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Transamazônica 2013 - Cruzando o Coração da Amazônia

Começando a viagem

Iniciamos a viagem dia sete de setembro, um sábado, às 07:30h, deixando a namorada e os amigos que vieram se despedir na largada no posto de gasolina da Av. Bezerra de Meneses onde costumamos marcar as saídas quando viajamos partindo de Fortaleza pelo lado oeste.

Eu e Marcelo combinamos uma tocada entre 6 e 7 mil giros em quinta marcha nas Ténérés 250, o que significava uma velocidade entre 90 e 110 km por hora, aproximadamente. O Joarez teria que ter paciência com sua Ténéré 660, que anda muito mais que nossas pequenas guerreiras.

Para as férias deste ano, minha programação inicial era viajar na confortável e potente BMW 1200 GS com a namorada na garupa rumo a Brasília e demais destinos na Região Sudeste. No entanto, Marcelo Teles me convenceu a mudar radicalmente de ideia com o seguinte e conciso argumento: Quando é que você vai ter companhia, saúde e disposição para fazer uma viagem cheia de percalços como esta num futuro incerto? Marcelão é mesmo um grande vendedor. Mesmo sem dar certeza de que iria, comprei a motocicleta que consideramos adequada e começamos a planejar. Lemos e relemos tudo a respeito do roteiro, dos perigos e das provações que outros motociclistas passaram em viagens semelhantes pela Região.

A preparação das Tenerinhas foi basicamente a colocação de para-lamas alto na dianteira, protetores de mão, protetores laterais tipo slider e plastificação das carenagens do tanque de gasolina. Além de pneus adequados. Mantivemos as medidas originais. Eu preferi os mistos Pirelli MT40 montados em aros de alumínio originais da Honda XR300. Já o Marcelo, seguindo orientação do Lourinho (melhor especialista em pneus e aros que conheço), calçou sua “Terezinha” com os Pirelli Rally, que eram biscoitudos tipo cross e que eu achava seriam rapidamente comidos pelo asfalto e que não chegariam a Marabá. Joarez, cuja moto já possuía boas proteções laterais usou pneus Metzeller Tourance atrás e Michelin Sirac na frente.

Para fotografar levei minha Nikon D5100 com lente 18-300mm e uma pequena e fiel Sony H55. A Nikon ficaria no bauleto protegida dentro de uma sacola própria e em meio as roupas e só seria usada em momentos especiais, principalmente na planejada navegação pelo rio Amazonas. A Sony iria comigo, no bolso da jaqueta, para fotografar tudo que fosse possível no caminho.

Joarez escrevendo:

"Dois meninos pequenos - uma com 3 meses e o outro com 1 ano e dez meses - fizeram com que a decisão sobre a viagem ficasse "sub-judice" da patroa até o último instante. Por isso, a moto foi basicamente do jeito que estava. Fiz uma revisão e comprei alguns itens sobressalentes para uma eventualidade. Se a chuva apertasse durante a viagem, necessariamente teria que trocar os pneus e rever as bagagens para aliviar o peso. Acabei chegando do jeito que sai, mas não sem pagar o preço...rsrs"

Como equipamento pessoal preferi usar calça jeans grossa, botas de cano médio e joelheiras, somados à jaqueta de cordura bem ventilada com boas proteções de ombos, cotovelos e coluna. O capacete foi o velho e bom Nolan com queixeira basculante. Marcelo optou de forma semelhante a mim mas, sabendo que haveria sol de proa, preferiu um capacete Bieffre fechado tipo cross com viseira e pala. Joarez adotou capacete igual ao do Marcelo, calça e botas de trilha e colete de proteção por sobre camiseta de mangas compridas que mandamos fazer especialmente para a viagem.



Joarez escrevendo:

"Onde o calor castigou para valer foi de Oeiras até Carolina. Daquele de Urubu voar só com uma asa para poder se abanar... Na região amazônica também estava muito quente, mas de vez em quando aparecia uma nuvem amiga ou árvores para aliviar. Tive pena do calorão que o Marcelo e Luiz passaram com aquelas jaquetas de cordura. Eu sofri no início porque estava sem protetor solar e o pescoço virou brasa com o Sol. Fui salvo pois, gentilmente, o Marcelão me arrumou um hidratante com fps 30. Pense numa alma caridosa...rsrsrs"

Entramos na BR 020, asfalto bom e velocidade monótona. O céu pincelado por nuvens em furta-cor de plúmbeo com branco, como a dizer ao ressecado sertão em ano de seca que tinham água, mas que por misteriosos desígnios não a soltaria ali.

Passamos por Canindé e seus mendigos de mão estendida na beira de estrada, rodamos um pouco mais e com 196,7 km no odômetro parcial paramos para abastecer em Madalena. O tanque da minha moto coube 7,89 litros de gasolina, perfazendo um consumo de 24,9 km/litro. A bota do Joarez começou a demostrar fadiga... E o capacete dele problema na viseira.

Assistindo um espécie de filme em velocidade alterada fomos cruzando a paisagem árida composta por pedras e arbustos com galhos secos e retorcidos, esqueletos de animais no acostamento, pontes sem rios, casebres sem reboco e pequenos açudes completamente secos. Com correr da manhã, o sol nordestino já mostrava a presença com um forte calor. Não sei como tanta gente teima em viver num lugar desses.

Marcelo sugeriu paradas a cada 300km. Sugeri a cada 2 horas aproximadamente e concordamos. Em Tauá, terra do bode, paramos mais uma vez para abastecimento das motos (25,3km/l), pipi, água e café.

Ao cruzarmos a divisa e entrarmos no Piauí, reparei substancial melhoria no aspecto das casas às margens da estrada. Logo senti o cheiro de caju no ar e percebi que a região era de fazendas de cajucultura. Bem ou mal, era o latifúndio melhorando a vida das pessoas.

Joarez perdeu a paciência com nosso ritmo, seguiu na frente depois de marcamos reencontro em Picos, 191,3km à frente, onde abastecemos as motos (23,2km/l) e descansamos um pouco nos refrescando com picolés e água. Eita calorzão brabo!

Joarez escrevendo:

"Não tive a paciência do Luiz para fazer a média de consumo da 660, mas sempre abasteci entre 1,5 a 2 litros a mais que as Tenerezinhas, com média superior a 20 Km/l. Com esse consumo a autonomia da moto bate pertinho de 500 Km - uma tranquilidade. Rodava a 4000 giros no ritmo dos companheiros... um tédio tremendo! Vez por outra precisava esticar as canelas da moto pra ela não se acostumar...rsrs. Foi assim praticamente até Humaitá - graças ao clima favorável. Em compensação na Estrada Fantasma levei o troco das pequenas ferozes....rsrsrs"

Por volta das quatro horas da tarde, 72km depois de Picos, chegamos a Oeiras, onde o grande motociclista Verô nos aguardava. Verô, que dentre inúmeras viagens de moto mundo afora, havia chegado de viagem semelhante a que começávamos cerca de 45 dias antes, e nos recebeu na casa dele, onde nos hospedou confortavelmente. Fomos levados pelo anfitrião a um city tour pela primeira capital do Piauí e ao anoitecer, sob a direção do irmão do Verô, já que ele mesmo não é de beber, fomos a um boteco nos reidratar com cervejas e repor os níveis proteicos com deliciosas codornas fritas, tudo isso acompanhado de ótima conversa sobre os mais diversos assuntos, inclusive viagens de motocicleta.

Depois de um bom café da manhã, nos despedimos do Verô com um forte abraço e, agora pela BR 230, seguimos viagem rumo a Carolina, no Maranhão.

Sul do Piauí e Maranhão

O cenário entre Oeiras e Floriano era como se um grande incêndio tivesse calcinado toda a mata nas laterais da estrada. Porém, como não havia cinzas, concluí que aquela devastação era causada pela seca que assola o Nordeste neste ano. Também notei, na beira da estrada, quase no acostamento, inúmeros pequenos cemitérios, a maioria sem cerca ou qualquer proteção.

Passamos por Floriano e adentramos o Maranhão. Mantenho o costume de buzinar e tocar as botas no asfalto antes e depois do marco divisório, como a se despedir de um Estado e cumprimentar o próximo. 231km depois Oeiras, paramos em São João dos Patos para descanso e abastecimento das motos (27,5km/l) e demais necessidades dos pilotos.

