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Viagem ao Pico da Bandeira

Depois de acamparmos no Pico da Serra Branca, ponto culminante do Ceará, com 1154m de altitude, nos consideramos habilitados a conhecer o Pico da Bandeira, na Serra do Caparaó, Minas Gerais, terceiro pico mais elevado do país e o mais alto com acesso às pessoas em geral, com 2.892m de altitude. Os dois outros picos são o Pico da Neblina, na Serra do Imeri, Amazonas, com 2.993,8m e Pico 31 de Março, na mesma Serra do Imeri, AM, com 2.972,7m de altitude (dados do IBGE). Ambos em território fronteiriço ou em reservas indígenas, com acesso apenas para especialistas.

A divers√£o da viagem come√ßou com o planejamento de datas, roteiros, pernoites e equipamento a ser levado, etc. Tudo isso em reuni√Ķes regadas a boas cervejas ou em divertidas trocas de e-mails. Tivemos que moldar o tempo de viagem e restringir passeios paralelos por conta da impossibilidade de dois amigos, por serem profissionais liberais, gozarem per√≠odo de f√©rias mais longo. Por fim, decidimos sair de Fortaleza no feriado do dia sete de setembro, uma sexta feira, e estarmos de volta no dia 18 do mesmo m√™s.

Depois de Marcelo e Pablo se declararem impedidos de ir, confirmaram participação na viagem Alexandre Daher, pilotando uma bela e veloz Honda CBR 1100 XX Super Blackbird, preta, evidentemente, Joarez Dallago montado na sua valente Yamaha Tènèrè 660 azul por imposição da fabricante, eu, Luiz Almeida, com minha confortável Suzuki DL 650 V-Strom cinza e Paulo Walrawen, o PW, na sua aventureira BMW F 800 GS branca.

Adesivei a V-Strom com dezenas de tri√Ęngulos que fiz de ¬ďcontact¬Ē transparente na regi√£o onde vai a mala de tanque para n√£o ter preocupa√ß√Ķes est√©ticas durante a viagem. Tamb√©m colei os adesivos alusivos √† viagem desenhados pelo PW al√©m dos do Hist√≥rias de Motocicleta, meu site pessoal, e do Motofotografia, site do nosso grupo de motofotografistas. J√° o Alexxandre, mais caprichoso, mandou um profissional proteger toda sua moto com adesivagem transparente completa.

(Texto do Alexxandre)
¬ďNo m√™s que antecedeu a viagem, enquanto nos prepar√°vamos com acompra de todo o equipamento necess√°rio, iniciamos uma contagem regressiva, dia a dia, at√© a chegada da √ļltima semana que antecedeu a viagem, onde, a partir da√≠,come√ßamos uma contagem em n√ļmeros de horas que restavam para a nossa partida. De vez em quando chegava uma mensagem de texto no celular dos amigos com aatualiza√ß√£o da contagem. Eram as horas diminuindo e a ansiedade aumentando.¬Ē

Dia 07/09/2012 ¬Ė Sexta Feira

Chegou o dia ansiosamente esperado. Minha moto passou a noite j√° carregada, prontinha para a estrada, faltando apenas a mala de tanque, onde vai o equipamento fotogr√°fico. Pouco antes das quatro da madrugada cheguei na casa do PW, nosso ponto de encontro para a partida. Alexxandre logo chegou tamb√©m (o duplo ¬ďX¬Ē no nome dele √© √≥bvio, n√©?). Tomamos um gostoso caf√© feito pela Marilena W enquanto o PW ainda se enroscava com preparativos finais. Sem aperreios sa√≠mos pontualmente √† quatro horas. Conduzimos as motocicleta com muita cautela at√© a sa√≠da da cidade porque vimos em muitas esquinas bares abertos e pessoas bebendo numa cidade silenciosa, deserta e sem lei.

Notaram que faltou o Joarez no grupo que saiu da W House? √Č que o cabra decidiu ir √† Chapada Diamantina e cidades hist√≥ricas mineiras, antecipando sua sa√≠da para o dia 2 de setembro, o domingo antes da nossa largada.

Os faróis da três motocicletas varavam a madrugada na BR 116 ainda na Região Metropolitana de Fortaleza numa estrada vazia enquanto à nossa esquerda um suave clarão anunciava o breve amanhecer do dia. Fazia um friozinho gostoso, na faixa dos 17 graus centígrados(segundo informava o painel da moto do PW), e os motores ronronavam com a potência contida pelos ajustes entre homens e máquinas.

(Texto do Alexxandre)
¬ďNesse momento, o que me passava pela cabe√ßa era a d√ļvida se tudo que hav√≠amos combinado de levar realmente estava na bagagem. O Check-list haviasido incansavelmente atualizado e incrementado durante os dias que antecederam a viagem e toda a bagagem havia sido preparada com anteced√™ncia. Ent√£o era s√≥ relaxar e segurar o punho firme no acelerador.¬Ē

Como era Sete de Setembro, dia da pátria e nosso rumo era o Pico da Bandeira, nossa viagem soava um tanto patriótica. Fui, portanto, cantarolando o Hino Nacional dentro do capacete até enjoar.

Entre as partes altas e baixas da estrada, vimos o sol nascer em forma de gema de ovo de galinha caipira por três vezes. Seus reflexos e sombras nas lagoas da beira da estrada davam vontade de fotografar, mas nos contivemos. Havia muito chão pela frente!

Com dia j√° claro e 165km rodados, paramos em Russas para o primeiro reabastecimento das motocicletas e um cafezinho. Minha moto fez 22,81km/litro. Um bom consumo de gasolina para quem est√° equipada com malas laterais e um sacol√£o no lugar da garupa com material para acampamento. A moto do PW fez 20km/litro e o Alexx completou o tanque da Blackbird, digo, da Gra√ļna, com valores pr√≥ximos aos nossos. Dentro do capacete pensei: √≥timo, j√° passamos de dez por cento da pernada programada para o dia.

Saímos do posto e rumamos ao sul, em direção ao nosso destino. Mais adiante, quando notei a ausência prolongada dos faróis das motos dos amigos, retornei. O PW havia parado no acostamento para ajustar o capacete que o incomodava. Este é o problema de se usar equipamento novo em viagens longas.

A BR 116 ¬Ė Rodovia Santos Dumont ¬Ė estava em bom estado e o tr√°fego sem complica√ß√Ķes. O ruim desse trecho da estrada √© a enorme quantidade de animais na pista, conforme frequentes carca√ßas a apodrecer, exalando seus miasmas, no acostamento s√£o testemunhas. No Cear√° n√£o h√° lombadas tipo aqueles mondrongos no asfalto, apenas civilizados fotossensores para 60km/h.

Bordejamos as águas de profundo azul do açude Castanhão à nossa direita, enquanto a Chapada do Apodi era vista à nossa esquerda até que, depois de mais 195km rodando paramos nas proximidades de Icó para o segundo abastecimento. A menor autonomia entre a três motocicletas é a da GS, que pode chegar aos 300km. No entanto de que vale a grande autonomia das motos se a autonomia das nossas bundas é menor? Um breve descanso é sempre bom e ajuda a se fazer uma grande jornada, recupera a atenção e relaxa a musculatura do corpo, dando mais segurança para continuar pilotando. Porém, é importante não se demorar demasiadamente em cada parada, pois o somatório de tempo, digamos de dez minutinhos a mais numa parada, vai se transformar em boas horas perdidas no final do dia. Portanto, é preciso objetividade: abastecer a moto, beber água, visitar o pipi-room e alongar a carcaça sem mais delongas.

(Texto do Alexxandre)
¬ďNessa hora, o Luiz nos fez o favor de parar num posto de gasolina daqueles mais perebas que podem existir numa estrada. Posto sem bandeira, sem ter ao menos o piso de cimento queimado (uma norma exigida para os postos de gasolina, se n√£o me engano). S√≥ faltei chorar vendo aquele l√≠quido, que o frentista dizia ser gasolina, preencher o tanque do P√°ssaro Negro. Tanto posto com aspecto melhorzinho t√≠nhamos acabado de passar e ele decidira parar logo ali. Eu n√£o tinha coragem nem de beber a √°gua ali, imagine, ent√£o, abastecer a moto. Mas como eu n√£o queria atrasar a viagem com uma desnecess√°ria parada extra mais √† frente para o abastecimento da minha moto, o jeito foi abastecer ali mesmo. Apesar de tudo, o l√≠quido se mostrou comprim√≠vel e explos√≠vel nos duzentos quil√īmetros seguintes at√© nossa pr√≥xima parada. Ufa, ainda bem.¬Ē

Dessa vez a Struminha fez uma média de 16,22km por litro de gasolina. Acho que o frentista de Russas, temendo meus alertas para que não derramasse combustível no tanque, não o completou totalmente. Também pudera, desde que minha saudosa Shadow 600 levou um banho de gasolina, resolvi este problema sempre avisando previamente aos frentistas que se derramassem gasolina na moto não pagaria a conta.

O sul do Cear√°, a Regi√£o do Cariri, a mais f√©rtil do Estado em mat√©ria de agricultura, est√° totalmente seca. Da estrada v√™-se que muito pouco, ou nada, foi colhido neste ano. Triste ver uma paisagem calcinada onde antes se via verdejantes vales. O vento forte vindo da esquerda nos estapeava o capacete a todo instante. Nessa regi√£o vimos placas de Pousada Patag√īnia, Posto Patag√īnia e Restaurante Patag√īnia. Fiquei a pensar intracapacetemente se n√£o seriam alusivos aos fort√≠ssimos ventos que assolam os motociclistas que se aventuram naquela regi√£o da Argentina.

Cruzamos a divisa de Estados entre o Ceará e Pernambuco buzinando e mantive meu costume de tocar rapidamente com as botas o solo do novo Estado que nos recebe. Não sou supersticioso, acho que esse negócio de superstição dá azar... apenas mantenho um costume antigo e nada mudará caso eu não o faça.

Alongamos a pernada e paramos em Salgueiro com 237,8km rodados desde Icó. O consumo da DL foi de 16,92km/litro, demonstrando que o frentista de Russas não era tão frouxo assim, ou que rodamos mais rápido sob forte vento no trecho, ou que ela vai beber isso mesmo durante a viagem toda. Veremos.

Contornamos a grande rotatória onde a estrada dá opção de ir por Petrolina e seguimos em direção à ponte nos leva a Ibó, cruzando o Rio São Francisco, com suas águas de esmeralda, adentrando a Bahia. Tal como todos os outros que passamos até então, o posto da Polícia Rodoviária Federal parecia abandonado, sem nenhum policial do lado de fora. Estariam ainda em greve?

Observamos o aumento de animais na pista. A maioria cabritos, mordiscando alguma coisa no acostamento.

Complicado manter uma boa velocidade na expectativa de que a qualquer momento um cabrito possa correr do acostamento para a pista bem diante da roda dianteira da motocicleta. Superando temores e se acostumando com a situação, muito atentos, conseguimos manter o velocímetro entre os 110/120km/h durante as retas intermináveis na monótona paisagem da ressecada caatinga do Raso da Catarina, grande vazio demográfico no Estado da Bahia, zona de transição entre o clima árido e semi-árido com baixíssima pluviometridade, ou seja, transição entre deserto e semi-deserto.

O Raso da Catarina foi palco da Guerra de Canudos e, devido √† dificuldade de acesso, esconderijo de cangaceiros. Creio que ainda serve de esconderijo a muitos bandidos de hoje em dia. √Č regi√£o cujo tr√°fego noturno √© fortemente desaconselhado.

Em todo o trecho s√≥ vi duas cabras mortas no acostamento. Acredito que aos cabritos era dado o devido ¬ďatendimento de primeiros socorros¬Ē e iam cair nas panelas ou espetos de quem sofreu o infort√ļnio de atropelar um.

Alexxandre, cansado de grande retas em estrada praticamente sem curvas o dia inteiro animou-se quando viu uma placa de curva √† esquerda. Vibrou apontando a placa e levantando o bra√ßo. Preparou-se para deitar sua Gra√ļna numa gostosa curva e frustrou-se ao ver que a tal curva sequer chegava a cinco graus. Nem a trezentos por hora daria para inclinar a moto. √äh sert√£o seco, √™h estradinha chata e calorenta!

(Texto do Alexxandre)
¬ďO sol a pino n√£o dava tr√©gua em nenhum momento. N√£o havia sequer nuvens esparsas para sombrear um trechinho que fosse da estrada. Nesse momento al√©m do casaco, a cal√ßa de cordura juntamente com uma cal√ßa segunda-pele. O calor era grande mas, suport√°vel dentro de nossas ¬ďarmaduras¬Ē.

A parada em Bendeg√≥ serviu mais para hidrata√ß√£o dos pilotos do que para abastecimento das motos. Era por volta das duas horas da tarde e a moto do Alexxandre mostrou um balan√ßado estranho no bauleto. Eram parafusos frouxos e eu tinha a ferramenta correta para o reaperto. O dono da gra√ļna tamb√©m notou que a bela plastifica√ß√£o feita em sua moto n√£o estava resistindo ao vento. A Struminha e a GS 800 de nada reclamavam.17,30km/litro foi a sede da DL.

Em Bendeg√≥, no ano de 1784, um filho de vaqueiro encontrou um meteorito de mais de cinco toneladas, denominado Pedra de Bendeg√≥. √Č o maior meteorito j√° encontrado em solo brasileiro. No momento do seu achado, tratava-se do 2¬ļ maior meteorito do mundo, mas hoje ocupa o 16¬ļ lugar, em tamanho. A not√≠cia do achado correu o mundo e houve uma verdadeira epop√©ia para se transportar a pedra ca√≠da do espa√ßo. Hoje a Pedra de Bendeg√≥, para desgosto do povo da regi√£o, encontra-se no Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro.

Passamos por Euclides da Cunha por volta das tr√™s da tarde o que nos garantia chegar a Feira de Santana antes do anoitecer. Acontece que fica complicado manter uma m√©dia de velocidade razo√°vel j√° que em cada cidade ou lugarejo que cresceu em volta da estrada h√° uma prolifera√ß√£o de lombadas que nos obriga a quase parar a moto para galg√°-las, al√©m das filas de caminh√Ķes que se formam. Al√©m de outros muitos fotossensores para velocidades de 40, 50 e 60 km por hora.

Os √ļltimos 15km antes de Feira de Santana foram os piores do dia. Al√©m do nosso cansa√ßo natural por termos rodado 1100km, o tr√°fego era intenso, a luz do dia j√° se esmaecia e, para coroar a infernal chegada, o asfalto estava frisado na banda de rodagem dos carros e caminh√Ķes, ficando apenas o centro da faixa com asfalto liso, a uma altura de cerca de 4cm do frisado. Descer para o frisado e retornar ao meio seria tombo na certa. Ficamos, portanto, entalados nesse tr√Ęnsito ca√≥tico at√© chegarmos a um posto e pedirmos informa√ß√Ķes a uma atenciosa frentista.

Com a indica√ß√£o de hotel e rumo a ser tomado, apesar a enorme fila de carros, carro√ßas, motocas, bicicletas e caminh√Ķes, chegamos sem mais dificuldades ao hotel Cavalo Dourado, localizado na pista de acesso √† BR116 ¬Ė Rio Bahia. Achei um pouco elevado o custo do apartamento triplo por R$180,00, mas havia garagem fechada para as motos e as instala√ß√Ķes eram limpas e relativamente confort√°veis.

