer muita falta n√£o conviver com ele, homem inteligente, cr√≠tico, mas sem ser venenoso, divertido, espirituoso, cativante, enfim. Foi muito bom conviver com ¬ďoc√™¬Ē, viu? At√© breve, que seja bem breve. Voc√™ acrescenta √† vida das pessoas... acrescentou √† nossa."

Retornamos ao entroncamento sentindo falta do duplo farol da struminha do Jota no retrovisor. Coincidentemente, entramos na mesma BR 110 s√≥ que em sentido contr√°rio ao do amigo, em dire√ß√£o √° Petrol√Ęndia. O od√īmetro marcava 355,10km quando parei em Jatob√° para abastecer a moto. Imaginei que, desta vez, o consumo seria na faixa dos 30km com um litro, afinal, desde Aracaju, no √ļltimo abastecimento, estava rodando com um Sujeito que possui determinadas famas... Coloquei 17,14litro de gasolina no tanque perfazendo um consumo de 20,72km/litro, nada demais, nada de ¬ďmilagres¬Ē, apenas uma boa marca, por√©m secular.

Este trecho de estrada margeia o lago de Sobradinho √† esquerda. S√£o quil√īmetros e quil√īmetros com muita √°gua de um lado e terra seca no outro. Perto de Petrol√Ęndia h√° uma curva de 90 graus √† esquerda sem nenhuma sinaliza√ß√£o. H√° muitas marcas de frenagem no asfalto. Lembrei-me de um amigo que pilotando uma Drag Star, em 2004, tamb√©m quase passou direto naquela curva.

Passamos Petrol√Ęndia e rodamos mais 80km at√© Floresta, onde demos uma parada para descanso. At√© ent√£o as estradas estavam boas e com muito pouco movimento. No bar do posto, onde fui comprar √°gua, um sujeito e uma sujeita bebiam cerveja com um chevete de porta malas aberto e o som troando: ¬ďMais raparigueiro do que eu, S√≥ papai, s√≥ papai, s√≥ papai, Que pegou a minha m√£e, (...) E lhe deu 50 reais¬Ē... √Č, encontrei um filho da puta assumido na estrada...

Consultei o mapa e perguntei ao frentista como estaria a estrada at√© Serra Talhada: Cem quil√īmetros de buraco, foi a resposta. Sa√≠mos da BR 110 e entramos na BR 316. Nenhuma sinaliza√ß√£o, como sempre. Previs√£o confirmada, a buraqueira s√≥ era amenizada por pessoas que colocavam areia nos buracos em troca de moedas jogadas pelos motoristas. Foi o trecho mais solit√°rio e calorento da viagem.

Em Serra Talhada, perto de meio dia, mais uma parada para descanso e água. A fome e a sede me fizeram tomar uma coca-cola e comer uma coxinha de aparência duvidosa, com muito colorau e cominho. Eita povo para gostar de cominho esses pernambucanos!

Rodamos 40km na, mesmo sendo pista simples, muito boa BR 232, até chegarmos na localidade de Bom Nome e entramos na PE 430, boa, porém estreita, até São José do Belmonte, simpática cidade que cruzamos lentamente. Chamou-nos atenção um prédio de três andares cheio de estátuas de personagens de Disney e outras estórias infantis.

Mais 40km e chegamos a Jati, no velho Cear√°. Paramos para abastecer e resolver se ir√≠amos √† Juazeiro do Norte, conforme programado. O od√īmetro marcava 288,9km desde Jatob√° e o consumo ficou nos 20,78km/litro. Era quase duas horas da tarde e resolvemos deixar Juazeiro para outra oportunidade e seguimos em frente, agora pela BR 116. Dependendo dormir√≠amos em Ic√≥ ou em Jaguaribe, h√° 410 ou 350 km de Fortaleza, respectivamente.

Passava pouco das três da tarde quando paramos em um bar de beira de estrada no Icó. Entre Jati e Icó foram 150km de estrada semi-destruída. Muito buraco, muito caminhão e muita poeira. Comemos uns biscoitos, leite e coca-cola. Era cedo. Marta, sentindo-se perto de casa, também se mostrou disposta a seguir em frente. Se for o caso, dormiremos em Jaguaribe. A informação era de que a estrada melhorava a partir dali.

A estrada realmente melhorou, por√©m ficou mais perigosa ¬Ė al√©m do tr√°fego pesado, o asfalto em geral estava bom, ma, vez por outra, apareciam grandes buracos, e estes, como pegam de surpresa, s√£o muito mais perigosos do que a buraqueira generalizada. Dentro do capacete eu j√° estava pensando sobre a possibilidade de rodar √° noite e chegar direto em Fortaleza. Rodei cauteloso, na faixa dos 90/110km/h.

O sol perdia a for√ßa quando paramos em Jaguaribe. O consumo de gasolina foi de 21,56km/litro, o melhor de toda viagem. √Č, buraqueira e cautela produzem este efeito colateral. Aproveitei para trocar o √≥culos escuro pelo incolor. Falei para Marta que a noite em Jaguaribe seria cheia de pernilongos e, incentivado por ela, resolvemos encarar a estrada e chegar a Fortaleza naquela pernada. Fiz o que n√£o recomendo a ningu√©m, rodei direto na mudan√ßa do dia para a noite, no lusco-fusco, em estrada famosa pela quantidade de animais na pista. Em certos pontos, o cheiro das carca√ßas de animais em putrefa√ß√£o no acostamento era insuport√°vel.