A partir de Pastos Bons (pertinho de Nova Iorque!) o cenário muda radicalmente. Estamos na região do Cerrado Maranhense. Rodamos por horas e horas vendo fazendas e mais fazendas praticando agricultura de ponta, com grande maquinário, silos imensos e plantações, principalmente de soja, a se perder de vista. A sensação é de estarmos no Paraná ou outra região produtora de grãos no Sul/Sudeste. Pena que quando passamos na região a colheita já havia terminado e a paisagem era de extensos campos sem o verde das plantas.

Em Balsas, capital do cerrado maranhense, cuja economia gira, principalmente, em torno da produção agrícola de grãos, muitas grandes lojas voltadas para o maquinário agrícola ladeiam a estrada. São tratores de todos tipos e tamanhos, colheitadeiras enormes e mais uma grande variedade de implementos, além de veículos de carga. Uma placa que me chamou atenção na entrada da cidade foi a de um motel; a acanhada plaquinha possuía o desenho de uma moto e os dizeres: Motel Duas Rodas – Só Nós Dois. Abastecemos com o odômetro parcial marcando 317,4km. O consumo da minha moto foi de 27,67km/l. A tenerinha do Marcelo sempre bebia um pouco mais que a minha. Nada muito significativo, mas ele pagava quase sempre 1 ou 2 reais a mais que eu. Vela de iridium na minha moto ou diferença de pneus? Talvez apenas diferença no punho direito.

Nos testes pré-viagem que fiz, reparei que o painel da Ténéné 250 mostrava reserva pouco depois do odômetro marcar 250km, e quando completava só cabiam cerca de dez litros de gasolina. Ou seja, ao anunciar reserva mostrando um terceiro odômetro parcial que parte do zero, a Tenerinha ainda tem aproximadamente seis litros de combustível no tanque. Dá para rodar mais 100km com folga!

De Balsas fomos para Carolina, 170km a frente, ladeando o Parque Nacional da Chapada das Mesas, com belas formações geológicas despontando no horizonte.. Chegamos por volta das quatro horas da tarde e paramos numa pousada antes de entrar na cidade. Como era domingo, grupos de excursão deixavam a pousada. Aguardamos a liberação de um bom chalé para três a preço promocional negociado pelo Marcelo tomando cerveja ao lado da piscina.


Depois de alojados, fomos nos refrescar na piscina com cascata - balde cheio de gelo e cervas na borda e petiscos para matar a fome, pois não parávamos para almoçar durante a viagem, só fazíamos pequenos lanches nas paradas de abastecimento. À noite tentamos comer algo mais substancioso em restaurante do outro lado da estrada e o encontramos fechado. Como não estávamos dispostos a subir nas motos, o jeito foi fazer um exagerado pedido de pizzas por telefone, já que a pousada não servia jantar.

Lavamos algumas roupas e as estendemos num varal montado entre as motocicletas diante da porta de nosso apartamento. Joarez, o último a recolher as roupas, guardou a corda do varal que levei e ela nunca mais apareceu. Ah, em Carolina o Joarez também guardou o hidratante com protetor solar que o Marcelo levou e ele nunca mais foi visto! Hehehehehe

Joarez escrevendo:

"Mistério sem solução esse sumiço! As cordas de varal do Luiz acho que caíram pelo caminho. Tenho uma vaga lembrança de colocá-las presas com ligas sobre o bauleto da moto. Já o hidratante do Marcelo...o que é certo é que eu não bebi!!"

Pela manhã, na checagem da moto, reparei, preocupado que o pneu traseiro da minha Tenerinha parecia estar quase na “meia vida”. O jogo de pneus foi comprado para a viagem e rodou previamente menos de 1500km.


Logo depois do café da manhã colocamos as motocicletas para rodar. Antes da entrada de Carolina viramos à direita e seguimos pela BR 010, já que nesse ponto a BR 230 foge do mapa. Depois de ver tamanduás mortos na estrada, foi tocante a cena do jumentinho morto atropelado na estrada com a mãe ao lado, como a esperar que o filhote voltasse à vida. Fizemos uma parada no Parque da Pedra Caída, um belíssimo lugar com muitas trilhas para caminhada além de gigantescas e altíssimas tirolesas. Como era segunda feira, dava para ver o estrago do farofal domingueiro. Recomendo visitar o lugar fora de final de semana ou feriadões.

Joarez e Marcelo já conheciam o parque. Não seria justo eu tomar tempo da viagem fazendo uma caminhada. Além do mais, o traje de viajante sobre duas rodas era totalmente inadequado para tal. Ficou para outra vez.

Abastecemos em Estreito (24,9km/l) e daí saímos da BR 010, cruzamos o rio Tocantins entrando no Estado de mesmo nome. Rodamos por algumas estradas sem nenhuma sinalização nos deixando meio confusos, mas logo o Marcelo se localizou e depois de uns 100km, logo após São Bento do Tocantins, retornamos à BR 230 cruzando o belo rio Araguaia sobre uma extensa ponte. Como batismo de fogo, digo, batismo de lama na viagem, rodamos 30km de estrada sem pavimento com trechos de lama antes de chegarmos a Marabá.


Entrando na Amazônia

Entramos em Marabá, cidade com quase 250 mil habitantes, com pesado tráfego de caminhões, sob forte sol e calor sufocante. Paramos no primeiro hotel que vimos, bem num barulhento trevo e não nos animamos parar ali. Parecia ficar longe de tudo. Ainda era cedo, por volta da duas e meia da tarde e fomos buscar hospedagem com calma. Joarez se perdeu de nós por alguns tensos momentos, mas nos reencontramos e, perguntando a transeuntes, chegamos a um hotel com garagem para as motos. Hotel Tibiriçá, simples e atendimento marromenos.

De chinelo e bermuda caminhamos por rua de muito comércio nas proximidades do hotel, comemos deliciosos espetinhos e procuramos em vão pilhas de lítio para o rastreador via satélite do Marcelo. Este aparelho era acionado todo final de dia para passar nossa localização via e-mail e blog Depois da Cerca a nossos amigos e parentes, independente de qualquer tipo de sinal de celular. Pilha comum acabava em 20 minutos.

À noite fomos de táxi conhecer a orla da cidade, banhada pelo rio Itacaúnas bem próximo deste desaguar no Tocantins. Muito movimento e entre bares e restaurantes. Tomamos algumas cervejas ao por do sol em um bar flutuante ancorado na margens do rio. Geralmente se coloca música em alto volume em tudo que é lugar; pedimos para baixar o volume. O tipo de música que colocam para tocar é conhecido, tipo Fagner, Roberto Carlos, Djavan e mais uma ruma de cantores de mpb. O diferencial é que nunca é o cantor que conhecemos tradicionalmente. A gravação é sempre de algum intérprete local a cantar as músicas.

Voltamos para terra firme e jantamos uma espetacular caldeirada de tucunarés, com fartura de ovos cozidos no meio do aromático caldo. Depois de mais de meia hora esperando, finalmente um taxista cearense apareceu para nos levar de volta ao hotel.

Joarez escrevendo:


"Confesso que tinha uma preocupação grande com a qualidade da comida que encontraria no caminho. No final das contas, não houve do que reclamar, pelo contrário, considero que comemos muito bem na grande maioria das vezes. Depois que começou o trecho de terra pra valer, passadas algumas horas e muitos quilômetros, começava a nascer um desejo interior que era fonte de motivação para a chegada ao próximo destino. A boca salivava e o pensamento pintava em cores vivas o objeto de desejo. Dava quase para sentir aquela sensação maravilhosa e refrescante. Qualquer tentativa de descrição é vã, pois é preciso viver um dia de muito sol, poeira e pilotagem tensa por estradas desconhecidas no meio da floresta amazônica para dar o devido valor...a uma CERVEJA GELADA!!!"

Ah, essa cerveja que o Joarez fala acima tinha um valor inestimável. Geralmente, no fim de uma jornada, ao chegar no hotel ou pousada, antes de tirar a tralha da minha moto, antes mesmo de entrar no apartamento, eu já providenciava uma latinha de cerveja bem gelada para tirar a poeira da garganta.