Ao tentar levar parte da minha bagagem para o apartamento no terceiro pavimento, entrei no elevador e, achando que não estava funcionando, desisti e subi pela escada mesmo. Ao descer fui informado pelo cidadão da recepção que o elevador funcionava, sim. Indicaram-nos um restaurante e resolvemos matar nossa fome e sede antes de qualquer coisa, pois seria melhor sair do banho direto para a cama.

Mesmo cansados de mais de 14 horas pilotando, montamos nas motocicletas e logo est√°vamos em torno de uma mesa tomando cerveja e pedindo o almo√ßo, digo, o jantar ¬Ė mas que era almo√ßo, sim, pois s√≥ comemos biscoitos e chocolates na estrada. O restaurante servia uns espetinhos apetitosos acompanhados de um feij√£o tropeiro √† moda baiana, que consiste apenas em feij√£o refogado com farinha e nada mais. Havia tamb√©m uma boa batata apimentada. Solicitamos uma por√ß√£o de arroz: aqui n√£o trabalhamos com arroz, disse laconicamente o gar√ßom, afastando-se de n√≥s. Repetimos as cervas, os espetos e a batata. A batata n√£o era muito ardida no come√ßo. Depois, conforme √≠amos comendo o ardor se acentuava. Est√°vamos na Bahia!

Antes de voltar ao hotel abastecemos as motocicletas para agilizar a saída no dia seguinte. Numa pernada de 277,9km a Struminha bebeu 1 litro de gasolina para cada 17,70 km que rodou.

No hotel, entendi porque pensei que o elevador estava inoperante. Na Bahia experimentei o elevador mais lento do mundo! Claro que n√£o perdi a piada. Agradeci ao recepcionista porque somente depois de me transportar naquele elevador eu me senti estar na terra de Dorival Caymmi.

Fui o primeiro a banhar-se e a espichar o esqueleto na estreita cama de solteiro. Alexxandre ficou na garagem arrancando a plastifica√ß√£o ordin√°ria da Blackbird e usando cera de polir para n√£o deixar resto de cola na carenagem. PW parecia um grilo fazendo um ¬ďnhec nhec reec nhec¬Ē sentado no ch√£o do apartamento raspando o isopor do seu capacete que o deixara com as orelhas doloridas. Adormeci profundamente ao som dessa melodia. Nhec reec nhec nhec reeec nhec....nhec...

Dia 08/09/2012 - S√°bado

O caf√© da manh√£ seria servido a partir das 06:30h. Certamente sair√≠amos com atraso para a jornada de 950km prevista para o dia. Fato. Meus amigos se demoram na arruma√ß√£o das motos e fazem uma lauta refei√ß√£o matinal. Eu que fiquei num frugal caf√© com leite e p√£o com manteiga, j√° com a moto em ponto de partida, corrente lubrificada, etc. Tentei n√£o demonstrar ansiedade ao aguard√°-los. Por√©m n√£o resisti em pedir ao PW que n√£o se demorasse muito na sua √ļltima subida ao apartamento. Acho que atrapalhei o bom amigo na realiza√ß√£o de um momento √≠ntimo e solit√°rio... Era quase oito horas quando finalmente come√ßamos a rodar na Rio-Bahia.


Durante o café da manhã, o Alexxandre confessou qual foi a maior recomendação da Layla, sua mulher, sobre esta viagem: Não vá na onda do Luiz.

(Texto do Alexxandre)
¬ďJ√° conhecido, literalmente, de outros carnavais, Luiz Almeida √© o cara que, entre n√≥s da turma, √© denominado como ¬ďO Ciborg¬Ē. E por que tal denomina√ß√£o? Segundo a Layla, minha esposa, o Luiz √© um ser humano fora dos padr√Ķes normais. Ele pode beber cerveja o dia inteiro e simplesmente n√£o ficar b√™bado. Ele n√£o come e n√£o sente fome. Ele fuma e eu nunca o ouvi tossir. Ele pode dormir somente quatro horas por dia e j√° estar recuperado pra mais um dia de batalha. Na verdade, o Luiz √© o tipo de ser humano que os cientistas tentam desenvolver em laborat√≥rio para servir nas for√ßas armadas. O cara √© quase uma arma biol√≥gica. Diante disso, temendo pela minha sa√ļde, Layla havia me dito para n√£o me deixar levar pelo ritmo do Luiz. Era pra eu me lembrar de comer, de beber √°gua e de dormir. Afinal de contas, nem todo mundo tem o privil√©gio de passar o dia com apenas um gole de √°gua, um gole de caf√© e alguns cigarros. Esse √© o Luiz!¬Ē

O trecho da Rio Bahia entre Feira de Santana e a divisa com Minas Gerais est√° sob a administra√ß√£o da Via Bahia, empresa que det√©m a concess√£o desta parte da BR 116. √Č cobrado ped√°gio e os pre√ßos variam conforme o tipo de ve√≠culo. Para motocicletas cobram R$1,50. Posso afirmar que no trecho sob concess√£o o asfalto est√° em bom estado, havendo apenas poucos quil√īmetros com o pavimento antigo e apresentando rachaduras. H√° diversas obras de melhoria e servi√ßo de atendimento ao usu√°rio.

Antes de entrarmos efetivamente na estrada, alertei os amigos, que ainda n√£o tinham experi√™ncia em estradas semelhantes, sobre o tr√°fego pesado que ir√≠amos enfrentar naquele dia, lembrei que cada um deveria cuidar individual e prudentemente de suas ultrapassagens e que, como seria temeroso ultrapassar diversos caminh√Ķes/treminh√Ķes e em seguida aguardar que os demais o fizessem, tendo que ficar em velocidade mais lenta diante do caminh√Ķes, provavelmente n√£o rodar√≠amos o tempo todo juntos. Marcamos como pontos de reencontro as pra√ßas de ped√°gio. Havia cinco delas at√© chegar em Minas Gerais.

Eu conhecia bem a BR 116 neste trecho porque nos anos 70 viajava de co-piloto na Kombi do meu pai no tempo em que mor√°vamos em Santos e anualmente vinhamos de f√©rias √† Fortaleza por esta estrada. A √ļltima vez que havia rodado na 116 foi em fevereiro de 1983, dirigindo um Fiat 147, trazendo de mudan√ßa mulher, filhota com quase um ano de idade e respectiva bab√°.

Come√ßamos com enorme subida, enorme fila de caminh√Ķes, enormes forma√ß√Ķes rochosas √† frente e tempo nublado com temperatura amena. Os mon√≥litos formando garganta engolindo a estrada me lembraram Quixad√°, mas a paisagem era outra bem diferente do semi-√°rido nordestino. Foi um dia muito divertido. Acelera, deita a moto para um lado, deita para o outro, freia, ultrapassa com fortes acelera√ß√Ķes, olha, espera, duvida, sai da faixa, volta para a faixa, passa um, passa dois, passa cinco caminh√Ķes de uma vez s√≥. Cumprimenta buzinando, √© cumprimentado com buzina√ßos.

Em um determinado ponto da estrada uma grande forma√ß√£o de pedras √† frente me trouxe recorda√ß√Ķes da adolesc√™ncia e, como a luz estava perfeita, fiz sinal para os amigos avisando que iria parar para fotografar. PW n√£o entendeu e passou direto, acelerando firme. Com a DL e a Gra√ļna no acostamento do lado contr√°rio, eu e Alexx fizemos algumas fotos e logo fomos encontrar o PW mais √† frente. Tendo este sido avisado por dezenas de caminh√Ķes de que est√°vamos parados um pouco atr√°s.

Convivemos muito bem com os profissionais da estrada. PW falou que aquela experi√™ncia o fez mudar o conceito negativo que tinha sobre caminhoneiros. Respeitamos e fomos respeitados, n√£o atrapalhamos e fomos ajudados, cumprimentamos e fomos cumprimentados. Caminhoneiros de longo percurso s√£o diferentes dos de regi√£o metropolitana, sabem o que fazem e raramente nos surpreendem. Melhor dividir o asfalto com caminh√Ķes do que com carros de passeio. Estes sim, fazem manobras inesperadas e imprudentes. Nas pra√ßas de ped√°gio, enquanto nos reencontr√°vamos e convers√°vamos um pouco, sempre receb√≠amos festivas buzinadas e acenos daqueles que ultrapassamos havia pouco tempo. Acho que cada vez mais caminhoneiros andam de motocicleta nas horas de folga.

Na BR 116 s√≥ vimos dois acidentes, ambos com caminh√Ķes. Um no nosso sentido de viagem e outro no sentido contr√°rio. Tombaram em curvas descendo ladeiras. Espero que todos os envolvidos tenham sobrevivido.

Fizemos uma breve parada em Jequié. Minha moto fez 20,32 km/ litro. Saí da bomba para o café na lanchonete ao lado. Uma mulher lá pelos seus 60 e tantos anos limpava o velho e encardido balcão cuidadosamente. -Bom dia! Por favor, um cafezinho, eu pedi. A mulher prosseguiu na sua faxina me ignorando por algum momento até que largou o que fazia indo para o outro lado do balcão para perguntar o que eu desejava mesmo. -Um cafezinho, por favor, repeti. Serviu-me a contragosto e ainda me cobrou um real quando em todo canto o café ou era de graça, ou era cobrado cinquenta centavos. Paguei olhando torto para a mulher e fui cuidar de limpar a viseira do capacete lembrando-me que ainda estava na Bahia...

Por volta de 1 hora da tarde, ap√≥s pagar um ped√°gio e me dirigir a um ponto no acostamento para aguardar o amigos. Acendi um cigarro e um vendedor ambulante que n√£o estava muito distante me ofereceu um caf√© muito bem-vindo. Abriu uma cesta de palha e tamb√©m me ofereceu apetitosos past√©is. Preferi o de queijo ao de carne ou presunto. Melhor n√£o se arriscar com essas coisas de beira de estrada... pensei. Os amigos chegaram e o Alexxandre, que tem rejei√ß√£o √† lactose, pediu pastel de carne e comeu dizendo que estava muito gostoso. PW fez o mesmo e, ao pedirem uma nova rodada de pasteis de carne, tamb√©m pedi um. √Äs favas a prud√™ncia gastron√īmica! Se algo der errado, iremos todos parar na mesma enfermaria! E tudo estava muito bom mesmo. O melhor lanche da viagem e esquecemos de perguntar o nome do simp√°tico vendedor.

Mais 270 quil√īmetros de ch√£o e toquei com as botas a terra dos Inconfidentes e de Chica da Silva. Entrei em Divisa Feliz, abasteci e lubrifiquei a corrente da moto. Rodamos um pouco sob chuva e a √°gua na estrada sempre lava o √≥leo da corrente. Os amigos tardaram a chegar porque pararam para fotografar a placa de divisa de estados. Ao completar o tanque, verifiquei um consumo de 17,74 km / litro. Raros os postos com gasolina aditivada.

A prop√≥sito da sinaliza√ß√£o, parece n√£o haver crit√©rio na coloca√ß√£o de placas de curvas. Vemos uma placa de curva simples e encontramos uma curva acentuada. Vemos placa de curva acentuada e encontramos uma curva aberta. N√£o h√° placas informativas sobre as pontes e o nome dos rios que elas cruzam. H√° placas de asfalto danificado quando a pista est√° perfeita. Obras √† frente e nem sinal de homens ou m√°quinas. As placas informativas de dist√Ęncias s√£o raras e, das poucas existentes, muitas est√£o ileg√≠veis. Tudo isso, esse desleixo, leva ao descr√©dito e passamos a n√£o mais acreditar ou respeitar a sinaliza√ß√£o. Os postos da PRF continuam aparentemente abandonados.

(Texto do Alexxandre)
¬ďIsso me fez lembrar a placa de sinaliza√ß√£o mais interessante da viagem, que trazia gravado: ACREDITE NA SINALIZA√á√ÉO. Na hora, me lembro de ter dado boas risadas dentro do capacete. Chega a ser c√īmico, apesar de tr√°gico.¬Ē

Em Minas, acaba-se a moleza. Voltaram as lombadas f√≠sicas em conjunto com as eletr√īnicas de velocidades variando entre 60 e 40 por hora. Ainda bem que a corrente da minha moto era muito bem lubrificada e a placa ia ficando cada vez mais suja com o salpicar do √≥leo... Havia cidades em volta da estrada que nos anos 70 a gente s√≥ via a placa indicativa e mais nada. Caratinga e Padre Para√≠so s√£o exemplos de cidades que incharam em torno da BR. E tome lombadas e consequentes filas de caminh√Ķes para transpass√°-las! Al√©m do limite da paci√™ncia, confesso que fiz muitas ultrapassagens pelo acostamento e por faixas cont√≠nuas. Mas s√≥ nessas situa√ß√Ķes de tr√Ęnsito parad√£o, com muito cuidado, evidentemente.

O √ļnico momento, podemos dizer, tenso, desse dia foi quando numa grande descida com faixa cont√≠nua no centro da pista e com terceira faixa no sentido contr√°rio, senti-me seguro para ultrapassar um caminh√£o lento, porque a fila de caminh√Ķes em sentido contr√°rio estava toda na terceira faixa, deixando todo o longo declive √† frente livre. Deitei a moto para esquerda saindo da traseira do caminh√£o e, quando ia torcer o punho, naquele mesmo momento, o cabe√ß√£o vermelho de uma carreta saiu da fila para ocupar a mesma faixa que eu. Ooooops! Voltei rapidinho para o meu canto. Reflexo √© sa√ļde!


Sem que perceb√™ssemos o tempo passar, o dia pleno de pilotagem come√ßou a terminar. Sa√≠mos tarde e nos demoramos nas paradas, enfrentamos filas de caminh√Ķes em cada zona urbana e tr√°fego pesado na estrada. Como a maioria das longas subidas conta com terceira faixa, aquelas famosas filas de caminh√Ķes n√£o nos atrapalharam muito. Fez-se noite, Governador Valadares ainda est√° longe e a pr√≥xima parada prevista √© Te√≥filo Otoni.

Al√©m a aus√™ncia de animais na pista, fato muito comum no nordeste ¬Ė animais na pista, notei tamb√©m que n√£o era necess√°rio implorar para que o ve√≠culo que vinha no sentido oposto baixasse os far√≥is. A grande maioria dos caminh√Ķes baixava os far√≥is antes mesmo de entrar no nosso foco, de concluir uma curva. Fiquei at√© meio constrangido por, em muitas vezes, n√£o ser eu o primeiro a baixar o farol alto. N√£o estava acostumado a isso. A educa√ß√£o de tr√Ęnsito aqui no nordeste √© das piores. E a do povim tamb√©m!

Com apenas a luz dos nossos faróis a iluminar a estrada, reduzimos nosso ritmo e ficamos bem mais cautelosos nas ultrapassagens. Nos mantivemos juntos e com tranquilidade, curva após curva, por volta das oito da noite chegamos a Teófilo Otoni. Paramos num posto, abastecemos as motos e aplacamos nossa sede. Dessa vez minha moto surpreendeu com um consumo de 24,04 km / litro. Suave é a noite!