Marta:
"No √ļltimo Censo Agropecu√°rio, Luiz Almeida viajou pelo interior do Cear√° quase todo. Lembro-me de t√™-lo ouvido falar que em Jaguaribe e no Ic√≥ tem mais muri√ßoca que gente. Isto para mim √© assustador. 100 pessoas e uma muri√ßoca, ela √© minha. Tenho o sangue doce. E pra completar me lembrei da piada do papagaio que tava morrendo afogado numa cheia, sendo regatado, perguntou: onde estou? No Ic√≥. Respondeu sem pensar: Pode deixar morrer afogado. O pesco√ßo do√≠a, o joelho tamb√©m. Salompas neles. O leitinho ( de peitinho de vaca ) , e a vontade de dormir em casa, deram-me for√ßas. Adelante, cavalheiro! Nosso pr√©dio era um moinho de vento a alcan√ßar."

Fizemos uma rápida parada em Russas, 160km de Fortaleza, para um café, cigarrinho e água. Foi bom porque depois daqueles 15 minutos minha visão se acostumou mais com a escuridão e os faróis da moto, apesar de um pouco altos por conta do peso embarcado, começaram a iluminar melhor a estrada.

Rodei com muita cautela at√© encontrar um Fiat Uno que rodava em faixa dos 90/100 por hora. Fiz dele meu ¬ďlimpa trilho¬Ē e mantive-me cerca de 100m atr√°s dele. Desta forma, eu ficava atento √†s suas freadas e outras manobras, al√©m de ter um carro na linha de frente na guerra dos far√≥is. Senti-me bem mais seguro rodando daquela maneira.

Mesmo que n√£o se programe rodar √† noite, √© sempre bom estar preparado para tal, pois nunca se sabe quando ser√° necess√°rio. √Č muito importante ter refletivos na parte traseira da motocicleta, nas malas laterais, paralama e bauleto, al√©m de no capacete e na jaqueta.. Apenas a ilumina√ß√£o traseira da moto pode n√£o ser percebida em estradas de intenso tr√°fego pesado.

Quando passamos por Boqueir√£o do Ces√°rio, entroncamento da BR 304 (que vem de Natal) com a BR 116, come√ßamos a enfrentar filas de caminh√Ķes. Meu ¬ďlimpa trilho¬Ē naquele momento era uma L 200 Triton, ve√≠culo que imaginei ser bem melhor que o Uno que cumprira a fun√ß√£o anteriormente. Ledo engano, apesar de far√≥is muito melhores, mais pot√™ncia, etc, o motorista da camionete n√£o era bom de estrada, fazia manobras sem sinalizar, freava sem motivos, ficava indeciso nas ultrapassagens. Portanto, n√£o me passou seguran√ßa.

No final de uma longa fila de caminh√Ķes subindo ladeira, com o cara do ¬ďlimpa trilho¬Ē sem saber se ia ou n√£o ia, buzinei e lampejei o farol avisando ao medroso da Triton que iria ultrapassar e acelerei. -Chuuuuuuupa! Gritei dentro do capacete enquanto passava mais de cinco caminh√Ķes de uma s√≥ vez. N√£o dava mais para ter ¬ďlimpa trilho¬Ē. Nenhum ve√≠culo poderia fazer ultrapassagens t√£o r√°pidas e seguras quanto a moto naquelas condi√ß√Ķes.

Em um outro momento, um caminh√£o, descarregado ou mais potente que os demais, come√ßou a ultrapassar uma grande fila de outros caminh√Ķes. Mantendo cautelosa dist√Ęncia fui junto. Aconteceu que, para avisar aos outros caminhoneiros que a frente estava livre, ele continuou por bom tempo na faixa da esquerda com a seta ligada para aquele lado. Marta falou que o camarada estaria ajudando a ultrapassagem de muitos. Menos a minha!, respondi - e fui for√ßado a fazer a ultrapassagem do gente boa pela direita.

No ¬ďTri√Ęngulo de Chorozinho¬Ē, a 70km de Fortaleza, por volta das oito da noite, fizemos a √ļltima parada antes de chegar. Ligamos para amigos avisando que logo mais estar√≠amos na cidade. Pablo estava oferecendo um jantar na casa dele e nos convidou para uma cerveja de chegadeira.

Mais 20km de estrada movimentada e perigosa foram percorridos com muita atenção e chegamos à pista duplicada na altura de Pacajus. Senti-me aliviado e com aquele gostinho de fim de viagem, de cheguei.

Entramos na cidade, por volta das nove horas, tentando baixar a excitação da estrada e logo estávamos na casa do Pablo, onde fui recebido por ele me oferecendo-me uma deliciosa Heineken geladíssima! Vocês não imaginam como aquela cerveja desceu bem! Pouco depois jantamos uma maravilhosa macarronada à Carbonara, feita pela Graça, esposa do anfitrião.

Est√°vamos cansados, sim. Eu, meio que ¬ďenvernizado¬Ē, sentia-me muito bem. Rodaria mais se necess√°rio fosse. Ao final de uma jornada dessa, foram 958km, sempre me vem √† mente uma frase do m@diano Gilberto, de Porto Alegre, a qual parodio: A carca√ßa geme e o esp√≠rito sorri!

Marta:
"Sim, uma das bases mais firme do meu relacionamento com Luiz √© a confian√ßa que tenho nele. Confian√ßa que me faz estar na garupa de sua moto, sem medo ou receio algum. Esta foi mais uma viagem, das muitas que temos feito, sem um risco de pilotagem, sem um susto, sem um aborrecimento. Mais alegrias, mais aventuras, mais lugares, mais conhecimento agregado √† minha vida. Conviver contigo √© uma experi√™ncia enriquecedora, Luiz. √Č muito bom me sentir em tuas m√£os. Obrigada, meu amor, por tudo, tua."

Luiz Almeida

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