A partir de Marabá os asfalto seria mera lembrança. Cedo abastecemos as motos (26,9 km/l) e ajustei a pressão dos pneus em 18 libras. Marcelo fez parecido e Joarez baixou muito pouco a pressão dos pneus de sua Tenerè660, mantendo-as acima das 26 libras.

A lubrificação das correntes das motocicletas era feita diariamente antes de começarmos cada jornada do dia. Como eu, além de ser o primeiro a acordar, levava dois tubos de desodorante com 200mm de óleo SAE 120 cada, e também levava um prático macaco para suspender as motos, quando ia fazer o serviço na minha moto aproveitava e lubrificava também as correntes das motos dos amigos. Processo simples: derramar o óleo sobre a corrente até começar a gotejar.

Joarez escrevendo:

"Optei por uma calibragem um pouco mais alta considerando o peso das bagagens e o receio de cortar câmaras ou pneus em buracos da estrada. Até Humaitá essa estratégia funcionou bem, porque foram poucos os trechos com pista escorregadia. De fato, por conta da poeira que prejudicava muito a visibilidade, entrei em algumas valas e topei com muitas pedras pontiagudas e quinas vivas do resto de asfalto que um dia existiu por aquelas estradas que poderiam ter causado maiores estragos, se os pneus estivessem com calibragem muito baixa. No entanto a minha estratégia furou a partir da BR 319 onde tive que seguir o conselho sábio e generoso dos meus companheiros mais experientes - "Seca isso jumento, ar não é ouro não, viu!!"

Tchau Asfalto

30km depois de sair de Marabá começou o barro e a poeira com uma infinidade de pontes de madeira com duas linhas de pranchas para os pneus dos carros e caminhões, e nenhuma segurança nas laterais. No começo a travessia dessas pontes eram um pouco tensas. Depois nos acostumamos e cruzamos muitas sem problema. Só não podia querer olhar para o igarapé abaixo e perder o rumo da moto, além de atento para as eventuais tábuas quebradas. Cheguei a passar por pontes sem nem mesmo reduzir a marcha da Tenerinha. Em outra ocasião cruzei uma ponte temerosamente pelas treliças centrais. Essas pontes parecem não ser consertadas. Quando estão sem mais condições de receber o tráfego, são totalmente refeitas alguns metros ao lado da outra, muitas vezes ficando fora do eixo da estrada. Há minúsculas placas informando sobre a ponte poucos metros diante delas.

Rodamos por 35km em Território Indígena Parakanã, com suas ameaçadoras placas de “Não Entre”, com mata alta e fechada nas laterais. Não tenho ideia de como sejam as aldeias lá dentro. Após 186km no odômetro parcial, paramos para abastecer em Novo Repartimento, cidade onde o mapa alertava para o alto índice de assaltos na região. Comentei este fato com o frentista e fui informado que não havia mais bandidos por lá, só pistoleiros... - E pistoleiro não é pior que bandido não? Perguntei. - O sr pode ir na delegacia daqui que não vai encontrar nenhum Boletim de Ocorrência por lá. Bandido aqui aparece morto nas estrada ou nunca mais é visto. - Ah bom. Entendi agora o trabalho dos pistoleiros, respondi.

O consumo de combustível da minha moto foi de 30,7km/l. Melhorou bastante fora do asfalto. Certamente por conta do regime de giro mais baixo, mesmo com maior troca de marchas.

Fora dos Parques Nacionais e Territórios Indígenas, o que se vê nas margens da Transamazônica são muitas fazendas de médio/pequeno porte voltadas para a criação de bovinos para abate. No meio dos pastos, como vestígio das mata original, apenas as frondosas, altas e belas castanheiras, para mim a mais bela árvore da Amazônia. As casas das fazendas são de madeira, com aspecto antigo, lembrando a colonização ao longo da estrada nos anos 70. Vez por outra entrava no capacete cheiro de madeira queimada. É a fumaça proveniente das muitas pequenas queimadas – não sei se legais ou ilegais - que observamos ao longo de toda a viagem cortando a floresta.

Em Pacajá, numa parada para beber água, encontramos um cearense, de Juazeiro do Norte, que voltava para casa sozinho numa pequena Honda Bros 150 toda empoeirada e cheia de bagagem. Era o Edmilson. Perguntado o que fazia por aquelas bandas, respondeu que havia ido cobrar umas panelas. Eita cabra para ir buscar dinheiro longe de casa!

Uma simpática e pequenina frentista, na pontinha dos pés, completou o tanque da minha moto em Anapú, cidade que passou a ser conhecida nacionalmente após o brutal assassinato de uma freira americana. O odômetro parcial marcava 189,7km desde Novo Repartimento. O baixo consumo se confirmou com os 6,25 litros de gasolina que foram suficientes para encher o tanque: 30,35km/l.

Dilma de Mini Saia

Rodamos cerca de 80km e chegamos ao rio Xingu, na localidade de Belo Monte do Pontal, onde pensávamos haver uma cidade. Nada mais havia no lugar do que os botecos no ponto de embarque e desembarque da balsa que faz o transporte naquele ponto do rio. Posicionamos as motocicletas e, enquanto a balsa não chegava fomos fazer um lanche e beber água. Como bebíamos água sob aquele calor abafado!

Percebemos umas pessoas de paletó e gravata circulando pelo lugar por trás dos carros. Notamos muitas caminhonetes da polícia militar, polícia federal, polícia rodoviária federal, polícia civil e guarda nacional fechando a estrada no alto. Devem ser políticos... pensei.

Quando a balsa chegou os chapas branca tiveram que tirar a ruma de caminhonetes do lugar para dar passagem aos caminhões que desembarcavam. Balbúrdia total e a gente só olhando.

Embarcamos primeiro e uma caminhonete da PF chegou muito perto de mim que estava posicionado logo atrás da moto. Fiquei parado para ver onde chegava a brincadeira do motorista. Chegou a um sorriso acompanhado de gesto amistoso por parte do policial e um sinal de positivo meu. Conversamos sobre nossa viagem e sobre que comitiva era aquela. Eram Desembargadores, juízes, promotores, secretários de Estado e mais uma ruma de gente que vinha de uma audiência pública em Anapú.

Desembarcamos e menos de 500m à frente uma motoniveladora bloqueava a estrada. A estrada estava em obras e haveria detonação de dinamite. Formou-se uma desorganizada fila de carros, motos, caminhões e carros oficiais com seus figurões apressados. Estávamos na região da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Passei o tempo observando o movimento e conversando com um engenheiro cearense que trabalhava na construção da usina. A fase da obra ainda era de desvio das águas do Xingu.

Marcelo, que ficou perto do camarada que recebia ordens para manter a estrada bloqueada, via rádio em viva voz, testemunhou o seguinte diálogo:

Chefe aqui desse lado só tá perdendo pra Brasília, cheio de autoridade e os "homi" tem hora pra chegar no aeroporto de Altamira, copiou ?
Num pode passar....
Chefe só carro de federal. Tem uns dez tudo armado com fuzil e 12. Tão me pressionando, copiou?
Rapaz! Por esse bloqueio num passa nem a Dilma de mini saia, copiou?

Foi uma gargalha geral pois todos estavam escutando tudo pelo rádio. Foram duas horas de espera e uma detonação que fez o chão estremecer.

Antes da liberação, de uma caminhonete da Força Nacional que perdeu a balsa e chegou atrasada, desceu um policial querendo resolver a parada com arma na mão. Percebeu a gafe, voltou e não mais saiu do carro. Despreparado!

Estrada liberada e a correria para seguir viagem era generalizada. Deixamos os apressados na frente e seguimos tranquilos. No trecho em que a estrada cruza o canteiro de obras da hidrelétrica caiu uma chuva que deixou o chão liso como sabão. Um belíssimo arco-íris se formou de ponta a ponta da obra. Tentei fotografar mesmo correndo o risco de molhar a máquina. Nas fotos apressadas, uma gota de água borrou boa parte das imagens.

Quando anoiteceu estávamos nos 10km de asfalto que existe antes de Altamira.