(Texto do Alexxandre)
¬ďAbro aqui um par√™nteses para relatar que, para mim, esse foi o melhor trecho estrada em toda a viagem. Apesar do tr√Ęnsito mais pesado durante o trecho de sa√≠da pr√≥ximo √† Feira de Santana, a estrada Rio-Bahia possui um cen√°rio lindo. O asfalto √©, em quase todo sua extens√£o, de muito boa qualidade. Ap√≥s a entrada no estado de Minas Gerais, conseguimos imprimir um ritmo mais acentuado porque j√° havia bem menos caminh√Ķes.
A parte mais bonita desse dia veio de tarde quando, j√° em terras mineiras, a paisagem havia se tornado mais montanhosa, iluminada por um Sol tropical em um c√©u com azul profundo. As serras e vales que davam passagem √† estrada estavam verdes e, em sua maioria, cobertas por vastas planta√ß√Ķes de caf√© e eucalipto. O aroma na estrada, uma mistura de eucalipto com o cheiro suave de asfalto, tornava a viagem ainda mais agrad√°vel.
A temperatura já estava bem mais amena do que a do dia anterior no sertão da Bahia e, apesar do cansaço físico devido às poucas horas de sono na noite anterior e das muitas horas já pilotando, o trecho era muito prazeroso. Para completar, o restante da paisagem era estonteante.
Como eu vinha atrás do grupo durante toda a viagem praticamente, seguindo a 800Gs do PW e a V-Strom do Luiz, eu ainda tinha o privilégio de acompanhar visualmente o balé que as motos faziam à minha frente durante as curvas que nos eram apresentadas. Coisa bonita de se ver, mas difícil de descrever.
Foi um dia bem legal. Grandes e compridos caminh√Ķes me davam a oportunidade de despejar no asfalto os 164cv da XX. Toda ultrapassagem era uma divers√£o. Eu s√≥ precisava esperar PW e Luiz ultrapassarem e estarem com seguran√ßa l√° na frente para ter uma ¬ďdesculpa¬Ē pra engrenar uma quarta ou uma terceira e fazer com que os 4 cilindros revolucionassem aos Oito, Dez mil giros durante alguns poucos segundos. E assim, tamb√©m, era com toda curva mais acentuada, feita com motor cheio, Seis, Sete mil giros, acelerador firme, e eu ainda estava s√≥ na metade do que ela podia me entregar. Via a curva, reduzia marcha, buscava a melhor trajet√≥ria, e a√≠ deita moto pra um lado, deita moto para o outro. Esquece consumo!
Enquanto isso, dentro do capacete, o rock de Bob Catley, o samba de Jorge Arag√£o e o PopRock dos Engenheiros do Hawaii me forneciam uma parcela da trilha sonora para aquela que, para mim, era uma das melhores experi√™ncias j√° vivenciadas sobre as duas rodas. A outra parcela era preenchida pelo ronco √≠mpar de um verdadeiro Four Japon√™s, saud√°vel e satisfeito, fazendo a XX percorrer as estradas de asfalto exemplar num ritmo que ele gosta de trabalhar. Foi um dia feliz ao lado do p√°ssaro negro. Obrigado, Honda! Ali, naquele fim de dia, a viagem j√° havia ¬ďse pagado¬Ē pra mim.¬Ē

Havia mensagens no meu telefone dos amigos que nos aguardavam em Governador Valadares. Liguei para o Carlos Salgado e ele nos informou que estávamos a apenas 150km de Valadares e que dali em diante a estrada estava em perfeito estado e com muito menos sinuosidade do que o trecho que passamos. Consultei os amigos para saber se estavam dispostos a seguir em frente por mais duas, duas horas e meia de estrada. Alexxandre topou e PW, que demonstrava um certo cansaço, disse que responderia depois de tomar um Redbull. Enquanto isso fui tomar um café e fumar um cigarrinho para pensar. Ora, percebi pelo olhar que meus amigos estavam relutantes. Pensei: para quê insistir em seguir até Valadares se chegaremos lá depois das dez da noite - capaz de lá pelas onze - e se vai ficar, portanto, complicado farrear muito tarde da noite com os amigos que nos esperam? Voltei e falei pros amigos que o melhor mesmo era dormirmos em Teófilo Otoni e que, se o PW quisesse, poderia deixar o tal energético pela metade. Foi legal ver quatro olhos brilharem. Um plano de viagem é feito para poder ser alterado conforme a situação. Fiquei feliz por ter ainda a sensibilidade para perceber a tempo o que a turma preferia.

Na √°rea do posto de gasolina em que est√°vamos, um cabra chato me pedia cigarro e insistia em fazer indica√ß√£o de hotel. Neguei o cigarro e interessei-me pelo hotel. -√Č muito bom e barato, o cabra disse, n√£o respondi. -Tem at√© mulher de gra√ßa, o cabra insistiu e eu desisti do tal hotel que mais me pareceu um bordel. Confundindo-me com os pid√Ķes, por engano cedi um cigarro para outro cabra e mandei o primeiro ir tomar o que deveria ser dele. Aproveitei o momento de paz enquanto os malas brigavam e me informei com os frentistas que nos mostraram um bom hotel localizado quase em frente ao posto.

Motocicletas em estacionamento protegido, bom apartamento triplo, sa√≠mos a p√© para almo√ßar no restaurante, com servi√ßo tipo bif√™, anexo ao posto em que estivemos antes. Nossa fome nos fez achar que a comida ¬ďmineira¬Ē oferecida no balc√£o era boa. Mas essa impress√£o durou pouco e o churrasco oferecido era sofr√≠vel e a comida gordurosa. Valeu para sobreviv√™ncia e o bate papo sobre o movimentado dia de estrada, regado a cerveja.

Dia 09/09/2012 - Domingo

Acordei cedo da noite bem dormida. Cumpri meus ritos matinais e, enquanto não era servido o café da manhã, tratei de lubrificar a corrente da moto e arrumar a bagagem. Só havia levado para o apartamento o bauleto e a mala de tanque.

Depois do café, combinei com o Alexxandre que ficássemos fazendo algo em torno das motos para, discretamente, deixar o PW à vontade no apartamento, para que ele se recuperasse, sem traumas, do bloqueio da hora da saída em Feira de Santana. Parece que deu certo. Depois de cerca meia hora ele surgiu muito bem humorado para arrumar a tralha na moto dele. E que arrumação demorada!

O pessoal Brazil Riders de Governador Valadares nos encontraria na estrada. Era quase oito horas quando liguei para o Salgado avisando que estávamos saindo de Teófilo Otoni.

Faltando uns 40km para Valadares cruzamos com a turma de uns dez motociclistas que vieram nos escoltar, capitaneados pelo Brandão, Conselheiro Brazil Riders em Minas Gerais. Ficamos honrados e felizes com a deferência. Paramos à sombra de um bambuzal para abraçar os amigos. Foi uma festa na beira da estrada, muitos dos valadarenses já haviam tomados cervas com camarão no Mucuripe, na oportunidade em que os recebi em Fortaleza. Salgado preencheu minha malas laterais com especialíssimas cachaças mineiras. Papo vai, papo vem, retornamos à estrada e paramos em Gov Valadares para concluir a conversa, tendo que, lamentavelmente, recusar diversos convites para churrascos, passeios em trilhas e montanhas e mesmo pousar na casa dos amigos. Era quase onze horas quando nos despedimos do amigos. Ficamos muito gratos, porém nossa programação era chegar a Alto Caparaó naquele domingo.

Domingo: carros de passeio na estrada, cuidados redobrados. Foi o que precisamos ter na estrada depois de Valadares. Muita burrice ao volante, muita falta educação e ultrapassagens imprudentes. Até um cabra quase dormindo ao volante eu tive que acordar para ele ir para a terceira faixa com sua lentidão de tartaruga manca.

No trecho entre Gov Valadares e a rotatória do encontro da BR 116 com a BR 262 cruzamos com um motociclista solitário pilotando uma V-Strom 650 azul com malas laterais. Houve uma simpática e efusiva troca de cumprimentos. Dias depois, quando estávamos na BR 101, depois de sairmos de Vitória, cruzamos com o mesmo camarada e novamente trocamos vigorosos cumprimentos. Se ele lembrar que na BR 116 cruzou com uma V-Strom 650 cinza, uma Black Bird preta e uma F800GS branca e na BR 101 apenas com a V-Strom e a GS800, pode ser que saibamos quem seria ele, se o mundo for pequeno como dizem...

Conforme eu havia previsto aos amigos, encontramos √† nossa esquerda um riacho que acompanha a estrada por muitos quil√īmetros, acho que por mais de trinta. A estrada sobe, desce, vira para um lado, vira para outro lado e o riacho ali, a nos acompanhar. No passado, j√° o havia visto em tempo de chuva, caudaloso. Agora corria calmo. Rio Caratinga, foi o que informou a rara placa na ponte em que ele passava para o outro lado da estrada e desaparecia dentro das matas mineiras.

Em Caratinga paramos para abastecimento e lanche. 20,70 km/ litro foi o consumo da Struminha. O frentista demorou, mas quando entendeu caiu na risada ao perceber que quando eu perguntava se a gasolina era cristã, eu queria saber se ela era batizada. Nessa cidade percebi que as lentes dos fotossensores só fotografavam a placa dianteira dos veículos. Comecei a desobedecer os limites de velocidade. E a placa da minha moto estava cada vez mais suja...

Por conta das minha ¬ďtravessuras¬Ē cheguei ao trevo do cruzamento da BR 116 com a BR 262 bem antes dos amigos. O tr√°fego, acho que por conta do domingo, estava ca√≥tico e o restaurante Barrig√£o, onde j√° comi muito bem, estava t√£o lotado que nem para pedir um cafezinho valeria a pena. Fazia muito calor e estacionei sob a sombra de uma √°rvore para aguardar os cabras. Ao nos reencontrarmos fizemos algumas fotos e algu√©m falou: - olha o Joarez! N√£o √© que, sem nenhuma combina√ß√£o pr√©via, nos encontramos com o Joarez, que vinha da Chapada Diamantina e de Diamantina para Alto Capara√≥, naquele ponto! Comemoramos e seguimos em dire√ß√£o a Manhua√ßu, pela BR 262.

Manhua√ßu foi a cidade mais estressante de atravessar de toda a viagem. Calor de rachar, tr√Ęnsito infernal, caminh√Ķes velhos e fumacentos, lombadas f√≠sicas e eletr√īnicas de fazer lama. Para ignorar toda essa lamban√ßa de limita√ß√£o de velocidade, contei com o anonimato da placa da minha moto que estava bem sujinha. Culpa dos salpicos do √≥leo da corrente, claro. Mesmo assim ainda tive saco para fotografar um conjunto de casas coloridas que cobria uma colina. Quando os amigos chegaram e tamb√©m pararam para fotografar me mandei. Precisava de vento. Meu capacete estava encharcado de suor e grudando na cabe√ßa. Aguardei o povo na entrada da estrada estadual que leva a Alto Capara√≥.

Mais lombadas e agora uma novidade. Inventaram umas lombadinhas menores e as colocam de dez em dez a cerca de dois metros umas das outras. Riégua!

Entra-se em Alto Caparaó através de um portal com o nome da cidade e a altitude do Pico da Bandeira. Antes de chegar ao portal se desce uma longa ladeira de onde pode-se ver e sentir a imponência da montanha. Chegamos entre duas e três da tarde e o calor continuava intenso.

Enquanto arrum√°vamos as motos para uma foto no portal, um cidad√£o conduzindo um carro cheio de crian√ßas parou para pedir-me alguma orienta√ß√£o. Expliquei que √©ramos de fora e est√°vamos acabando de chegar. O cara, estressad√≠ssimo, reclamou que a meninada n√£o parava de falar e a mulher dele, no banco ao lado tamb√©m. Quando ele partiu ainda ouvimos um estrondoso ¬ďp√īo#*ra!¬Ē berrado de dentro do carro.


Ao chegarmos na Pousada do Rui encontramos o Davi, do M@D, um fórum de motociclistas que participo há mais de década. Não o conhecia pessoalmente e ele veio de Cachoeiro de Itapemirim para receber de minhas mãos o livro Histórias de Motocicleta, além de nos acompanhar na subida ao Pico da Bandeira. Foi bom conhecer um cabra com o qual converso via fórum há muito tempo.

Os apartamentos ficaram divididos entre ¬ďcanonzeiros¬Ē e nikonzeiros, ou seja eu e o Joarez, que fotografamos com Nikon, ficamos em um apartamento e PW e o Alexxandre, que fotografam com Canon, ficaram com outro. No entanto, s√≥ foi poss√≠vel dividir apartamento com o Joarez na condi√ß√£o de que ele mantivesse sua botas e meias do lado de fora. Aff.

Para almo√ßar, Rui, o dono da pousada, nos indicou um restaurante cuja dist√Ęncia nos permitia ir a p√©. Comidinha honesta e boas cervejas. Fomos comendo e jogando conversa fora e bebendo e mais conversa e repetiram o LA de Luiz Almeida na minha ficha de pedidos e, para zoa√ß√£o do Davi, apareceu um Lal√° na est√≥ria e fomos bebendo e falando e dando risadas e nos divertindo uns com os outros e mais e mais que s√≥ sei que s√≥ sa√≠mos do lugar quando acabamos o estoque de cervas e o dono amea√ßando nos expulsar de t√£o familiar ambiente. No meio de toda essa algazarra acertamos o servi√ßo do guia Claudemir e uso das mulas.

Dia 10/09/2012 ¬Ė Segunda Feira

Dia seguinte, mantimentos comprados (j√° trazia os meus na bagagem, al√©m de √°lcool e fogareiro), equipamento pronto e jeep na porta da pousada. Pensei que o jeep seria um tipo Toyota Bandeirante, mas era Jeep Willys mesmo, daqueles antigos dos anos 60. Este √© o Jeep que vai levar cinco pessoas al√©m do motorista e a bagagem? Assustei-me. O Rui e o motorista me garantiram que o transporte era seguro e bem revisado. Falei ao motorista que n√£o gostaria de passar por fortes emo√ß√Ķes na subida √† Tronqueira e apontei um pneu que me parecia ter pouca press√£o de ar. ¬ď√Č assim mesmo¬Ē, respondeu o motorista com jeito de tropeiro.

Fui no banco da frente junto com o Davi e o motorista. Alexx, Joarez e PW no banco de tr√°s, fazendo algazarra. Na primeira curva o Jeep se inclinou demasiadamente pro meu lado. Sem emo√ß√£o porra! Eu relembrei enfaticamente ao condutor de mulas, digo, ao motorista. Pouco antes de chegarmos √† portaria do Parque Nacional da Serra do Capara√≥, ouvimos um forte estalido vindo de algum lugar do Jeep. Pensei que seria mola quebrada, mas falaram que poderia ter sido ru√≠do causado pela explos√£o de garrafa pet amassada pela roda do carro. Quando paramos na portaria o motorista abriu o cap√ī e verificou que o estalo havia sido causado por uma p√° da h√©lice do radiador que se partira. Ficamos na portaria enquanto outro Jeep era providenciado.

Para entrar no Parque, preenche-se um formul√°rio e paga-se R$17,00.

Enquanto aguard√°vamos o novo Jeep mantivemos nossas m√°quinas fotogr√°fica guardadas com discri√ß√£o, pois j√° tivemos not√≠cias de que em certos Parques Nacionais h√° uma est√ļpida restri√ß√£o a fot√≥grafos profissionais. E a diferencia√ß√£o pouco inteligente √© feita apenas pelo tipo de equipamento usado. Como nossas m√°quinas s√£o do tipo DSLR, tem√≠amos ser confundidos com profissionais.

Nosso novo Jeep chegou. O estado geral deste era bem melhor do que o anterior. Renovei meu pedido de não emoção e, por poeirenta estrada de barro e beiradas de precipícios, fomos sacolejando até a Tronqueira, onde nos aguardava Claudemir com duas fortes mulas, Caju e Jurubeba.