Em Altamira um motoqueiro nos informou que encontraríamos hospedagem nas proximidades do terminal rodoviário. Antes, paramos em uma pousada com hóspedes mal-encarados na calçada, porém não havia garagem nem vagas. Ótimo. Pertinho da rodoviária encontramos uma boa pousada, com garagem fechadas para as motocicletas e amplo apartamento triplo e preço camarada. Almoçamos/jantamos num restaurante grande, denominado Familiar. Comida boa e farta. No entanto, quase ao lado do restaurante havia um estabelecimento com luz vermelha na porta...

Depois do dia todo na poeira, Joarez saiu do banho e a toalha de ele havia se enxugado estava toda manchada na cor da poeira. Fizemos gozação com ele, que naquela idade ainda não tinha aprendido a tomar um banho direito. Claro que caprichei no meu banho para que não me acontecesse a mesma coisa... A propósito, já tinha dividido apartamento com o Joarez por uma noite em Alto Caparaó. A desorganização dele até que foi suportável. Mas nesta viagem, com muito dias juntos, o homi abusava em deixar tudo espalhado, colocava coisas dele sobre a cama dos outros ou espalhada pelo chão fazendo a gente tropeçar, trancava a porta do apartamento deixando a gente do lado de fora com bagagem nas mãos, corria para fazer serviço solitário no banheiro empestando o ambiente e ainda gritava “tchau Luiz” enquanto dava descarga, por fim, Joarez favelizava tudo!

Já o Marcelo era o mais organizado. Tinha tudo na mão e levava organizadamente apetrechos para o que bem se entendesse. Quer um corda fina? O Marcelo tinha. Recipiente para manter a água gelada na estrada. O Marcelo tinha. Colírio, canivete, lanterna, linha e agulha, ou qualquer outra coisa. O Marcelo tinha e sabia aonde estava!

Já eu, bom... eu até que levava diversos apetrechos, peças sobressalentes e medicamentos. Mas funcionava assim: - Luiz, estais com o calibrador de pneus aí? - Estou com ele sim, mas está no fundo dessa sacola e não vou soltar essa ruma de elásticos, não. Luiz, tens band-aid? Tenho, mas está na necessaire dentro do bauleto e não vou abrir esse troço não porque se desorganizar não fecha mais.


Uma das diversões durante a viagem era o constante “bulliyng” entre nós. Todos faziam piadas com todos. Coisa entre amigos.

Joarez escrevendo:

"Adoro pegar no pé do Luiz Almeida, só de mal, como se diz no nosso Ceará. E isso porque gosto dele. É um cabra cheio de predicados e já me serviu de inspiração para muita coisa neste tempão que temos de convivência. Ele foi militar, assim como eu também, só que no seu caso, mesmo após a baixa, continuaram impregnadas nas suas atitudes os costumes da caserna. Como alguém consegue manter 95,5 km/h, durante horas a fio e debaixo de um sol de arrebentar para poupar o equipamento? Já eu, se não sou o oposto total, também não tenho nada haver.. Organização, planejamento, rotina... são parte do meu cotidiano de trabalho. Numa viagem faço um pouco de cada e uso o bom senso para não deixar as coisas tomarem um rumo indesejado, mas o principal é me divertir, me sentir livre."

Pela manhã, antes de ligarmos os motores, verificamos o nível de óleo do motor das Tenerinhas, eu e Marcelo achamos que estavam no nível mais baixo da vareta. Combinamos colocar 200ml em cada moto no posto em que fossemos abastecer na saída de Altamira. Chegamos em um posto BR com quase ninguém para atender. Fiz sinal para o Marcelo e Joarez para irmos em busca de um outro posto estrada à frente. Joarez não viu ou não entendeu para onde íamos e foi em outro posto nos procurar trocando óleo, enquanto seguíamos estrada adiante de olho no retrovisor em busca de uma Tènèrè660. Não havia posto nenhum nos 60km à frente e o Joarez se juntou a nós somente depois da parada seguinte, em Brasil Novo, onde abastecemos (29,07km/l) e verificamos que não seria necessário completar o óleo. Creio que fizemos uma medição errada anteriormente.

Será que cheiro de gasolina prejudica as oiças? Na maioria dos postos na viagem os frentistas não entendiam ou não prestavam atenção e eu tinha que repetir até três vezes o que queria: complete o tanque, com gasolina aditivada (quando tinha), por favor.

Joarez escrevendo:

"Eu entendi que eles iriam completar o óleo no próprio posto. Abasteci e fui procurar a dupla que tinha sumido. Fiquei feito vaca esperando os dois, por uma boa meia hora. Conheci um cara que vive de fazer leilão de gado naqueles programas de TV em que há lances... pelo menos o papo foi interessante. Perguntei aos frentistas e as informações foram contraditórias. O fato é que entrei em Altamira de novo para ver se eles estavam em outro posto BR que, segundo disseram, tinha a troca de óleo. Voltei pro posto original e nada. Sem contar que o celular estava fora de área. Dali há pouco chega um sujeito de Brós, vindo de Brasil Novo, que se aproximou e disse que encontrou uns caras com motos parecidas com a minha e que eles tinham ajudado a amarrar sua bagagem. Bom, pensei, @###xxx!!... Peguei a BR 230, sentido Rurópolis e botei para moer na 660... encontrei os malas depois de pouco mais de uma hora de estrada."

Viajamos alternando nossa posição naturalmente, sem combinação prévia, eu ia na frente do grupo por um tempo, depois assumiam a frente Marcelo ou Joarez e um de nós ficava no meio e outro atrás, sempre se revesando. Mantínhamos um certa distância entre as motos por conta da poeira e dos pedriscos.

A estrada sempre com a instabilidade do piso de barro muitas vezes era ladeada por valas profundas, fruto da erosão provocada pelas chuvas. Vez por outra havia pequenas valas longitudinais e diagonais no meio da pista, nada muito complicado para quem tem boa experiência em trilhas. Numa delas ganhei uma pitada de adrenalina a mais; Era descida e uma vala se apresentou discretamente no meio da pista, na longitudinal, e eu, que vinha a uns 80km/h, optei pelo lado direito da erosão, que se alargava e se aprofundava a cada metro. Tudo se passou muito rapidamente. Percebi naquele instante que minha escolha não fora a melhor. A pequena erosão transformara-se numa vala profunda e saía da estrada exatamente pela direita, o lado que eu equivocadamente havia escolhido. Impossível voltar para a esquerda da estrada. Frear na velocidade que eu estava naqueles pedriscos também seria bobagem. O jeito foi ficar de pé nas pedaleiras, acelerar e puxar a frente da moto para cima ao saltar a profunda vala de quase metro de largura. A roda dianteira passou – naquele culhonésimo de segundo, esperei pancada forte na roda traseira – a roda traseira passou!

Seguindo viagem, passamos por Medicilândia, cidade em cuja entrada há uma placa que informa ser ali a Capital Nacional do Cacau. E eu pensando que isso era coisa do sul da Bahia, de Ilhéus... Apurando a informação: A produção de cacau de Medicilândia em 2011 foi de 22 467 toneladas enquanto que a de Ilhéus foi de 11 520 toneladas, de acordo com o IBGE. Segundo a SEPLAC (importante órgão ligado diretamente à cultura cacaueira) a produção atual de Medicilândia deve passar da 30 mil toneladas. Medicilândia é, portanto, a Capital Nacional do Cacau!

Paramos em Uruará, depois de uma tocada de 160km, para descansar, beber água e aproveitamos para reabastecer as motos. Minha moto parecia andar só com o cheiro da gasolina – 30,21km por litro.

Santarém e Alter do Chão

Rodamos mais 170km sob calor forte e poeira até chegarmos a Rurópolis por volta da duas horas da tarde. A cidade fica no entroncamento da BR 163 Cuiabá/Santarém com a BR 230 Transamazônica. Lugar movimentado com tráfego pesado de caminhões transportando a safra de grãos da Região Centro-Oeste. Enquanto descansávamos, fazendo um lanche e jogando água na cabeça para espantar o calor, Joarez notou que sua moto estava sem a placa. Certamente ela foi perdida na localidade anterior cujo nome é Placas, mas como não havia placa nenhuma – vai ver que se perde muita placa por lá. A solução foi Joarez comparecer à delegacia local para preencher um Boletim de Ocorrência e seguir viagem. Mas como demorou este BO! Perdemos umas duas horas na espera.