Caminhamos por 3200 metros em subida relativamente suave at√© o Terreir√£o. Com as mulas levando nossa bagagem e, como tudo era novidade, n√£o foi ¬ďt√£o¬Ē cansativo chegar ao local do acampamento. Fazia calor e mant√≠nhamos nossos cantis abastecidos com √°gua cristalina e gelada encontrada √† vontade nos regatos pr√≥ximos √† trilha.

No Terreir√£o, montamos nossas barracas e tomamos as primeiras provid√™ncias para enfrentar uma noite que certamente traria muito frio. Ao colocarmos todos nossos os mantimentos sobre uma mesa de madeira, percebi que nem s√≥ de sede o cearense teme morrer. Era tanta comida instant√Ęnea, chocolates, biscoitos, p√£es, etc que cheguei a conclus√£o que cearense tamb√©m tem medo de morrer de fome! A prop√≥sito, por uma quest√£o de sobreviv√™ncia e apesar da proibi√ß√£o, contrabandeei rum Captain Morgan dentro de uma embalagem de 250ml de Listerine de r√≥tulo alaranjado. Antes mesmo da viagem alertei aos amigos que eles tamb√©m deveriam fazer algo parecido com conhaque ou at√© cacha√ßa. Todos esqueceram. Tive vontade de vender cada cobi√ßada dose de rum por simb√≥licos R$50,00...

Ao entardecer fomos fotografar o sol poente, descobrindo caminhos entre a mata nas eleva√ß√Ķes em torno do Terreir√£o. Dependendo do ponto de vista, a fuma√ßa proveniente de diversos pontos de queimadas que divis√°vamos do alto, poderia ajudar ou atrapalhar as fotos. A luz estava bel√≠ssima.

(Texto do Alexxandre)
¬ďEsse foi o momento ¬ďPuuuuta que pariu¬Ē, pois a luz estava t√£o bonita, o sol t√£o bem localizado, a paisagem t√£o a nosso favor que, a cada foto, ouvia-se essa express√£o da boca de algu√©m ao conferir o resultado da tomada.¬Ē

Escureceu e eu e PW tentamos fazer fotos de longa exposição. Joarez e Alexx ao circularem com suas lanternas de testa ligadas conseguiam xingamentos de quem estava como diafragma da máquina aberto e, portanto, com a planejada imagem estragada. Tive a expectativa de encontrar um céu mais estrelado por conta do ar rarefeito da altitude, mas não foi exatamente isso que vimos. Talvez em razão da bruma de fumaça que pairava na região. Tenho visto melhores céus com estrelas na praia de Peroba.

Com o Captain Morgan ajudando, fizemos mais algumas fotos com longas exposi√ß√Ķes quando os dois sabotadores se recolheram √†s barracas, levando suas malditas lanternas. Dentro da barraca, com gorro na cabe√ßa, tr√™s meias, duas cal√ßas e mais umas tr√™s camisas e agasalhos, entrei no saco de dormir para tentar um cochilo antes de nos aventurarmos ao Pico. √Ä esquerda da minha barraca, Davi roncava, Claudemir parecia um jumento zurrando e Joarez um moinho de pedra (e disse que n√£o dormiu!). Eita povo pra roncar. Sil√™ncio s√≥ √† minha direita, onde estavam PW e Alexx.

Combinamos que na hora de partirmos rumo ao pico, às 02:00h, caso alguém relutasse em sair da barraca por conta do frio somado à letargia do juízo entorpecido pelo sono, desistindo da escalada, seria retirado à força e aos tapas da barraca.

N√£o tinha Captain Morgan que desse jeito, o frio n√£o me deixava dormir. N√£o encontrava conforto em nenhuma posi√ß√£o e nem eu tinha √Ęnimo para me agasalhar mais. Uma vontade distante de fazer um xixizinho era bloqueada pelos gritos de frio que ouvi dos que foram molhar o mato antes. Ah uma garrafa pet vazia aqui dentro da barraca, eu sonhava... Finalmente, l√° pela uma da madrugada, e eu pensando j√° ser perto de duas horas, sa√≠ para um pipi depois de tomar uma lapada de rum. Nem estava tanto frio assim, qui√ß√° uns cinco graus, j√° que os term√īmetros que levamos n√£o funcionavam. PW tamb√©m n√£o dormira e resolvemos ficar enrolados nos sacos de dormir, apenas com a cabe√ßa fora das barracas e m√°quinas nos trip√©s para tentarmos fotos de longa exposi√ß√£o sem perigo de luzes circulando no ambiente. Foi muito mais confort√°vel do que tentar dormir!

Dia 11/09/2012 ¬Ė Ter√ßa Feira

Claudemir parou seu ronco brutal e saiu da barraca para nos avisar que era hora de encararmos a subida ao pico. Tomamos capuccinos e caf√© sol√ļvel e nos preparamos para a subida.

Com lanternas acesas na testa, mochilas nas costas levando cantil e equipamento fotogr√°fico, enxergando apenas onde coloc√°vamos os p√©s, em pedras e batentes que n√£o acabavam mais, come√ßamos a caminhada. N√£o era como um ¬ďtrekking¬Ē como imaginamos ao ver fotos do lugar antes da viagem. A subida era √≠ngreme e forte, com muitos degraus de pedra a serem vencidos, quase escalada mesmo. Minha respira√ß√£o ficou ofegante muito rapidamente e eu comecei a me sentir velho e acabado. Cada passo era um evento. As paradas para descanso eram curtas e seguir em frente e acima era essencial. O sol n√£o espera! Os poucos momentos de caminhada em terreno limpo e sem grande aclive tamb√©m serviam de descanso.

Joarez e Davi pareciam ir bem, caminhando bem próximos ao guia, um pouco à frente. Alexx também parecia não sentir muito a subida e ficou como elo de ligação entre eu e PW, que ficamos um pouco atrás. PW por um momento perdeu a cor, mas se restabeleceu rapidamente tomando uma garrafa de Gatorade. Tomei apenas um golinho dessa gororoba e não senti diferença nenhuma. Mais um pouco, acertei o ritmo de minhas passadas e tanto a respiração quanto o batimento cardíaco de estabilizaram. Teria eu sentido algum efeito da rarefação do ar?

Claudemir nos alertava sempre que convers√°vamos nos momentos de descanso. O sotaque era mineir√≠ssimo: ¬ďPssu√°, oc√™s t√£o falando dimais e v√£o perder o f√īrgo, uai. Guardem o ar qui daqui pra frente vai pior√° inda mais. O sor num isp√©ra, uai.¬Ē Alexx virou especialista em imitar a fala do nosso competente e bacana guia de montanha.

Dos cerca de 3,5 mil metros e tr√™s horas de subida acho que o √ļltimo quinto foi o de aclive mais acentuado. No entanto, por volta das cinco horas galgamos o Pico da Bandeira a tempo de ver o sol coroando e multicolorindo o horizonte do dia nascente antes mesmo de se erguer do manto de algod√£o de nuvens que o escondia.

O forte e gélido vento nos deixava meio atordoados. Acho que a sensação térmica era de algo abaixo de zero. Fugindo do torpor, deitei-me de barriga numa pedra e comecei a fotografar, meio sem rumo ou técnica, mas comecei a fotografar. De repente a bateria da minha nikon acabou e tirei as luvas para substituí-la. Ao completar a operação senti minhas mãos doloridas de frio. Doíam tanto que o jeito foi me aquietar um pouco colocando as mãos novamente enluvadas nos bolsos para buscar um calor extra, concentrando-me, por um momento, apenas em apreciar a paisagem e o belíssimo momento.

(Texto de Alexxandre)
¬ďO vento era muito forte e constante l√° em cima. Mesmo com todo o corpo agasalhado, a sensa√ß√£o era de que o calor gerado pela pele n√£o era capaz de se manter sob a roupa. A sensa√ß√£o t√©rmica era algo que nunca havia sentido antes. De doer, realmente. Nesse momento, apesar da vista espetacular, eu s√≥ lembrava do calor amig√°vel do Cear√°. A √ļnica coisa que conseguia pensar era em tentar me proteger em uma esp√©cie de pequena fenda atr√°s de uma pedra contr√°ria ao vento. O saco de dormir de emerg√™ncia que havia levado na bagagem simplesmente se despeda√ßou ao entrar em contato com a pedra ao ser a√ßoitado pelo vento.¬Ē

A caminhada e a altitude devem ter provocado alguma alteração mental no Davi. O cabra, ao chegar ao Pico, afastou-se um pouco de nós (felizmente) e cantou o hino de um time de futebol, acho que do Vasco da Gama e depois, achando pouco, aos brados e gesticulando muito, tentando colocar seus gritos acima do vento, como um ensandecido, começou berrar palavras de ordem e a xingar torcedores de algum time de futebol, acho que xingava corintianos ou palmeirenses. Parecia que estava num estádio, junto com grupo de fanática torcida organizada. Cada maluco... Passados uns cinco minutos de crise, ele voltou ao normal e tornou a se unir ao grupo, como se absolutamente nada houvesse acontecido.

PW esqueceu do frio e do vento e come√ßou a fotografar empolgado. Joarez deitou-se enrolando-se num cobertor ao lado do Claudemir e ficou t√£o quieto que tivemos de cham√°-lo para sair do torpor em que se encontrava. Alexx, depois de tentar se enrolar num saco de dormir de alum√≠nio, desistiu depois de ver sua pretensa prote√ß√£o toda despeda√ßada pelo vento e juntou-se ao PW cuidando de capturar boas imagens. Depois que minhas m√£os melhoraram juntei-me aos amigos fotografando tudo que via em todos os √Ęngulos poss√≠veis.

(Texto do Alexxandre)
¬ďEsse foi o momento em que o frio come√ßou a nos dar uma pequena tr√©gua, pois o Sol j√° estava no horizonte e sua luz, carreando um calor muito bem-vindo, nos acalentava e nos dava √Ęnimo para fazer o que t√≠nhamos nos programado para fazer l√° em cima! Era hora de fotografar pra valer!¬Ē

Uso uma lente que acredito ser bem vers√°til para quem viaja de moto, uma Sigma 18-250mm. L√° no Pico se usasse uma tele em 250mm teria apenas uma grande bola vermelha alaranjada e nuvens abaixo, coisa que se pode fazer de qualquer janela de avi√£o. Se usasse a angular, 18mm, teria um pouco da montanha, um mund√£o de nuvens e uma bolinha avermelhada bem distante que seria o sol. Nas medi√ß√Ķes entre um extremo e outro, fui trabalhando velocidade, abertura, balan√ßo de branco e ISO para ver o que conseguiria. Ainda n√£o estou certo, mas creio que minhas melhores fotos s√£o aquelas em que inclu√≠ outros elementos na imagem, fotografando os amigos e as eleva√ß√Ķes pr√≥ximas como o Pico Cristal e Pico do Cal√ßado.

Detalhe; enquanto havia toda essa nossa movimentação no Pico da Bandeira, nosso guia Claudemir dormia profundamente todo enrolado num saco de dormir.

(Texto do Alexxandre)
¬ďN√≥s j√° hav√≠amos sido brindados com uma linda noite estrelada e com c√©u suficientemente limpo (poss√≠vel, inclusive, de se perceber a Via L√°ctea com sua ¬ďnuvem¬Ē de estrelas estirada logo ao centro) e naquele momento est√°vamos sendo agraciados com um belo dia de Sol. O visual l√° em cima, no ponto mais alto, onde h√° o cruzeiro, √© algo estarrecedor. Voc√™ olha para o leste e pode contemplar o Esp√≠rito Santo. Logo atr√°s de voc√™, a Oeste, Minas Gerais te ampara. A altitude √© tanta que voc√™ v√™ as nuvens l√° em baixo com uma certa ¬ďminiaturiza√ß√£o¬Ē. √Č impressionante. Uma esp√©cie de tapete de algod√£o se estendia por toda nossa volta. L√° em cima, √© grandiosa a sensa√ß√£o de paz. No momento em que todos os amigos se sentaram para aguardar o Bom Dia de nosso astro rei, a trilha sonora era silenciosa, mas estava l√°, no cora√ß√£o e na cabe√ßa de cada um de n√≥s. Suave como a melodia de um grupo de cordas sendo gentilmente regido, preparando e direcionando nossos ouvidos ao cl√≠max com o rufar de tambores e French Horns. Fora um momento de reflex√£o, de conquista e de satisfa√ß√£o, apesar do frio.¬Ē

Antes da descida, lembrei-me de um poema do Fernando Pessoa, cujo fragmento recitei de memória lá no alto:

Mestre, meu mestre querido
Que nem uma coisa feriu ou perturbou
Natural como o sol, fazendo seu dia involuntariamente
Natural como um dia, mostrando tudo
Mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade
Meu coração não aprendeu nada
Meu coração não é nada
(¬Ö)
E por que me levaste para o alto da montanhas
Se eu, menino das cidades da planície
N√£o sabia respirar.
(...)

Dia claro e sol j√° alto, come√ßamos a descida. Ainda fazia frio, por√©m a encosta nos protegia do forte vento gelado. Descer exige menos preparo f√≠sico e muito mais cuidados com tor√ß√Ķes nos tornozelos e joelhos. Era preciso cuidado e ficar atento a cada passo. Depois de meia hora descendo, ao olharmos o caminho que fizemos na subida, percebemos o quanto foi dif√≠cil a escalada na madrugada. Acho que daria para pensar em desistir caso tiv√©ssemos visto o quanto √≠ngreme era a encosta da √ļltima etapa da trilha.

Desci calado, apreciando cada detalhe do lugar. No entanto, durante toda a caminhada ouvi acirrada discuss√£o sobre Canon e Nikon, daquelas meio fan√°ticas tipo ¬ďHonda ou Yamaha?¬Ē, e sobre o uso do ¬ďP¬Ē ou dos ajustes manuais (M) das m√°quinas. Nunca vi um ¬ďnikonzeiro¬í t√£o fan√°tico quanto o Davi e nunca vi um ¬ďajustemanualzeiro¬Ē t√£o arraigado quanto o Alexx. Hehehehehe

O p√©s me do√≠am um bocado. As tr√™s meias dentro da bota dobravam meus dedos a cada passada sobre as pedras inclinadas. Alexx sentiu o joelho doer e precisou do apoio do cajado cedido pelo Claudemir. O meu joelho, que j√° n√£o √© muito bom, resistiu bem, felizmente. J√° pr√≥ximos ao Terreir√£o, encontramos um montinho de pedras colocadas cuidadosamente umas sobre as outras e me lembrei de minhas leituras sobre escaladas ao Everest. Em tributo e agradecimento √† Montanha, apanhei uma pedra e a coloquei bem encaixada sobre as demais. Os amigos tamb√©m repetiram o gesto. Mais de duas horas e meia de caminhada est√°vamos de volta ao Terreir√£o. Cheguei, como se diz em ¬ďcear√™z¬Ē, com os p√©s quengados.

Dentro da barraca abafada, tirei as botas e massageei os p√©s com hidratante. Ainda havia bons quil√īmetros para descer at√© a Tronqueira. Caminhei at√© um regado e deixei os p√©s na √°gua gelada por uns 15 minutos. Pronto! Milagrosamente os p√©s ficaram zerados.