Era quase quatro horas. Vamos para Santarém? Bora, concordamos todos. Seriam cerca de 200km ponteados de asfalto, barro e obras na estrada conduzidas pelo exército, muitas obras com muitos desvios.

Margeando a Floresta Nacional do Tapajós rodamos por um pequeno trecho asfaltado e logo começou o trecho de barro, foram 70km com muita poeira levantada pelo caminhões com dupla ou tripla carreta – os famosos treminhões. Ultrapassar ou cruzar um monstro desses era uma operação que exigia muito cuidado.

Muitas vezes tivemos que contornar a estrada por improvisados e mal sinalizados desvios. Também tivemos que pilotar sobre piso molhado recém revolvido por máquinas de terraplanagem. Um cuidado a parte: O pessoal que opera o maquinário do exército, diferentemente dos civis, não costuma prestar muita atenção nos passantes, principalmente nas pequeninas motocicletas.

Os 120km finais para chegar a Santarém era de asfalto. Porém uma reta ladeada por densa floresta, numa monotonia tal que amplificou nosso cansaço. Não havia um posto de gasolina, sequer um boteco para uma paradinha, nada, só o retão cortando a selva. Ainda por cima, com o dia se esvaindo, caiu uma breve chuva e levantou vapor do asfalto e este começou a exalar um nauseante cheiro de óleo diesel.

O odômetro parcial da minha moto marcava mais de 350km rodados e fazia algum tempo que o alerta da reserva tinha sido acionado e nada de Santarém aparecer. Finalmente apareceu um posto na localidade de São José, já perto da cidade. Coube 12,50 litros de gasosa no tanque. Foi o maior estirão com um tanque só que fizemos. Acho que ainda daria para rodar mais de 50km com segurança. O consumo entre Uruará e Santarém foi de 28,89km por litro.

Estávamos um dia adiantados em relação a programação original da viagem.

Entramos em Santarém, que tem cerca de 300 mil habitantes, já noite feita. Ao fim da BR entramos à direita e seguimos pela orla entre a cidade e o rio Tapajós. O primeiro hotel que vimos, apesar da boa aparência, não havia garagem fechada para as motos e sem nem mesmo parar, continuamos o passeio em busca por hospedagem. Rodamos por mais de meia hora com o calor fazendo-nos suar dentro do capacete até que resolvemos voltar ao primeiro hotel que vimos, o hotel Tapajós, onde fomos muito bem recebidos e o preço da diária não era de arrancar o couro do vivente. Como havia vigilância, deixamos as motos estacionadas bem próximas à portaria do hotel. O apartamento triplo era bom e completo.

Por sorte encontramos hotel com vagas em Santarém. A tradicional festa do Çairé, que chega a atrair 100 mil pessoas, havia sido adiada em uma semana. A tradição existe há cerca de 300 anos. Atualmente o Çairé é festejado no mês de setembro e consiste em um ritual religioso que se repete durante o dia, culminando com uma cerimônia noturna com ladainhas e rezas. Depois vem a parte profana da festa, representada pelos shows artísticos, com apresentações de danças típicas e pelo confronto dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa. São cinco dias de muita música, dança e rituais resultantes do entrelaçamento social e cultural entre os colonizadores portugueses e índios da região do Tapajós.

Um saco todo dia tirar a tralha da moto composta por bauleto e sacola amarrada no lugar da garupa com aquela ruma de elásticos para sustentar a bagagem com segurança no sacolejo das estradas para no dia seguinte montar tudo novamente. E lembar que eu havia pensado em levar na bagagem pneus tipo cross para os momentos de lamaçal...

Refeitos do dia na estrada fomos procurar lugar para a refeição do dia. Um taxista que fazia ponto no hotel nos levou a um restaurante especializado em peixes. Se come peixe na Amazônia! Estranhamos os 20 reais cobrados pelo taxista em tão curta distância percorrida. Perguntamos o custo real a um outro taxista que estava estacionado por perto e soubemos que fomos roubados em 8 reais. Nos hidratamos fartamente com cerveja e comemos um ótimo peixe. Ao buscarmos condução para voltar, ora vejam, o mesmo taxista malandro que nos levou passava no local. Entramos no carro e contestamos o valor cobrado na ida. Inventou uma desculpa esfarrapada e, constrangido, não nos cobrou a viagem de volta.

Após o café da manhã, levamos as motocicletas para lavagem geral e troca de óleos e filtros na concessionária Yamaha Tapajós Motocenter. Antes contratamos o Messias, um taxista – o mesmo pecador redimido da noite anterior – para nos apanhar na revenda e nos levar para um dia inteiro em Alter do Chão, cerca de 30km de Santarém, negociado em R$100,00. Fomos muito bem recebidos pelos gerentes e mecânicos da concessionária, fizemos todas recomendações que achávamos necessárias e, antes de Alter do Chão, fomos em busca de alguém que consertasse o capacete do Joarez que desde o começo da viagem não abria a viseira. Infrutífera busca.

Joarez escrevendo:

"A Concessionária da Yamaha de Santarém é diferenciada em termos de atendimento. Muita atenção, gentileza e serviços de qualidade. Providenciaram, inclusive, a substituição da minha placa que perdi numa "pequena" erosão na estrada. Foi mais ou menos assim: Vinha subindo uma grande ladeira e quando chego ao topo cruzo com um veículo e um manto de poeira cobre tudo. Diminui a velocidade rapidamente. Não sei exatamente por onde passei, mas senti um solavanco enorme que serviu de impulso para ficar de pé na moto. Freios traseiros acionados, senti a moto derrapando por alguns instantes e pude finalmente perceber que estava dentro de uma vala de erosão muito grande que me levava pra fora da estrada. Mantive a calma - aí Jesus, ai Jesus... - e visualizei, alguns metros á frente, uma marca de pneus de caminhão que tinha derrubado o beiral da vala. Foi por ali mesmo que escapei do buraco e de entrar mata adentro... Sinistro!! Só percebi a falta da placa em Rurópolis, muitos quilômetros a frente. O pitoresco do acontecido, foi que placa da moto caiu exatamente no Município de Placas-PA. Será que é coincidência ou destino?? rsrsrs"

Alter do Chão é considerado o Caribe do Amazonas, apontada como a mais bela praia fluvial do mundo pelo jornal britânico The Guardian. Quando as águas do rio Tapajós baixam surgem ilhas com belas praias de areia branca banhadas por águas transparentes num tom verde esmeralda. Há diversos barqueiros fazendo a ligação entre o casario do lugar e as ilhas onde ficam as barracas de palha que servem bebidas, peixes e os mais variados petiscos regionais.

Ficar o dia todo bebericando numa barraca de praia fluvial não me parecia ser a melhor opção para quem vive no Ceará, terra cheia de praia maravilhosas. Sugeri aos amigos a opção de passeio de barco que nos era oferecida por um barqueiro do lugar. Havia diversas opções e concordamos em fazer uma passeio completo navegando numa voadeira de alumínio. Marcelo negociou o valor e aceitamos pagar R$300,00 desde que fosse incluído no pacote duas caixas de cerveja e isopor com muito gelo. Também incluímos o nosso taxista no passeio, afinal, deixar o cabra o dia todo a nos esperar não seria legal.

Entramos no pequeno barco. Marcelo na proa, eu o Joarez no meio, Messias atrás e Moisés, o barqueiro na popa comandando um motor de 40hp. Como eu levava minha máquina fotográfica grande, a Nikon D5100, avisei logo que o passeio deveria ser “sem emoção”. Bobagem, minutos depois de sairmos da área da praia – desconfio que por ordem do Marcelo – Moisés acelerou a voadeira que começou a saltitar feito touro de rodeio nas águas do Tapajós. Parecia que estávamos no mar! A água começou a respingar fortemente sobre nós e por sorte Joarez providencialmente levava sacos plásticos grandes para proteger o equipamento. Nunca naveguei em rio tão grande e largo, lembrei-me do nosso Jaguaribe.. o maior rio seco do mundo. Eita Ciará pai d’égua, é água muita!

Navegamos por mais de três horas. Paramos na praia de Ponta de Pedra e nos deliciamos com um peixe assado na brasa chamado charuto e aproveitei para secar a pochete com documentos e o equipamento fotográfico. Contornamos ilhas entramos em igarapés, vimos casas isoladas e igrejas suspensas por palafitas, caminhamos entre imensas árvores, chegando até bem próximo do encontro do Tapajós com o Amazonas.

Joarez escrevendo:

"Esse passeio de barco foi um dos pontos altos na nossa viagem. Muito legal e foi com emoção!! Além de Ponta de Pedra, conhecemos o canal do Rio Jari. Uma espécie de mini pantanal, cheio de pássaros e iguanas. Descemos numa faixa estreita de terra no meio rio, acho que era uma ilha e caminhamos no meio daquele cenário repleto de natureza intocada. O guia pelejou, pelejou, até que encontrou um jacaré - no caso uma jacaretinga - para mostrar que os bichos frequentavam o lugar."

Navegando, tomávamos cerveja e vez por outra era necessário verter o líquido... mesmo todo molhado, numa parada que a voadeira fez bem próximo à terra para o Joarez tentar pescar algum peixe – o cabra levou equipamento de pesca na bagagem! - saí do barco com roupa e tudo para me aliviar da vontade de fazer xixi que já estava na últimas. Mal entrei na água, que era tão profunda que não toquei no fundo, o barqueiro Moisés gritou: - cuidado que aí tem piranha! Putz! Voltei imediatamente para o barco virando-me de bruços mantendo as canelas levantadas para não tocar na água e terminei o que estava fazendo. Curioso que Joares e Moisés tentaram pescar no mesmo lugar e nada beliscou os anzóis...

Joarez escrevendo:

"O Luiz contaminou a água, arre égua!! Estava louco para pescar o almoço, mas foi frustrante. Valeu pela comédia. Nunca vi o Luiz Almeida mais branco e com cara de desespero, quando o guia sentenciou: "Ai tem piranha!!". Pense num cabra que se converteu na mesma hora!! Valha-me Deus!! Eu e o Marcelo quase passamos mal de tanto rir....rsrs "

Marcelo escrevendo:

“Martinha amiga querida, tentei evitar mas Luiz entregou-se as piranhas....
Caaaalma é que ele queria mijar (muita cerva embarcada) e pulou na água.
-Moço pula ai não tá cheio de piranha!!!! Gritou o barqueiro Moisés. "Minino," foi o cabra ouvir Pi... que antes do ranha já tava no barco de novo!”

Ao retornarmos a Alter do Chão, demos uma parada nas praias das ilhas para um relaxante banho naquelas tépidas águas. Retornando à vila, acertamos as contas com o barqueiro, agradecemos o dia e entramos no táxi de volta a Santarém. À noite fomos comer um tacacá, acho que de micro-ondas de tão diferente do tradicional que eu conhecia e apreciava. Marcelo e Joarez, que não conheciam o tacacá, também não gostaram da iguaria tipica servida naquele restaurante metido a chic.

Poeira, Poeira, Poaca!

Joarez, por conta dos telefonemas da mulher informando que o filhote estava piorando de uma gripe ou, sabe-se lá, pneumonia, estava resolvido a entregar sua moto a uma transportadora e retornar de Santarém mesmo de avião. Fomos à concessionária buscar as motos, que estavam prontinhas, e de lá, com apoio de um funcionário, ao escritório de um empresário motociclista que poderia ajudar o Joarez no embarque da moto. Com algumas ligações o camarada apresentou um valor altíssimo para o transporte. Joarez continuou na tratativas para retornar e caso não desse certo nos encontraria na estrada.

Na conversa com o empresário, soubemos da tentativa de sequestro de um amigo dele. Os bandidos queriam 25 quilos de ouro. Tentaram fugir no avião da vítima mas o piloto depois de alçar vôo fez manobras que assustaram os cabras e, ao simular pouso de emergência fez os quatro meliantes fugirem para a mata fortemente armados. Parece que um morreu em troca de tiros.

Marcelo e eu voltamos ao hotel para acerto de contas e arrumação de bagagem. Saímos de Santarém rumo a Rurópolis por volta de meio dia e meia. Na estrada paramos para água e café numa mercearia onde almoçavam juntos policiais bem armados e servidores do Ibama. Os policiais nos alertaram sobre os bandidos refugiados na mata e que eles poderiam tentar roubar nossas motos para se evadirem da área. Ficamos ligados.

Joarez escrevendo:

"O chefe da oficina da Yamaha foi mais uma vez muito prestativo e nos levou a um motociclista local, gente fina, dono de um posto de combustível. Como a situação do meu filhote estava ficando mais séria resolvi mesmo voltar dali. Dois fatores me convenceram a prosseguir: o primeiro uma ligação feita à minha esposa que me relatou uma certa melhora do pequeno - nessa altura os "meninos" já tinham pego estrada em direção à Itaituba; Outro fator de incentivo foi o preço que me apresentaram - R$ 3800,00 para transportar a moto. Somando um e outro lá vou eu atrás dos dois com fome de estrada e sem piedade da 660 revisada. Pouco mais de duas horas depois estava junto deles, pouco antes de Rurópolis. Descobri que a Yamaha de Santarém é mesmo internacional. Não é a que moto passou a falar inglês!! Isso mesmo, velocidade e odômetro em milhas dali em diante...rsrsrs"

Logo após entrarmos na parte da estrada com obras, barro, poeira e lama, Joarez nos reencontrou. O alto custo do retorno a partir de Santarém o fez prosseguir junto a nós até a próxima oportunidade. Chegamos a Rurópolis pouco antes das quatro da tarde. Cedo para pernoitar e um pouco tarde para encarar mais de 150km de poeirenta estrada de barro. Mas nos lembramos que naquela região a noite só estava chegando depois das 19:30h, de modo que resolvemos prosseguir rumo a Itaituba.

Durante toda a viagem, no trecho de mais de 3 mil km sem asfalto, enfrentamos buracos, valas, pontes precárias, desníveis, pinguelas, pedras, pedriscos escorregadios, erosões, lamaçais, chão liso como sabão, armadilhas diversas e muitos etcéteras a mais. Porém não tivemos nenhum trecho tão tenso e perigoso quanto o trecho entre Rurópolis e Itaituba. Toda a viagem foi como uma grande trilha, onde levar um tombo fazia parte do processo, porém, naqueles 150km, apesar de toda cautela, senti que corremos risco de vida.

O pesado tráfego de treminhões, com uma ruma de pneus, levantava uma densa poeira branca que permanecia em suspensão por muito tempo, dando a impressão que pilotávamos sob forte cerração. Era um mundo surreal! Para ultrapassar um caminhão era preciso primeiro enxergá-lo no meio do pó. Depois tentar ver se vinha algum veículo no sentido contrário, o que era muito difícil, com o agravante que muitos dos que trafegavam por ali não acendiam os faróis. Muitas vezes esperamos chegar a um alto para de lá ver se vinha caminhão, para só então passar.

Mas não era só isso; também ficávamos com visibilidade zero ao cruzar com os veículos pesados que vinham em sentido contrário levantando nuvens de poeira. A pior situação era cruzar com um comboio de treminhões! Pilotávamos dentro de mundo onde nada existia a não ser o branco da poeira. Só sabíamos que não estávamos flutuando num éter leitoso por conta dos solavancos das motos num solo que não enxergávamos. A gente seguia em frente mantendo uma linha reta, sem saber se havia valas, pedras, carros parados ou pior, um caminhão trafegando à esquerda da sua faixa de estrada que, diga-se, não era nem um pouco delimitada. Caso sofrêssemos uma quedinha qualquer com a moto, certamente seríamos atropelados por diversos caminhões. Sobrevivemos. Foi tenso, muito tenso!

Durante as combinações antes da viagem, depois que soubemos das histórias da dificuldade para fazer ultrapassagens sob poeira, a famigerada “poaca”, eu e Marcelo fizemos um pacto, foi pacto mesmo e não uma simples combinação, de não colocarmos nossas vidas em risco nessas situações – nada de se meter em roleta-russa e fazer o outro ser obrigado a dar notícia ruim à família. Cumprimos o pacto, Joarez também, mesmo tendo decidido viajar na última hora.