Acampamento desmontado. A imensa quantidade de provis√Ķes n√£o utilizada devidamente doadas ao guia, bagagens nas mulas e est√°vamos prontos para descer √† Tronqueira. Eu pagaria 50 contos por uma latinha de cerveja naquela hora... Acabava de chegar ao local um casal com vistoso equipamento fotogr√°fico. Entabulamos boa conversa com eles, que j√° tinham idade provavelmente acima dos 60 anos e n√£o desejavam passar do Terreir√£o. Viajavam o mundo numa ¬ďTriton-home¬Ē, uma camionete Mitsubishi Triton equipada com um habit√°culo completo na carroceria. O pr√≥ximo destino deles ser√° o Alasca, mas antes passariam por Fortaleza e praias do Cear√°. Esperamos receb√™-los em nossa cidade e praias.

A descida até e Tronqueira foi mais longa do que eu imaginava. A paisagem já conhecida e o calor me deixavam ansioso para chegar. Parei para algumas fotos porque o Alexxandre, por conta do joelho avariado, sem notar, arrastava uma perna e deixava poeira para eu comer. O Jeep já nos aguardava quando chegamos por volta das 11:30h. Era o mesmo que tinha quebrado a hélice do radiador na tentativa de subir, mas com outro piloto, que mais lembrava um vaqueiro aposentado.

Agradecidos, acertamos os R$400,00 do servi√ßo do guia Claudemir e do aluguel das mulas, que t√£o bem nos serviram. Fizemos fotos de despedida e entramos no Jeep. Eu, sempre temeroso com esses carros velhos, perguntei pelos freios e lembrei que n√£o gosto de fortes emo√ß√Ķes com outros ao volante. N√£o tem jeito, nunca consigo deixar de visualizar uma coisa daquela sem freio e sem controle rolando com a gente montanha abaixo. Tenso! Nunca vi se usar tanto freio motor quanto o que foi usado naquele jeep na descida. O motor gemia e berrava, mas segurava o trem.

(Texto do Alexxandre)
¬ďVale lembrar que o Jipe era equipado com um valente motor 6 Cilindros a gasolina, 4.9 litros, adaptado de uma Ford F-250 e condicionado a funcionar com carbura√ß√£o Weber. Era uma verdadeira usina. O escapamento era feito sob medida para ele e tinha a sua vaz√£o facilitada, o que promovia um lindo som. E com o motor funcionando sob carga constante, tanto na subida como na descida, a compress√£o em alta, o ronco do motor era ainda mais bonito. Valente Willys!¬Ē

Felizmente chegamos todos inteiros na pousada. Bagagem descarregada, cervejas nos copos para lavar a garganta e matar a sede, fomos tomar banho enquanto nosso almoço especial era preparado pela Rilza, mulher do Rui.

Foi uma refeição farta e deliciosa. Acho que a melhor e mais substanciosa refeição de toda a viagem. Viva a culinária mineira!

Nos despedimos do Davi, que tinha um compromisso em Cachoeiro do Itapemirim naquele mesmo dia, e nos recolhemos aos apartamentos. Nossas carcaças estavam precisando de descanso.

Acordei desorientado no tempo e no espaço. Como não tenho costume de dormir durante o dia, não tinha ideia de que horas eram e aonde estava. Ao ver na outra cama o Joarez a roncar mesmo deitado de lado compreendi aonde estava. Olhei o relógio para saber se ainda era dia ou madrugada. Era quase seis horas da tarde. Levantei-me e fui cuidar de arrumar a tralha para o dia seguinte, tudo parecia um tanto bagunçado. Dei um jeito de sem querer acordar o Joarez e fui ver o que os canonzistas faziam. Abri a porta do apartamento deles, que não estava trancada, e me deparei com uma cena que mais parecia uma feira de troca troca ou um bazar de antiguidades tamanha era a quantidade de coisas espalhadas no chão e sobre as três camas não ocupadas. Como ainda dormiam, deixei-os em paz.

Demorou um tempo para ressuscitarem... mas logo n√≥s quatro est√°vamos conversando animadamente e pensando em como preencher a noite que come√ßava. Rui sugeriu um restaurante por perto, mas alertou que n√£o serviam cerveja. N√£o, este n√£o presta, concordamos. N√£o quer√≠amos encher a pan√ßa, o almo√ßo ainda nos sustentava bem. Petiscar e tomar umas cervas era a ideia. Desta forma, ficamos na pousada mesmo, vendo as fotos recentes no laptop do Joarez, jogando conversa fora e postando algumas imagens no Facebook. Como petiscos para acompanhar gelad√≠ssimas cervejas, Rui providenciou por√ß√Ķes de queijo, de mandioca frita cremosa no miolo e de especial√≠ssima lingui√ßa caseira que s√≥ encontramos em Minas Gerais. Tudo fruto da produ√ß√£o da fazenda de caf√© e gado que o Rui possui.

Dia 12/09/2012 - Quarta Feira

Dia seguinte, ainda com a sensa√ß√£o de que minha bagagem continuava uma bagun√ßa generalizada, arrumamos o material de acampamento, roupas que n√£o mais usar√≠amos e demais tralhas sem uso previsto e as enviamos pelo correio. A bagagem in√ļtil do Joarez era tamanha que ele pagou de tarifa postal o dobro do que cada um de n√≥s pagou. Gastei R$50,00 para enviar a sacola que ficava no lugar da garupa na minha moto. Com isso, aliviamos em pelo menos 20kg o peso da bagagem das motos.

Contas acertadas com o Rui ¬Ė R$40,00 por di√°ria de apartamento, mais uma di√°ria coletiva para a guarda das nossas coisas e motos na noite da escalada, servi√ßo dos jipes e mais sei l√° quanto de refei√ß√£o, petiscos e cervejas. Ah, e alguma mixaria de √°gua e refrigerante, veneno que o Alexxandre toma no lugar de cervas e que o PW tamb√©m se arrisca a beber vez por outra. Acho que deu um total de R$500,00.

Saindo de Alto Caparaó, rumando para a estrada mais ou menos as 11 horas da manhã, paramos numa loja para compra de lembranças. Com objetividade, compramos o que nos interessava, pagamos e, quando já estávamos indo para as motocicletas, PW resolveu também fazer compras, porém, indeciso, resolveu pegar o telefone e consultar MW, sua saudosa esposa. Todos com calor e ansiosos para pegar estrada. Alexx e Joarez foram esperar num posto mais à frente. Fiquei na moto, aguardando meu amigo e nada. Desliguei o motor, tirei o capacete, desci da moto, voltei à loja, olhei prateleiras e nada. PW continuava ao telefone... Tirei a jaqueta, tomei café num boteco vizinho, acendi um cigarro e nada. Eita comprinha complicada da peste! Acho que o PW nem notou que estávamos exasperados.

Quando se viaja em grupo √© fundamental que fa√ßamos uma boa combina√ß√£o de roteiros, dist√Ęncia entre paradas, velocidade padr√£o, lugares a serem visitados, faixa de custo em hot√©is e pousadas, etc. Feito isso, durante o trajeto temos que respeitar os limites e os h√°bitos de cada parceiro de estrada. Todos n√≥s temos nossas idiossincrasias, manias e costumes. Para um grupo de amigos fazer uma viagem unidos e ao fim, retornarem ainda mais amigos, √© preciso ceder, compreender e respeitar a individualidade e as vontades moment√Ęneas. De outra forma, ao fim a viagem, em vez de amigos teremos inimigos. N√£o saberia dizer qual mania ou costume meu pode ter se destacado nesta viagem. Deve haver muita coisa... sou grato por me suportarem!

(Texto do Alexxandre)
¬ďAqui eu posso descrever que a √ļnica mania do Luiz que pude perceber durante toda a viagem √© que ele sempre, sempre mesmo, repete a mesma piada quando chega em um posto de gasolina para abastecer. A piada n√£o tem gra√ßa, mas se torna engra√ßada depois de voc√™ ouvi-la seis, sete, doze vezes, em alguns dias seguidos. Ele chega e primeiramente pergunta ao frentista se a gasolina √© crist√£ ou pag√£. Muitos frentistas n√£o entendiam de imediato a mal√≠cia incuta na pergunta. Da√≠, ao se dar conta do ¬ďbatismo¬Ē, com um tom meio desajeitado, o frentista jurava de p√©s juntos que ali era tudo de confian√ßa. Ainda n√£o satisfeito, ap√≥s iniciar o abastecimento, o frentista era coagido com a seguinte advert√™ncia: ¬ďSe derramar um pinguinho que seja no tanque, eu n√£o pago a gasolina. T√° avisado. Porque uma vez derramaram....¬Ē e a√≠ ele repetia de novo a hist√≥ria da sua antiga Shadow que havia sido brindada com um banho de gasolina e bl√° bl√° bl√°. O engra√ßado da hist√≥ria era que o pobre do frentista ficava nervoso, tenso, com o gatilho da bomba de abastecimento tremendo e com todo aquele cuidado de n√£o deixar nem uma gotinha espirrar na pintura do tanque. Tenho que concordar que o m√©todo funciona. Mas n√£o precisava tanto. Afinal de contas, nossos tanques de combust√≠vel estavam protegidos com pl√°stico do tipo Contact para evitar os arranh√Ķes que poderiam ser causados pela mala de tanque que tem sua fixa√ß√£o atrav√©s de magnetos que ficam em contato com o metal do tanque. Se espirrase gasolina, era s√≥ passar um peda√ßo de estopa no pl√°stico e ficava tudo novo de novo!¬Ē

Refizemos o caminho de volta √† BR 262, rodando por cerca de 50km e passando novamente por aquelas mesmas irritantes lombadas em sequ√™ncia. Na BR, seguimos em dire√ß√£o ao leste, rumo a Vit√≥ria. Bela estrada com tr√°fego moderado (pelo menos em rela√ß√£o √† Rio-Bahia), boas curvas e abundante mata atl√Ęntica nas margens. Fomos apreciando a estrada por 126km at√© que chegamos a Pedra Azul, distrito long√≠nquo de Domingos Martins, ES, cuja sede fica a mais de 50km de dist√Ęncia.

Distrito de Pedra Azul do Aracê, a 1100m de altitude, tem 8 200 habitantes, muitos descendentes de alemães, italianos e pomeranos. Conta-se que o clima da região foi considerado pela ONU o terceiro melhor do mundo, - por favor, não me perguntem o critério - chegando aos 30 graus durante o dia e a abaixo de 10 graus à noite. Percebi na população local um certo desejo de emancipação política em relação ao município de Domingos Martins.

Paramos em um posto bacana e, enquanto solicit√°vamos informa√ß√Ķes sobre pousadas na regi√£o, percebemos que est√°vamos no posto em que havia uma pousada que era exatamente a que foi recomendada pelo m@diano Davi. Posto Petras e Estalagem Petras, nome este porque suas paredes eram todas de pedra. PW foi examinar as instala√ß√Ķes e voltou dizendo que havia bom e espa√ßoso apartamento com quatro camas. -Isso j√° n√£o √© apartamento, com quatro camas est√° mais para alojamento, disse eu, concordando em ficar ali mesmo, enquanto terminava de abastecer a moto. O consumo registrado dessa vez foi de 23,4km/litro.

N√£o havia caf√© da manh√£, mas havia a loja de conveni√™ncia que abria as cinco horas da manh√£. N√£o havia garagem fechada para as motos, mas elas ficariam bem estacionadas e bem perto das nossas acomoda√ß√Ķes e, al√©m disso, haveria vigia noturno, quando o posto encerrasse as atividades a partir nas nove da noite. O custo era de 35 contos por pessoa. T√° b√£o dimais, uai!

Deixei no apartamento, digo, alojamento apenas a jaqueta, luvas e o bauleto da moto. Como j√° passava das duas da tarde, fomos em busca de um local para almo√ßar. Encontramos, tr√™s km √† frente, o restaurante Peterle¬ís, onde fizemos uma √≥tima refei√ß√£o, ao custo de 17 reais por pessoa ¬Ė sobremesa inclu√≠da, cujo buf√™ livre, oferecia tanto pratos da cozinha capixaba quanto da cozinha mineira. N√£o posso deixar de lembrar que era oferecido aos clientes uma cachacinha especial para abrir o apetite e um saboroso licor de morango como digestivo.

(Texto do Alexxandre)
¬ďAssim como o gostoso refrigerante de Guaran√° COROA, comercializado, aparentemente, somentena regi√£o do Esp√≠rito Santo. Uma del√≠cia.¬Ē

Fomos fazer a digest√£o passeando na Rota do Lagarto, tamb√©m recomenda√ß√£o do Davi. Beleza de passeio! S√£o sete quil√īmetros de estradinha, parte de paralelep√≠pedo, parte de lajotas de concreto e parte de asfalto, cheia de curvas e paisagens deslumbrantes. Paramos a todo momento para fotografar. A estrada contorna a regi√£o ao largo da Pedra Azul, forma√ß√£o rochosa de granito e gnaisse, cujo cume alcan√ßa 1822m de altitude. A pedra Azul tamb√©m √© conhecida como Pedra do Lagarto em raz√£o de uma sali√™ncia em sua encosta que lembra um calango. A estrada segue, sempre dominada pela Pedra, passando sinuosamente por fazendas, pastos, casas de campo, pousadas, haras e condom√≠nios. Tudo isso ladeado por exuberante vegeta√ß√£o e pinheirais.

(Texto do Alexxandre)
¬ďAs casas, em sua maioria, apresentam arquitetura europeia, com gramados e jardins bem cuidados e ornamentados. Inclusive com telhados ora ostentado gramados suspensos, ora sendo o pr√≥prio gramado no papel de telhado. Os funcion√°rios da regi√£o t√™m todos aspecto f√≠sico de descendentes de europeus, olhos claros, cabelos claros e pele clara. A sensa√ß√£o √© de que n√£o se est√° no Brasil. O clima, bastante ameno, ajudava a coroar a tarde de belas fotografias e agrad√°vel passeio. Est√°vamos fazendo Turismo de verdade.¬Ē

A Pedra Azul, tem essa denominação devido ao fato, de que dependendo da incidência da luz solar, pode mudar de cor, ficando por não raras vezes de cor azul ou esverdeada e até mesmo com tons amarelos. Entretanto, a maior parte do tempo fica num tom azul/acinzentado. Há quem diga que a pedra chega a mudar de cor 36 vezes por dia! Preciso voltar lá para conferir isso fotograficamente...

(Texto do Alexandre)
¬ďAproveitamos para um andar na moto do outro e experimentar as diferen√ßas entre as motos. Al√©m disso, a estradinha nos favorecia um cen√°rio ideal para fotografarmos as m√°quinas em movimento, com folhas ca√≠das √† beira da estrada e os raios do sol por entre os galhos nos servindo de alegorias. Havia imensos pinheiros que ladeavam a estrada e serviram de moldura para fotos de m√°quina e piloto. Oh, tarde bonita.¬Ē

Passeamos e fotografamos fartamente a Rota do Lagarto at√© escurecer. Retornamos √† estalagem, cuidamos das arruma√ß√Ķes gerais e fomos para o caramanch√£o ao lado da loja de conveni√™ncia do posto tomar cerveja com petiscos, j√° que n√£o somos de ferro. Alexxandre ainda insistia em tomar apenas o veneno, refrigerante. Um dos petiscos foi novidade para mim; torradas crocantes feitas de p√£o de queijo. PW providenciou charutos e pronto, est√°vamos todos felizes da vida, curtindo um friozinho gostoso e conversando sobre filosofia, hist√≥ria da humanidade e demais assuntos correlatos. Quando soubemos que aquela mordomia tinha hora para acabar, j√° que a loja fecharia √°s nove horas, solicitamos provid√™ncias para que um balde grande repleto de latinhas de cerveja e coberto com farto gelo nos fosse disponibilizado. Assim foi feito. Um ¬ďsimp√°tico¬Ē funcion√°rio da loja prontamente nos atendeu e continuamos nossos col√≥quios eruditos at√© a √ļltima lata.