Outro complicador era o sol de proa durante todo o trajeto, que incomodava muito depois das cinco horas da tarde. Os capacetes do Joarez e do Marcelo possuíam pala, amenizava a situação, mas o meu, basculante e sem pala, era sol direto na cara por mais de duas horas. Vez por outra, para tirar o pó da viseira eu passava a luva por dentro e por fora, pois mesmo estando suja, ajudava a melhorar muito a visão.

Marcelo escrevendo:

“No início da viagem por estrada de terra tínhamos pego um trânsito bem intenso de caminhões, mas nada se compara com o trecho Rurópolis/Itaituba, um verdadeiro inferno de Dante na Terra, pois estavam transportando a produção de milho e soja do mato grosso. Era um vai e vem de treminhões infernal, mal podia-se ver a estrada, ultrapassar era um suplício e muitas vezes não sabíamos nem onde estávamos na pista... e ainda era estrada de chão, com valas, buracos e precipícios.... Sinistro.”

Finalmente, depois de uma jornada de 420km, chegamos à balsa para a travessia do rio Tapajós ao por do sol. Do outro lado do rio via-se as luzes de Itaituba. Na travessia, um camarada da Funai nos indicou um hotel e um grupo de jovens vendedores de moto outro, dizendo-nos que este seria muito bom. No primeiro hotel, perto de uma feira na beira do rio, não havia como deixar as motos em segurança, além das acomodações estarem a três vãos de escada. O segundo hotel, o Amazonas, também simples, mas com apenas um vão de escada e em parte residencial da cidade terminou por ser o escolhido. Escada estreita e apartamento triplo muito pequeno. Ao colocarmos a bagagem no apartamento, concluí que seria muito desconfortável os três juntos num espaço tão apertado e resolvi me mudar para apartamento individual. Foi o melhor para todos.

Aliviados do peso da poeira no corpo, vestindo bermudas e chinelos, a pé, fomos procurar um lugar para a refeição do dia. No hotel indicaram um lugar que de longe já desistimos por conta de música barulhenta. Caminhamos em direção a uma churrascaria que vimos quando nos dirigimos ao hotel. Lugar bacana, com ambiente interno e externo. Escolhemos uma mesa do lado externo e avisamos que faríamos a refeição, nas mesas de dentro, depois de umas cervas. Ah, as cervas foram proporcionais ao pó da estrada, muitas!

Tudo começou quando bebericávamos nossas cervejas revivendo o dia de viagem quando uma dupla começou a se preparar para tocar música ao vivo. Imaginei que obviamente seria a breguice da música local em volume de estourar tímpanos. Ledo e grato engano! Os caras, Sildomar e Daniel, tocavam direitinho o repertório do Raul Seixas, Fagner, Zé Ramalho, Almir Sater, Bechior e outros bons da mpb. Quando souberam que éramos cearenses e estávamos em viagem de moto aí que capricharam na cantoria. Pois é, foi uma cervejada e tanto com direito a diversas saideiras. Jantamos, sim, mas nem me lembro direito o quê.

Zona de garimpo

Marcelo desistiu da compra de ouro que pretendia fazer em Itaituba, completamos os tanques das motocicletas (27,64km/l) e fomos para a estrada, que Jacareacanga estava longe, 410km de estrada de chão. Entramos no Parque Nacional da Amazônia (Base Igarapé Tracoá) depois de cerca de 50km de estrada. Poeira, praticamente só a levantada pelas nossas motos. Foram cerca de 150km dentro do Parque, estrada estreita, sem presença humana, ladeada pela selva intocada, cujas árvores as vezes se tocavam no alto das copas formando túneis verdes. Vez por outra uma velha árvore caída forçava desvio na estrada. Araras, macacos e borboletas de um azul fosforescente eram fáceis de ver. Foi um belo momento da viagem. No entanto, seria assustador dar um prego sozinho no meio daquela selva.

Marcelo escrevendo:

“Após Itaituba, tudo ficou mais fácil, diante do que já havíamos passado, era só ficar ligado com as mais de mil valas no caminho. O que foi legal é cortamos mais de 100 km do Parque Nacional da Amazônia, que é um deleite para os sentidos de qualquer vivente.”

A propósito, as distâncias obtidas via Google Maps e Guia 4 rodas no planejamento da viagem muitas vezes não batem com a realidade, pelo menos na Região Amazônica. Por exemplo; o Guia 4 Rodas informa que a distância entre Itaituba e Jacareacanga é de 381km, quando no odômetro parcial da minha moto, zerado em Itaituba, mostrou exatos 410km.

O Parque Nacional da Amazônia foi criado em 1974. Tem área de 994 mil hectares e seu perímetro é de 710km. Ao todo, são 11 Parques Nacionais dentro da Amazônia.
Numa parada para fotos, descanso e admiração do lugar, meu capacete teimou em não abrir a parte basculante. Eu o havia lavado externamente debaixo do chuveiro na noite anterior... tentei diversas vezes e o dispositivo de abertura manteve-se travado. Mas que chato, ter que tirar os óculos e quase arrancar as orelhas para tirar e colocar a droga do capacete na cabeça! Pensei em trocá-lo por outro na primeira oportunidade. Era um bom Nolan, porém com mais de três anos de uso e eu já tinha um semelhante novinho em folha...
Saímos do Parque e, por volta da uma da tarde, chegamos a uma localidade denominada Km180, que consiste num ponto de apoio ao garimpo, com restaurante, mercearia, pista de pouso e venda avulsa de combustível. Amigo Garimpeiro, é o nome do estabelecimento. A refeição é tipo auto serviço, mas há uma placa que diz: PF 15 reais – se repetir é 20. Almoçamos entre os garimpeiros e fizemos perguntas sobre o processo de obtenção do ouro. As respostas eram fugidias. Apenas um deles conversou mais abertamente conosco. Ao lado do balcão do bar, numa parede de madeira, há diversos adesivos de motociclistas que ali passaram. Os nossos também ficaram lá.

Apesar do sonho dourado de Serra Pelada não mais existir, a atividade garimpeira ainda é muito forte na região. Não sei se legalizada ou não – essas coisas a gente não pergunta... O Processo atual é mecanizado, utiliza escavadeiras, bombas de água e esteiras de separação. O garimpeiro moderno não usa mais a antiga bateia e recebe em torno de 17% do que produz. Não entendi como se separa a produção individual, mas o restante fica com o dono do garimpo e maquinário. Marcelo sondou, mas ainda não comprou o ouro que desejava. Pequenos aviões decolavam e pousavam o tempo todo e a hora de vôo custa R$1200,00. Uma van chegou com algumas mulheres usando batom e roupas de cores fortes.

Como não há postos de combustível entre Itaituba e Jacareacanga, nos garantimos colocando três litros de gasolina em cada moto. Gasolina a R$4,50 o litro.

Mais à frente paramos para beber água em um outro ponto de apoio ao garimpo, bem menor que o Km 180. Era mais para apoio à pista de pouso que havia ao lado. Enquanto bebia e refrescava o corpo com a água gelada, conversei com o Genival Ferreira, um garimpeiro expansivo que contava conhecer quase todo o Brasil e já garimpado em todos os garimpos. Simpático e conversador, Genival só mudou o tom alegre quando perguntei se poderia visitar e fotografar algum garimpo por perto. - Com esse teu jeitão de pulíça vai ser meio complicado... foi a resposta dele. Mesmo assim ele indicou um garimpo a 20km dali, onde eu poderia tentar obter permissão para fotografar. Passamos os 20km e não vimos a tal entrada.

Na região do garimpo ouvi umas histórias...

Um cabra estava a três meses no garimpo, adoeceu logo e recuperava-se no fundo de uma rede com uma malária braba. Com muito custo conseguiu transporte até um telefone e ligou para a mulher.
- Três meses sem dá noticias? reclamou a mulher.
- Mulher, escuta, eu tô com a malária!
- Pois fique com essa vagabunda que eu já tô com o João do açougue faz é tempo!