Já deitado, Joarez, com os pés esfolados das caminhadas na Chapada Diamantina somadas com as do Pico da Bandeira, mereceu o seguinte comentário do PW: -Joarez, essa quantidade toda de esparadrapos e demais curativos que tu está usando mereceria uma lixeira especial para lixo hospitalar!

Dia 13/09/2012 ¬Ė Quinta Feira

Cedinho montamos nas motos e fomos tomar café da manhã numa padaria próxima. Café, leite e pão com manteiga para mim está de bom tamanho. Mas o povo tem que ficar pedindo bolinho disso e daquilo, presuntinho light, biscoitinho e mais e mais comidinhas que perdi a paciência e fui fotografar a passarada que comia xerém na frente da padaria enquanto os amigos se alimentavam.

Refizemos o passeio pelo Rota do Lagarto, dessa vez com o sol em posi√ß√£o diferente e aproveitando a bruma matinal. No caminho de volta entramos no Haras Fjord, onde se cria cavalos da ra√ßa de mesmo nome, √ļnico haras da ra√ßa no Brasil, e se toma caf√©s especiais. Um gramado substitui as telhas em todas edifica√ß√Ķes do lugar ¬Ė muito bacana. Enquanto Joarez foi cavalgar pelas trilhas locais, Wagner, respons√°vel pelo sal√£o de caf√©, tendo apenas n√≥s como clientes, nos deu uma soberba aula sobre caf√©, seu cultivo e preparo. Tomei ali o melhor capuccino que j√° experimentei na vida. O Haras Fjord, segundo Wagner, pertence a uma princesa da Noruega, irm√£ do rei daquele pa√≠s.

Concluído o passeio, arrumamos as tralhas nas motocicletas, acertamos contas e partimos rumo a Vila Velha, de onde já havia recebido telefonema do Brazil Riders Rui, informando que outro motociclista Brazil Riders estaria nos aguardando no posto da PRF na entrada da cidade por voltas das duas horas da tarde.

A estrada prosseguia uma beleza, mas com muitos treminh√Ķes e muitas curvas perigosas. Entrei √† direita em um lugar chamado Vista Linda, onde eu havia estado em 1988. Fazia calor e os amigos ficaram em volta das motos, sob a sombra de algumas √°rvores, meio amuados, aguardando que eu retornasse depois de fotografar o que eu queria. Imaginei, equivocadamente, que eles gostariam de conhecer e fotografar o lugar, pois de certas posi√ß√Ķes, al√©m de ampla vis√£o da estrada cortando a serra, pode-se ver o mar. Sem mais demora retornei ao grupo e, entre enormes caminh√Ķes exalando forte cheiro de freios queimados e dif√≠ceis ultrapassagens, descemos a serra no trecho da BR 262 conhecido como estrada da morte.

(Texto do Alexxandre)
¬ďO calor j√° estava ficando insuport√°vel, nos obrigando a abrir um pouco o z√≠per da jaqueta e um dedinho da viseira do capacete.¬Ē

√Ä sombra de uma mangueira em frente ao posto da Pol√≠cia Rodovi√°ria Federal, aguardamos por pouco tempo a chegada do ¬ďBarney¬Ē, que foi nos buscar, juntamente com sua mulher, Ros√Ęngela, e nos conduziu em seguran√ßa, por√©m debaixo de um calor de mais de 39 graus, at√© o Hotel Champagnard, pertencente tamb√©m a um motociclista Brazil Riders. O Geraldo. Antes de chegar ao hotel ainda tentamos providenciar a troca de √≥leo das motos, por√©m na oficina que o Barney nos levou n√£o foi poss√≠vel sermos atendidos.

A propósito, saímos do tradicionalmente quente Ceará e fomos para a Região Sudeste em pleno inverno para pegar um calor bem maior do que o que faz em Fortaleza? Pedimos cervejas logo na recepção do hotel! Nos instalamos bem, em apartamentos duplos. Dessa vez nikonzeiros misturados com canonzeiros.

Convers√°vamos com o Geraldo, dono do hotel, quando pedi licen√ßa para atenter uma liga√ß√£o telefonica de Fortaleza, do Nestor, meu irm√£o. Quando conclui o telefonema e retornei ao local do bate-papo, n√£o havia mais ningu√©m. PW contou-me que Geraldo levou Joarez e Alexx para trocar o √≥leo das motos numa revenda Suzuki. Era para eu ter ido junto... a GS800 n√£o precisava trocar √≥leo. Mais tarde soube, ali√°s, que fui o corno da est√≥ria, o √ļltimo a saber, que Alexx e Joarez haviam combinado, na calada de uma noite qualquer, que antecipariam o retorno e sairiam para Fortaleza na madrugada seguinte. Tra√≠ras! A atenuante √© que ambos t√™m crian√ßa pequena em casa, Lel√™ e Janj√£o.

PW e eu aproveitamos o resto de dia para conhecermos o Convento da Penha, que dava para ver do hotel e parecia não ser longe. Seguindo uma lógica... erramos o caminho... Mas fomos perguntando e logo estávamos numa acentuada subida de calçamento cheia de curvas, a caminho do Convento, de cuja localização se vê toda Vila Velha e Vitória, ligadas por uma grande e bonita ponte. As portas do interior do Convento fechavam-se às cinco da tarde. Era dez para as cinco quando chegamos e as encontramos fechadas. Curiosa a mão determinadas aos pedestres nas escadarias. Ora é para subir pela esquerda ( e reclamei de umas mulheres, acho que freiras, que desciam pela esquerda), ora é para subir pela direita...

O tempo virou no final da tarde. Do calorzão de rachar começou um brisa fresca e virou quase um vendaval. Do alto do convento vimos urubus voarem brincando de imitar andorinhas. Palmeiras se vergavam com a força da ventania. Tivemos que nos segurar nas amuradas para não sermos empurrados pelo vento. Ventania bonita!


Será que nossas motos ainda estão em pé? Perguntei ao PW quando começamos a descer. -Arre égua Luiz, isso é pergunta que se faça?, foi a resposta do PW. Felizmente nossas motos estavam bem estacionadas e resistiram bem. Soube depois que o vento chegou a 85km/h e que por pouco a ponte não foi interditada. Na volta ao hotel, seguindo a lógica de que se pegarmos à esquerda e depois novamente à esquerda retornaremos ao o lugar de onde viemos, nos perdemos e, totalmente desorientados, recorremos a perguntar aos pedestres sobre como chegar à Avenida Champagnard, onde fica o hotel. O problema, a desorientação, foi que a avenida muda de nome...

No hotel, recebemos a visita do Romildo, Conselheiro do Brazil Riders no Esp√≠rito Santo. Tivemos uma √≥tima conversa e ele nos recomendou dormirmos em Pedro Can√°rio, ao inv√©s de S√£o Mateus, como planejado. √Č que em Pedro Can√°rio haveria um Encontro de Motociclistas organizado pelo Buru, Master BR.

Contraditoriamente Rui e amigos nos levaram ao restaurante Recanto Baiano para jantarmos uma Moqueca Capixaba... deliciosa, mas peixe e camarão ao molho de tomate e colorau, apenas (risos). Depois do jantar, os traíras, digo, os dissidentes, foram para o hotel e eu e PW acompanhamos o Rui no encontro semanal de motociclistas que ele frequenta. Conversamos muito, conhecemos novas pessoas, por fim, uma boa noitada.

Dia 14/09/2012 ¬Ė Sexta Feira

Tomei caf√© da manh√£ cedo e cuidei de, sozinho na cidade, descobrir um local confi√°vel para trocar o √≥leo da minha moto. Uma coisa chata √© viajar com motocicleta que pede troca de √≥leo a cada tr√™s mil quil√īmetros... Encontrei um lugar para fazer a troca, e em frente, uma loja que vendia √≥leo Motul. Se poss√≠vel, evito trocar o filtro do √≥leo em viagem que necessite apenas de uma troca do √≥leo. O problema era que o mec√Ęnico, ex-caminhoneiro, conhecedor das estradas desse vasto Brasil, n√£o parava de falar, de contar sobre suas viagens e perip√©cias de norte a sul pelo pa√≠s, e esquecia de fazer o servi√ßo. Tive que me afastar, tomar um cafezinho, para ver se ele concluia o trabalho. Depois fiquei com uma pulga atr√°s da orelha; ser√° que ele trocou mesmo o √≥leo... No hotel fui conferir a janelinha de verifica√ß√£o de n√≠vel de √≥leo e ela mostrava √≥leo no n√≠vel correto e com colora√ß√£o de √≥leo novo.

Sem pressa, pois não seria dia de grande pernada, eu e PW arrumamos as bagagens nas motos, lubrificamos corrente, acertamos contas e fomos, antes de pegar estrada, passear nas orlas de praia de Vila Velha e Vitória. Abastecemos as motos e calibramos pneus no porto vizinho ao hotel. O consumo da DL foi de 20,7km/litro.

N√£o vimos muita coisa. Cidade grande √© tudo parecido e tem o tr√Ęnsito intenso de sempre. Foi muito bom atravessar a Terceira Ponte, como √© conhecida a Ponte Darcy Castello de Mendon√ßa, que liga Vila Velha a Vit√≥ria. Mesmo com o tr√°fego estressado, PW filmou tudo e passeamos com certa tranquilidade durante seus 3,3km de extens√£o. O v√£o principal tem 70m de altura e 260m de um pilar ao outro, permitindo assim o acesso de navios de grande porte √† Ba√≠a de Vit√≥ria. √Č pedagiada e motocicletas pagam ped√°gio de R$0,90 na pra√ßa de cobran√ßa, ao chegar em Vit√≥ria.

Com as instru√ß√Ķes b√°sicas para sairmos de Vit√≥ria, fornecidas pelo Rui, memorizadas, passeamos pela orla mar√≠tima, fizemos algumas fotos e seguimos atentamente as placas que informavam BR 101 norte. Sem nenhum atropelo ou dificuldade, saimos da cidade. O tempo estava nublado e amea√ßava chover.

Paramos para um lanche num lugar chamado Parada Ibira√ßu ¬Ė Um O√°sis na BR 101, que consiste numa loja de tudo que se pode imaginar, restaurante, lanchonete e tudo mais. Um lugar bacana onde comemos um bom pastel com caldo de cana. S√≥ n√£o comprei um canh√£o colonial de ferro fundido por conta do pouco espa√ßo na moto. Como j√° hav√≠amos sido respingados por chuva, aproveitamos para cobrir as malas de tanque, protegendo o equipamento fotogr√°fico.

Foi nas proximidades desta Parada Ibiraçu que cruzamos e cumprimentamos um motociclista solitário pilotanto uma V-Strom 650 azul, com malas laterais, que supomos ser o mesmo que dias antes encontramos na BR 116.

A chuva nos encontrou mais √† frente, no entanto, logo nos deixou em paz e pilotamos no asfalto seco o resto do dia. Belo trecho este da BR 101. Asfalto bom, muitos eucaliptos, mata atl√Ęntica e cria√ß√£o de gado. O tr√°fego de caminh√Ķes era moderado e pudemos curtir a paisagem sem grandes preocupa√ß√Ķes. Em S√£o Mateus fizemos um parada para descanso e abastecimento. O consumo da minha moto foi de 22,4km/litro.

Ao chegarmos a Pedro Can√°rio, quase divisa entre ES e BA, paramos para um caf√© em um posto e logo Marcos Buru nos encontrou. Conversamos um pouco, visitamos o clube ,local da festa que haveria √† noite, e fomos levados ao hotel Apides Palace, muito bacana, possuindo sal√£o de conven√ß√£o, amplo refeit√≥rio, piscina e demais instala√ß√Ķes adequadas a eventos empresariais. O dono do hotel, tamb√©m motociclista, nos recebeu com muita aten√ß√£o e ficamos bem instalados em apartamento duplo ao custo de R$120,00.

Recebemos ligação dos dois amigos que partiram as quatro da madrugada de Vila Velha. Haviam chegado a Serrinha, 80km além de Feira de Santana. Quase 1200km rodados em um dia. Uma jornada e tanto!

No Evento fomos muito bem recebidos pelo pessoal local e Buru, que mesmo cuidando de tudo, se desdobrava para atender bem a n√≥s e a todos. Atrav√©s de um painel, pintado numa parede, alusivo a uma Academia de Karat√™, ficamos sabendo que Buru, dono da academia, era faixa preta 3¬ļ dan, e o cumprimentamos com o tradicional ¬ďOsss¬Ē usado pelos karatecas. Com muita honra, recebemos trof√©us de presen√ßa na festa. Ouvimos rock e bons blues. Nos acomodamos numa mesa mais afastada para possibilitar conversas, ficou conosco o dono do hotel e seu simp√°tico pai, um jovem de 77 anos, que chegou na garupa da moto do filho. √ďtimas conversas. Havia combinado com o PW que voltar√≠amos ao hotel para descansar por volta da dez horas. Qual o qu√™, estava tudo t√£o bacana que s√≥ fomos dormir l√° pela meia noite.

Dia 15/09/2012 - S√°bado

Come√ßamos a jornada seguinte com um pequeno desencontro. Eu, j√° com jaqueta fechada e moto ligada aguardei PW fazer os pequenos ajustes de sempre na sua bagagem. Como o calor come√ßava a se fazer presente, sa√≠ um pouco antes dele. Hav√≠amos combinado de parar em um posto onde existe um grande painel de dist√Ęncias da BR 101. Fui devagar na estrada e nada do PW aparecer. Cheguei ao posto uns tr√™s quil√īmetros √† frente e nada. Resolvi voltar ao hotel. Sabe l√° se a moto dele deu problema? Pensei. Quando de volta a Pedro Can√°rio, j√° entrando na rua do hotel, meu telefone tocou. Era PW, que havia pego estrada na dire√ß√£o oposta pensando que o tal posto ficaria para tr√°s. Ainda bem que ele telefonou, pois de outra forma poderia ter havido desencontro de verdade.

Rodamos sob chuva boa parte da manh√£. A maior dificuldade foram as ultrapassagens √†s carretas; a estrada acumulava √°gua e o spray formado por 12, 16 ou mais pneus n√£o nos permitia ver o que vinha em sentido contr√°rio. √Č preciso calma e prud√™ncia nestas horas. Sob chuva deveria ser obrigat√≥rio o uso de far√≥is acessos... e mesmo que assim fosse, quem confiaria? Cumprimentamos muitos motociclistas que, rodando em sentido contr√°rio ao nosso, dirigiam-se para a festa em Pedro Can√°rio.

Em um determinado momento entre Teixeira de Freitas e Itamaraju, ainda com alguma chuva e asfalto molhado, ao entrarmos no espa√ßo entre caminh√Ķes durante uma ultrapassagem, encontramos um motociclista pilotando uma Tornado vermelha. O camarada ao nos ver tentando voltar para nosso lado da pista n√£o abriu espa√ßo. Tudo bem, encontramos nosso lugar em seguran√ßa mesmo assim. O cara fazia que ia ultrapassar e n√£o se decidia. Depois de um tempo nos atrapalhando, dei-lhe um chega pra l√°, torci o punho direito e fiz minha ultrapassagem, indo embora com PW acompanhando a tocada. Passado algum tempo e muitos quil√īmetros vejo a Tornadinha e seu piloto de sacos pl√°sticos nos p√©s no meu retrovisor. N√£o vou andar perto desse cara, pensei dentro do capacete ao mesmo tempo que torcia um pouco mais o punho. Olhei o retrovisor e vi o cabra na frente do PW e na minha cola. Torci o punho com mais gosto fazendo o veloc√≠metro marcar 140 km/h e comecei a entrar forte nas curvas. E como a Struminha √© boa de curvas! A tornadinha se afastava mas n√£o sa√≠a do retrovisor. Fiz mais algumas curvas deliciosamente fortes e a tornardinha n√£o sumia. Antes que o cabra da moto vermelha se matasse tentando me acompanhar reduzi a velocidade para que esse maluco - ou ex√≠mio piloto - seguisse seu rumo longe de n√≥s. Pouco mais √† frente o cabra saiu da estrada, pegando outro rumo, nas proximidades de Itamaraju.

Em Itamaraju abastecemos as motos (20,7km/litro) e tiramos as sobreluvas de borracha verde ¬Ė rid√≠culas, por√©m √ļteis - que colocamos quando come√ßou a chover. N√£o seria mais necess√°rias, o c√©u havia limpado.

Est√°vamos na regi√£o cacaueira. Como a cultura do cacau necessita de sombreamento, a Mata Atl√Ęntica da regi√£o √© muito bem preservada. Uma beleza pilotar entre os t√ļneis verdes formados pela exuberante vegeta√ß√£o nativa. O que √© de se lamentar √© a franca decad√™ncia das fazendas de cacau que avistamos da estrada. Tudo por conta da criminosa implanta√ß√£o da ¬ďvassoura de Bruxa¬Ē, uma doen√ßa que ataca os p√©s de cacau.

At√© meados da d√©cada de 20, o Brasil era o maior produtor de cacau do mundo. No final dos anos 80, ainda ocupava o segundo lugar, perdendo apenas para a Costa do Marfim, na √Āfrica. Hoje, o Brasil contribui apenas com 4% da produ√ß√£o mundial, ficando em quinto lugar em produ√ß√£o e em consumo.

Causada pelo fungo Moniliophtera Perniciosa, a vassoura-de-bruxa tem esse nome porque deixa os ramos do cacaueiro secos como uma vassoura velha. A doença foi descoberta em 1895, no Suriname, e já tinha demonstrado o seu poder devastador ao atingir, em 1920, as lavouras de cacau do Equador.

Quando chegou √† Bahia, em 1989, provavelmente vinda da regi√£o Amaz√īnica, a praga foi o fim para os produtores baianos, que enfrentavam ainda uma crise com a imensa queda do pre√ßo do cacau no mercado internacional. S√≥ para se ter uma ideia dos estragos, a produ√ß√£o, que foi de 390 mil toneladas em 1988, caiu para 123 mil em 2000.

O od√īmetro marcava 236km quando, ainda na regi√£o cacaueira, paramos em Camac√£, para abastecimento e lanche. A fome me fez pedir um horr√≠vel pastel de carne, molenga e oleoso. Para rebater, pedi a √ļnica coca-cola que bebi em toda viagem ¬Ė prefiro beber l√≠quidos cuja receita eu tenha no√ß√£o, cerveja, por exemplo. Deixei a coca pelo meio e terminei de me saciar com sorvete. Eita lugarzinho ruim de parar. Muita gente barulhenta e p√©ssimo atendimento. Ainda bem o pastel n√£o me fez mal. Enchemos os tanques das motocicletas meio desconfiados. 18,7km/litro foi o consumo da DL.

Fizemos uma r√°pida parada na barulhenta, fumacenta e movimentada Eun√°polis, cidade onde h√° o entroncamento rodovi√°rio para Porto Seguro e demais cidades da Costa do Descobrimento. Havia caminh√Ķes e √īnibus por todo canto. Todo mundo ali parece estressado, nem parece que √© Bahia. Bebemos √°gua rapidamente e fomos embora daquele inferno. Retornei √† estrada depois de rodar um pouco por via secund√°ria paralela. Assim que entrei na pista havia um fotosensor sem a respectiva placa de velocidade permitida. Como estava em velocidade abaixo do 60km/h, n√£o me incomodei.

Continuamos vendo ru√≠nas de fazendas e mata exuberante. Com quase 300km no od√īmetro e por volta da quatro horas da tarde, paramos para descanso a abastecimento em Lage, proximidades de Santo Ant√īnio de Jesus. O consumo de gasolina da V-Strom foi de 20,8km/litro. Acho que essa varia√ß√£o de consumo, al√©m da forma de pilotar entre um e outro abastecimento, tamb√©m deve-se √† diferen√ßa do n√≠vel do tanque na hora de encher. Lembrando que sempre digo ao frentista que n√£o pagarei a conta em caso de derramamento de gasolina. Alguns s√£o mais inseguros e a estes eu n√£o insistia que a gasolina chegasse muito perto do bocal. No posto havia movimenta√ß√£o de carros de candidatos (elei√ß√Ķes municipais) que faziam muito barulho ¬Ė n√£o sei se discutiam ou trocavam amabilidades. Neste local, buscando informa√ß√Ķes sobre a chegada em Feira de Santana, fomos alertados para n√£o entrar na cidade logo no primeiro acesso. Na sa√≠da ouvi uns gritos que pensei vir dos pol√≠ticos. Depois PW me falou que eram cumprimentos de uma turma de motociclistas com Varadero e Super T√®n√®r√® num boteco na beirada da estrada.

O sol já havia se escondido quando vi uma pequena placa à direita indicando Feira de Santana. Como havia luzes de cidade à frente, imaginei que aquela entrada fosse a tal primeira entrada, que deveríamos evitar, segundo recomendação obtida no posto. Portanto, seguimos em frente.

A prop√≥sito, para BR 101 vale o mesmo coment√°rio que fiz sobre a BR 116 em rela√ß√£o √† placas informativas, muito prec√°rias. E em solo baiano, h√° placas para todas cidades tur√≠sticas litor√Ęneas. Para Feira de Santana, segunda maior cidade do estado, nenhuma informa√ß√£o. A n√£o ser a pequena placa, quase, eu diria, uma tabuleta, indicativa de cerca de 20X60cm que vimos.

Esperei por um grande entrocamento bem sinalizado, um viaduto com al√ßas ao cruzar a BR 324, rodovia pedagiada que liga Feira a Salvador, e nada. Como o c√©u j√° escuro continuava a refletir luzes de uma cidade adiante, continuei esperando a qualquer momento chegar a Feira. E nada... Examinava o od√īmetro da moto e estranhava que j√° tivesse rodado tantos quil√īmetros a mais do que o esperado para adentrar Feira de Santana.

Depois de algum tempo, depois de quase atropelar um cachorro manco e preto que atravessava a estrada na escuridão, resolvi parar em um posto para perguntar. -De onde vocês estão vindo? Perguntou-me o camarada do posto. -De Cruz das Almas, respondi para resumir. - Então Feira de Santana está 80km para trás.

Kilparyl! Rodamos 80 quil√īmetros √† noite para nada! Fiquei muito ¬ďp¬Ē da vida comigo mesmo. Como deixei o od√īmetro passar tanto? Como n√£o vi os viadutos e al√ßas? Por que n√£o parei para perguntar antes?

PW falou que tamb√©m viu a pequena placa indicativa para Feira, achou que era a entrada correta, mas imaginando que eu sabia o que estava fazendo, seguiu-me sem me alertar. √Č aquela tal opini√£o de ¬ďautoridade¬Ē... Quantos avi√Ķes j√° n√£o ca√≠ram porque o copiloto n√£o alertou o comandante sobre alguma anomalia, pensando que este sabia o que estava fazendo?

Era perto de oitos horas da noite. O leite já estava derramado e o jeito era resolvermos o que fazer. Concordamos que não valeria a pena voltar naquela hora para Feira de Santana. Como estávamos perto de Alagoinhas, resolvemos pernoitar naquela cidade. Antes vi um placa de pousada na estrada, mas ao observar o bar que ficava junto, desistimos. Ambiente barra pesada. Entramos em Alagoinhas e paramos na primeira pousada que vimos. Só havia uma moça atendendo, mas as motos ficariam em local fechado. PW verificou o apartamento e aprovou. Deixando as luvas com a moça para garantir nossa vaga, fomos em busca de comer alguma coisa. A fome era grande.

Por tentativas, informa√ß√Ķes desencontradas e contra-m√£os, chegamos ao Boteco do Caranguejo. Tomando umas cervas para relaxar, n√£o encontramos nada no card√°pio que nos agradasse para jantar, o que havia eram petiscos. Pedimos a uma simp√°tica e novata gar√ßonete uma po√ß√£o de fil√©s com fritas e duas po√ß√Ķes de arroz. Constru√≠mos um jantar at√© razo√°vel.

Joarez e Alexx informaram já ter chegado em casa. Eita Lelê e Janjão para apressarem os saudosos pais!

Dia 16/09/2012 - Domingo

O cansaço me fez dormir bem, ignorando os pernilongos. Tendo duas bolachas água e sal e uma xícara de café com leite como refeição matinal, desci para arrumar as coisas na moto e lubrificar corrente. Vi uma mulher levando pães frescos para o café. Agora é tarde, os pães que vi na hora do meu café estavam cheirando a azedo. Que o PW aproveite.

√Č sempre longo o retorno depois de um trecho percorrido equivocadamente. Fica aquela sensa√ß√£o de desperd√≠cio, de inutilidade. No entanto, logo est√°vamos contornando Feira de Santana. Abastecemos as motos (22,2km/litro) e entramos de volta na BR 116 no trecho com asfalto frisado entre as bandas de rodagem. Aceleramos rumo a Euclides da Cunha. Paisagem de deserto novamente. O vento vindo da nossa direita era t√£o forte que ao sair da lateral de um caminh√£o, numa ultrapassagem, sent√≠amos pancadas de vento t√£o fortes que por pouco n√£o desequilibravam as motos.

A cada lugarejo, filas e filas de caminh√Ķes por conta das lombadas e dos fotossensores. Nesses momentos fic√°vamos de p√© sobre as pedaleiras para descansar a bunda.

Paramos no maior posto de Euclides da Cunha, onde havia muita movimenta√ß√£o pol√≠tica. Abastecemos as motos (20,20km/litro) e obtivemos algumas informa√ß√Ķes sobre Canudos. Era logo ali, 60km √† frente. Chegando a Bendeg√≥, entramos √† direita e passamos a rodar numa nov√≠ssima estrada, a BR 235, que rasga esse sert√£o de ningu√©m. Era perto de meio dia e o sol brilhava com intensidade no c√©u nordestino de poucas nuvens.

Rodamos cerca de 10km e entramos √† esquerda, em dire√ß√£o ao Parque Estadual de Canudos ¬Ė Cen√°rio da Guerra. No portal de entrada fomos muito bem recebidos pelos dois vigilantes do lugar. Um deles, o Tudi, recomendou que f√īssemos √† cidade e volt√°ssemos por volta das tr√™s horas da tarde. Tamb√©m recomendou a pousada Por do Sol, de dona Joselina, tia dele. Coincidentemente era mesma pousada recomendada pelo amigo Paulo Guedes, que havia estado em Canudos um ano antes.

Oito quil√īmetros a mais de estrada e entramos na nova Canudos. Entre erros e acertos e muita poeira chegamos na pousada, que n√£o tem placa com o nome e fica num alto, com vista para o a√ßude Cocorob√≥, cujas √°guas abrigam, submersa, a antiga Canudos. Fomos muito bem recebidos pela propriet√°ria, que lembrou do Paulo Guedes e Andr√©ia sua esposa. Nos entregou a chave do port√£o lateral onde ficava nosso apartamento e espa√ßo para guardar as motos, bem diante da nossa porta.

PW, que creio apenas me acompanhava para cumprir o itinerário previamente combinado, chegou à pousada com um renovado brilho nos olhos. Meu amigo estava deveras empolgado com o que viu e tinha ótimas expectativas fotográficas.

Tiramos a bagagem necessária das motos e fomos almoçar na cidade. Ao chegarmos na churrascaria que nos indicaram, um cidadão, já bem adiantado nos incertos caminhos etílicos, vibrou com as nossas motos. E foi aquele desagradável apertar de mãos que não acaba mais, coisa de bêbo chato. Mas era pessoa de bem, conhecido do dono do estabelecimento, e antes de se retirar, avisou que a cerveja que consumíssemos seria por conta dele. Bêbo gente boa, o cabra!

Depois de almo√ßar fomos visitar o Memorial de Ant√īnio Conselheiro. Estava fechado. Descobrimos aonde morava o respons√°vel e saimos em busca dele. O encontramos e ele, por diversas vezes, tentou falar por telefone com o vigia para dar ordem de abrir o memorial para n√≥s. Foram muitas liga√ß√Ķes infrut√≠feras at√© que, depois de meia hora, solicitei que ele nos autorizasse a mandar abrir o lugar. Com o cart√£o do chefe em m√£os retornamos ao Memorial. Foi f√°cil entender porque o telefone n√£o funcionava. O gentil vigia n√£o largava o telefone. Pelo que ouvimos parecia ser coisa de mulher dif√≠cil...

O Memorial de Ant√īnio Conselheiro, administrado pela Universidade Federal da Bahia, √© interessante, est√£o expostos documentos, pe√ßas de vestu√°rio dos militares da √©poca, proj√©teis de canh√Ķes e fuzis, armas brancas, fragmentos diversos, etc. Senti falta de artefatos da guerra, tipo ¬ďmatadeira¬Ē (canh√£o ou metralhadora na linguagem dos jagun√ßos) que tanto horror causou nas hostes conselheiristas, e que, segundo soube encontra-se em Monte Santo, sem os devidos cuidados.

Do Memorial fomos ao cen√°rio da guerra.

Li Os Sert√Ķes, de Euclides da Cunha, quando adolescente. Impressionou-me a terceira parte do livro, A Luta, onde o autor descreve em detalhes minuciosos a crueza dos fatos passados nesta triste p√°gina da nossa hist√≥ria. Euclides da Cunha, relata as quatro expedi√ß√Ķes a Canudos, criando um retrato real da fome, da peste, da mis√©ria, da viol√™ncia e da insanidade da guerra. A Guerra de Canudos foi vencida com canh√Ķes, metralhadoras, fuzis e baionetas, quando poderia ter sido evitada com livros e escolas.

Mário Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura em 2010, autor de A Guerra do Fim do Mundo, novela que narra a Guerra de Canudos, livro que o autor peruano considera sua obra predileta, conta como se sentiu ao chegar no local: "Talvez para mim o dia mais emocionante da minha vida - creio que jamais senti tamanha emoção - foi quando cheguei não a Canudos, porque Canudos jaz hoje no fundo de uma represa, mas ao cenário da grande batalha da guerra, o cerro onde está a cruz que ficava na igreja de Canudos. Alguém a plantou ali, e ainda está cheia de estilhaços de bala. Você não sabe o que significou para mim chegar até lá. Até então, o trabalho de escrever vinha sendo angustiante. Mas daquele momento até terminar o livro, ou seja, mais dois anos, trabalhei com enorme entusiasmo."

A Guerra de Canudos foi o confronto entre o Ex√©rcito Brasileiro e os integrantes de um movimento popular de fundo religioso, liderado por Ant√īnio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897, na ent√£o comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, no nordeste do Brasil.

A regi√£o, historicamente caracterizada por latif√ļndios pouco produtivos, secas c√≠clicas e mis√©ria cr√īnica, passava por uma grave crise econ√īmica e social.

Milhares de sertanejos e ex-escravos partiram para Canudos, cidadela liderada pelo beato peregrino Ant√īnio Conselheiro, unidos na cren√ßa numa salva√ß√£o milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sert√£o dos flagelos do clima e da exclus√£o econ√īmica e social.

Fazendeiros e comerciantes da regi√£o, unindo-se a padres, iniciaram um forte grupo de press√£o junto √† Rep√ļblica rec√©m-instaurada, pedindo que fossem tomadas provid√™ncias contra Ant√īnio Conselheiro e seus seguidores. Criaram-se rumores de que Canudos se armava para atacar cidades vizinhas e partir em dire√ß√£o √† capital para depor o governo republicano e reinstalar a Monarquia.

Apesar de n√£o haver nenhuma prova para estes rumores, o Ex√©rcito foi mandado para Canudos. Tr√™s expedi√ß√Ķes militares contra Canudos sa√≠ram derrotadas, o que apavorou a opini√£o p√ļblica, que acabou exigindo a destrui√ß√£o do arraial, dando legitimidade ao massacre de at√© vinte mil sertanejos. Al√©m disso, estima-se que seis mil militares tenham morrido. A guerra terminou com a destrui√ß√£o total de Canudos, a degola de muitos prisioneiros de guerra, e o inc√™ndio e destrui√ß√£o de todas as casas do arraial. A ordem de n√£o ficar pedra sobre pedra foi cumprida.

Recebidos novamente na portaria do Parque, o solícito vigilante Tudi pegou uma pequena motocicleta e nos conduziu através da aridez do solo aos principais locais de referência do arraial e das batalhas. Nossas motos levantavam poeira nas veredas de barro vermelho que cortava a mata ressecada da áspera caatinga.

Pisar naquele ch√£o, outrora banhado por sangue brasileiro em batalhas fraticidas, me levou a pensar na estupidez daquela guerra. Imaginei o troar dos canh√Ķes, o gemido dos degolados, os gritos de guerra, o sussurro das novenas e c√Ęnticos daquela gente miser√°vel cheia de in√ļtil f√©. N√£o foi sem inc√īmoda emo√ß√£o que caminhei por entre aquelas √°rvores, retorcidas como bra√ßos em s√ļplica aos c√©us, entre pedras que ocultavam ossadas humanas. Ao ver as placas indicativas imaginei em cada uma delas os movimentos das pessoas, o casario de pau a pique, os esconderijos dos jagun√ßos combatentes e a forma√ß√£o de guerra dos militares. √Č um passeio triste para quem conhece um pouco daquela hist√≥ria.

Escreve Euclides da Cunha:

N√£o havia errar o alvo desmedido. Viram-se os efeitos das primeiras balas em v√°rios pontos; explodindo dentro dos casebres e estra√ßoando-os, e enterroando-os; atirando pelos ares tetos de argilas e vigamentos em estilhas; pulverizando as paredes de adobes; ateando os primeiros inc√™ndios... Em breve sobre a casaria fulminada se enovelou e se adensou,compacta, uma nuvem de poeira e de fumo, cobrindo-a. N√£o a divisou mais o resto dos combatentes. O troar solene da artilharia estrugia os ares; reboava longamente por todo o √Ęmbito daqueles ermos, na asson√Ęncia ensurdecedora dos ecos reflu√≠dos das montanhas...

Fotografamos bastante o lugar. Com o baixo n√≠vel de √°gua do Cocorob√≥, era poss√≠vel ver o arco da torre da igreja matriz da cidade submersa. Com o sol a se aproximar do horizonte os tons ficaram ainda mais fortes. Registramos a cores, as silhuetas e as sombras at√© o sol desaparecer levando consigo seu pincel de luz multicolorida.¬ďN√£o h√° manh√£s que se comparem √†s de Canudos; nem as manh√£s sul-mineiras nem as manh√£s douradas do planalto central se equiparam √†s que aqui se expandem num firmamento pur√≠ssimo, com irradia√ß√Ķes fant√°sticas de apoteose...¬Ē Assim Euclides da Cunha descreveu o amanhecer local em 1897. Em 2012 eu digo que Euclides descreveria o entardecer em Canudos de modo parecido.

Era noite criada quando retornamos √† cidade. Esperei encontrar uma Canudos parada no tempo. Enganei-me. A Nova Canudos √© como toda e qualquer cidade pequena do interior, barulhenta, com muitas pequenas motocicletas circulando, as mo√ßas vestindo roupas ousadas tal com se v√™ na televis√£o, bares e pizzarias nas esquinas e, nessa √©poca de elei√ß√£o municipal, ruidosos carros e caminh√Ķes de som. N√£o percebi uma identidade local, apenas um discreto orgulho do tr√°gico passado. Acho que a Guerra deixou poucos sobreviventes...

Retiro-me mentalmente do cen√°rio da guerra com esta reflex√£o de Vargas Llosa: "Gra√ßas √† prega√ß√£o do Conselheiro, (os sertanejos) come√ßaram a sentir-se orgulhosos de sua maneira de ser. O que eles defendiam era algo que podiam entender. A rep√ļblica eles n√£o podiam entender. Como lhes seria poss√≠vel compreender essas abstra√ß√Ķes positivistas? J√° a f√©, essa f√© fan√°tica que lhes haviam inculcado havia s√©culos, isso entendiam perfeitamente bem."

Observando o movimento da cidade, tomamos cervejas e comemos uma pizza na rua principal. Um caminhão cheio de eleitores pululantes passava em buzinaço a todo momento. Incomodava um pouco. Incomodou muito foi uma confusão por perto que gerou três tiros de revólver. Pagamos a conta e fomos descansar.

Dia 17/09/2012 ¬Ė Segunda Feira

Tomamos talvez o mais saboroso, farto e diversificado café da manhã da viagem. Acertamos as contas ( R$70,00 a diária), agradecemos a acolhida, lubrificamos as correntes da motos vermelhas de pó, encilhamos a bagagem e voltamos para a estrada.

Hav√≠amos combinado de passar em Canudos Velha, lugarejo que restou da inunda√ß√£o da outrora Canudos, onde um senhor bem avan√ßado na idade, o Sr Manoel Travessa, mant√©m um pequeno museu de objetos da antiga Canudos e da guerra.. Reflex√Ķes intracapacete me lembraram que isso nos faria rodar √† noite por cerca de 100/150km antes de chegar a Fortaleza. Como eu pretendia seguir caminho diferente do PW uns 140km antes da capital para ir para a Praia de Peroba passar os dias restantes de f√©rias, achei por bem deixar para outra oportunidade a visita ao Seu Manoel Travessa. Achei mais leal n√£o deixar meu grande companheiro de estrada rodar sozinho √† noite num trecho complicado da estrada. Na entrada de Canudos Velha gesticulei para o PW avisando que seguir√≠amos em frente.

Em todo esse trecho da BR 116 fomos ladeados por cabritos no acostamento. Observando a carga de muitos caminh√Ķes que ultrapassei entendi o motivo. Com a falta de √°gua assolando o cultivo de gr√£os em parte do Nordeste, o governo pernambucano est√° importando grande quantidade de milho para alimentar os rebanhos. Parte desse milho cai dos caminh√Ķes graneleiros vai para o acostamento, alimentar os cabritos.

Despedindo-se da Bahia, paramos em Ib√≥ para descanso e abastecimento das motos. 18,47lm/litro foi o consumo da minha moto. Em seguida cruzamos o S√£o Francisco atrav√©s da ponte que liga a Bahia a Pernambuco. No grande trevo logo √† frente, al√©m do aparente abandono do posto da PRF, havia uma imensa e curva fila de caminh√Ķes parados. Algu√©m achou por bem fazer do trevo um posto fiscal.

Entramos em solo cearense com buzinadas e toque de botas no ch√£o. Tichau lombadas caro√ßudas na pista! Agora s√≥ civilizados fotosensores ¬Ė e a placa da minha moto cada vez mais suja... Com pouco movimento na estrada e preocupados em n√£o rodar √† noite mantivemos neste dia uma tocada mais forte, acima dos 120km/h.

Engra√ßado, na ida, a BR116 no Cear√° parecia bem melhor que agora, na volta, cuja pista est√° mais, digamos, encaro√ßada. S√≥ encontro explica√ß√£o no fato de sermos um estado importador. Os caminh√Ķes chegam carregados e retornam vazios.

Com um calor de rachar, paramos em Cachoeira dos √ćndios, na Para√≠ba, numa pequena al√ßa de estrada que passa pelo estado vizinho. Abastecemos as motos e nos hidratamos com √°gua e caf√©. O consumo de gasolina da minha moto no trecho foi de 17,5km/litro.

Com mais 136km rodados, um pouco cansados por conta do forte e inc√īmodo calor, paramos em Jaguaribe e aproveitamos para abastecer e tomarmos sorvete. Mostrando que uma tocada forte se reflete no consumo, a V-Strom quase repetiu a marca anterior, fazendo agora 17,9km/litro.

Fizemos uma r√°pida parada no acostamento para o PW registrar a marca 7777 no od√īmetro da GS dele. √Č que sete √© o n√ļmero cabal√≠stico dos W.

Passamos por Russas e fiquei atento à entrada para Jaguaruana, onde eu deveria entrar para cortar caminho rumo a Peroba, onde Marta me aguardava.

Era quase tr√™s horas da tarde quando chegamos ao entroncamento para Jaguaruana. Paramos. Fiz algumas recomenda√ß√Ķes ao PW que a partir dali pilotaria solo, para o trecho a partir de Boqueir√£o do Ces√°rio e principalmente entre o ¬ďTri√Ęngulo de Quixad√°¬Ē e Chorozinho, que considero o mais perigoso da BR 116 no Cear√°. Recomenda√ß√Ķes desnecess√°rias depois do que rodamos na Rio-Bahia, BR 262 e 101 tanto de dia como √† noite e tanto com sol como com chuva . A essa altura PW j√° deve ser PHD em estradas para meninos grandes. Fizemos uma foto e nos abra√ßamos despedindo-se de tantos dias juntos. Faltava 150km para Fortaleza.

Segui, doravante solit√°rio, por uma desconhecida estrada de asfalto pedregoso e quase sem movimento que cruzava, sinuosa, a regi√£o do Baixo Jaguaribe, entre planta√ß√Ķes de caju e fazendas de camar√£o.

Cheguei a Aracati por volta das quatro e meia e abasteci a moto em posto j√° bem conhecido. Eita que a moto foi beberrona deste o √ļltimo abastecimento: 16,75km/litro! Coisa estranha; os dois piores consumos da viagem foram obtidos com abastecimentos feitos na mesma regi√£o, M√©dio Jaguaribe. Ser√° que o distribuidor de gasolina para Russas e Jaguaribe √© o mesmo? A desconfian√ßa na cristandade do combust√≠vel aumenta quando sabe-se que aquela estrada n√£o tem grande movimento e √© praticamente plana.

Liguei para Marta para avisar que em meia hora estaria em casa, na Peroba. Como ela estava começando uma caminhada nas dunas de Ponta Grossa, imaginando que eu chegaria bem mais tarde, combinei que iria, então, para a Barraca do Sidrak, na mesma Ponta Grossa.

Torci o cabo do acelerador na BR 304, andando acima dos 130km/h, ficando cada vez mais distante de Fortaleza. N√£o demorou e sa√≠ da BR entrando √† esquerda para Icapu√≠ e logo entrei √† esquerda novamente para Redonda e cinco quil√īmetros a mais entrei novamente √† esquerda para Ponta Grossa.

Era cinco da tarde quando pedi a primeira geladíssima cerveja na Barraca do Sidrak. Brindei o chegada de viagem com meus amigos pescadores. Quando Marta chegou da caminhada nem sabia mais quantas cervas já havíamos tomado...

Considera√ß√Ķes finais

Viajamos durante 11 dias sem sustos, imprevistos ou desencontros. Foi muito bom rever os amigos onde foi poss√≠vel e as novas amizades que engrandeceram cada um de n√≥s. Contamos com apoio dos Brazil Riders e ¬ďm@adianos¬Ē com dicas sobre estradas e passeios. Mesmo sem termos qualquer imprevisto na viagem, em caso de necessidade, sab√≠amos que poder√≠amos contar com BRs em cada lugar que passamos. Sem esquecer a presen√ßa especial do Davi, de Cachoeiro do Itapemirim, em Alto Capara√≥.

Previmos despesas entre 3 000,00 a 3500,00 reais. No entanto, creio que a conta n√£o chegou a R$2 500,00 por pessoa, incluindo tudo.

Como sempre mantenho rotineiramente a motocicleta bem cuidada, prepar√°-la para viagem n√£o exigiu muita coisa: Os pneus ¬Ė Michelim Anakee 2 ¬Ė j√° estavam com 17 mil km rodados e resolvi troc√°-los duas semanas antes da partida, pois mesmo ainda podendo rodar 2 ou 3 mil km dentro da faixa de seguran√ßa, n√£o se come√ßa uma viagem de mais de 5 mil km com pneus perto do fim. Mantive os bons e dur√°veis Anakee. Com 1 m√™s de antecipa√ß√£o troquei o rolamento da mesa, que apresentava um ¬ďcalo¬Ē. A troca de √≥leo do motor e respectivo filtro foi feita com tr√™s dias de anteced√™ncia. Para evitar surpr√™sas na estrada, √© muito importante fazer tudo que for necess√°rio na moto com certa anteced√™ncia. E depois rodar com a m√°quina para se certificar que tudo ficou de acordo com o previsto.

Ah, lembram que eu n√£o limpava os salpicos de √≥leo da corrente que iam sujando a placa da moto? Achava era bom que ficasse cada vez mais suja. Pois √©... Dia 17 de outubro recebi em casa, vejam s√≥, uma lembrancinha de Eun√°polis, via DENIT ¬Ė multa por trafegar a 56km/h quando o permitido, sabe-se l√° por quem, era 40km/h... fruto da ¬ď√≥tima¬Ē sinaliza√ß√£o da estrada. Devo ter colocado muitas vidas em risco com tamanho excesso de velocidade... Conclui, portanto, que a placa da minha moto n√£o estava t√£o sujinha assim quanto eu pensava...

Total rodado - 5 315km
Quantidade de gasolina - 258,49 litros
Despesa total com combustível - R$ 741,46
Preço médio da gasolina - R$ 2,87
Consumo m√©dio da V-Strom ¬Ė 19,49km/litro

Abrilhantaram a viagem as agradabilíssimas companhias do Alexandre Daher e do grande amigo e estradeiro de longas pernadas Joarez Dallago.

Faço um agradecimento especial ao Paulo Walraven, o PW. Pelo seu entusiasmo desde o primeiro momento em que a ideia da viagem foi concebida, pelo desenho e confecção de camisetas e adesivos alusivos à viagem, por sua lealdade incondicional a todos em todos os momentos e, por fim, por ter estado sempre junto na realização de todo o roteiro planejado.


Inté a próxima!





Notas bibliogr√°ficas:

Ricardo Setti (Conversas com Vargas Llosa)
Euclides da Cunha (Os Sert√Ķes)
IBGE (www.ibge.gov.br/cidadesat)
Fiocruz (www.invivo.fiocruz.br)



Luiz Almeida

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