Outro garimpeiro, também com malária, padecendo de calafrios no fundo da rede ouviu de um cabra que se vestia no alojamento enquanto chacoalhava um vidro de maionese cheio de pepitas de ouro: - Hoje eu gasto tudo isso aqui com buceta!
- Apetece um cuzinho não? perguntou logo o adoentado ganancioso que, segundo me contaram, nem viado era.

Mordomias em Jacareacanga

Antes do sol de proa começar a me incomodar chegamos a uma praça cujo destaque é uma réplica da estátua do Cristo Redentor ladeada por dois grandes jacarés. Era o trevo de entrada para Jacareacanga. Enquanto fotografávamos, aproximou-se uma pic-up cabine dupla Hilux branca, último tipo, e o cidadão que a conduzia perguntou: Tem água no Ceará este ano? Tem não, este ano tá uma seca danada por lá! Foi minha resposta. Conversamos um pouco, tivemos indicação de hotel e Joarez agradeceu o convite para ir direto pescar na fazenda do cidadão, que prometeu aparecer no hotel para continuar a prosa.

Jacareacanga foi foco de uma revolta de militares da aeronáutica no início do governo de Juscelino Kubitschek, em 1956. Após 19 dias a rebelião foi controlada e seus líderes presos ou asilados. Posteriormente todos foram beneficiados por anistia ampla e irrestrita, concedida pelo próprio presidente JK. Hoje o local é ocupado por uma base do sistema SIVAM, para o controle aéreo da região.

Chegamos ao hotel São Cristóvão depois dos bem 5km para chegar na cidade, que me pareceu ter uma meia dúzia de umas 4 ou 7 ruas. Era sábado, e na varanda do hotel algumas pessoas tomavam cerveja, que era servida de um balcão no canto da varanda. - Também quero uma dessas!, eu disse antes mesmo de descer da moto. Dona Dé, a dona do hotel, que também bebericava uma cervejinha, me serviu uma lata bem gelada. Saúde!, falei levantando a latinha em direção a meus amigos e demais presentes e entornando o líquido.

Levamos as tralhas para um apartamento triplo amplo e limpo. Joarez começou sua tradicional bagunça e eu, tendo tirado apenas as joelheiras, retornei para a varanda e às cervejas. As pessoas da varanda eram hóspedes e amigos de Dona Dé. Não demorou Marcelo apareceu para me acompanhar e Joarez foi tentar fotografar o sol poente nas margens do Tapajós. A Hilux branca estacionou e Edvaldo, era esse o nome do cidadão que nos recebeu na entrada da cidade, sentou-se à nossa mesa.

Edvaldo nasceu no Piauí, em um lugarejo próximo a Oeiras. Jovem, trabalhou de enxada na mão nos roçados do pai. Migrou para a Amazônia onde passou a viver da venda de mercadorias em garimpos. Hoje, junto com a esposa é o maior comerciante de Jacareacanga, além de possuir fazendas de criação de bovinos da raça nelore para abate e criatório de tambaquis. Nenhum empregado do Edvaldo recebe salário mínimo. “Não quero gente que mereça apenas um salário mínimo trabalhando para mim”, ele diz.

A conversa na varanda do hotel seguiu animada, Joarez já inserido, quando Edvaldo nos convidou para irmos comer uns espetos de picanha em umas barracas numa praça por perto. Marcelo se adiantou e pagou toda a conta da mesa, ato que pareceu-me ter deixado nosso novo amigo contrariado e ao mesmo tempo positivamente surpreso.

De carona na Hilux fomos ao espaço de festas, bingos e barraquinhas de alimentação ao ar livre da cidade. Eu ainda de bota, calça e camiseta empoeirada da viagem. Logo a esposa e filhos de Edvaldo chegaram. Continuamos as conversa, as cervejas, além de alguns excelentes espetos de uma suculenta picanha acompanhados de um bom baião de dois. As picanhas, aliás, eram provenientes da fazenda do nosso anfitrião.

Em viagem de moto, posso estar sujo de poeira, jamais fedido. Acho que era o caso de nós três. Dividindo apartamento com mais dois, na maioria das vezes priorizei tomar um bom banho somente na hora de dormir.

Sempre ouvi dizer que o óleo spray WD40 era bom para muita coisa. Lembro que vi uma lista que circulava na Internet que incluía o óleo em tratamento de tanta coisa que até hemorroidas poderia ser curada com seu uso... O fato é que o Marcelo sugeriu dar uma borrifada de WD40 no dispositivo de abrir o capacete. Não é que funcionou!

Todas vezes que abria o bauleto, a sacola onde estavam as roupas e a máquina fotográfica grande estava revirada, fora da posição em que havia sido colocada. Acho que ela, apesar de bem apertada no baú, muitas vezes dando trabalho para fechar, ficava girando lá por dentro com o chacoalhado constante da moto na estrada. Espero que a máquina e a lente aguentem bem.

Tomamos um delicioso café da manhã feito pela dona Dé, juntamente com alguns hóspedes. Entre eles o médico do município, um sr de certa idade que mora no hotel e um engenheiro de Belo Horizonte, que estava na região prestando serviço especializado no maquinário de garimpo. Dele vimos um vídeo no celular em que a porta do avião em que estava indo a um garimpo se abre em pleno vôo. Segura aí!, dizia o piloto. E o mineiro, sentado sobre galões de diesel mantinha a porta fechada com uma mão enquanto a outra segurava o telefone para filmar.

Antes da oito hora Edvaldo, com um jet-ski atrelado à Hilux nos convidou a ir para as praias do rio Tapajós pertinho dali. Barraquinhas, peixes assado em braseiros, barcos e voadeiras de todos os tamanhos e até uma casa flutuante havia por perto. Também índios que chegavam ao lugar em barcos motorizados e que evitavam trocar olhares com as pessoas. Tipos estranhos esses índios aculturados.

Com todos usando coletes salva-vidas, Edvaldo levou cada um de nós na garupa do jet-sky até um banco de areia no meio do rio. Água de um esmeralda transparente. Depois ensinou Marcelo e Joarez a pilotarem a potente máquina aquática Yamaha de 1000cc. Em cada um ele provocou, com uma manobra mais radical, um tombo na água ante de passar o comando do jet-sky. Ele insistiu para eu ir, mas não estava a fim de emoções fortes, não. Bastava-me a estrada. Nos divertimos bastante banhando-se na suave correnteza do rio.

Aceitamos o convite para almoçar na casa do Edvaldo. Acertamos as contas no hotel, arrumamos as moto para viagem e fomos recebidos pelo anfitrião e família. Em Apuí, nosso próximo destino, acontecia um grande rodeio e, segundo informações, não encontraríamos vagas em nenhum hotel. Edvaldo fez uma ligação telefônica, perguntou-nos se haveria problema em dormirmos numa casa. Não, não havia problema, respondemos informando que levávamos nossas próprias redes de dormir. Deveríamos então procurar um contato no hotel Silverado, em Apuí.

Almoçamos tambaquis na brasa e experimentamos a sobremesa de açaí, uma delícia. Era uma e meia da tarde quando nos despedimos desse camarada gente boa e de sua família. Ficaram de nos contatar ao irem a Fortaleza, planos para meados de 2014.

Abastecemos na saída da cidade. Minha moto rodou 410km e, incluindo os três litros colocados no Km180, coube 10,3 litros no tanque. Fez 30,83km/l. Se não tivesse colocado gasolina extra ainda teria mais de dois litros para rodar. É melhor não arriscar ficar num “prego seco” na Transamazônica!

Apuí dista quase 300km de Jacaré (já íntimo do lugar), e fizemos o trajeto na mesma rotina de balsas, poeira, pedras, buracos e erosões de sempre. Rodamos cerca de 50km e, depois de tanto tempo na Amazônia, finalmente entramos no Estado do Amazonas. A placa que sinalizava a divisa era de um estabelecimento comercial – Magazine do Norte – em Apuí, que por acaso percebi largada na beira do mato. Parei escorei a placa no pneu da moto e registrei nossa entrada no maior Estado da Federação.

Cruzamos o Rio Sucundurí numa balsa e em seguida paramos para descanso e água na vila de mesmo nome. As casas sobre palafitas indicavam o quanto o rio crescia nas cheias. No estabelecimento que entramos, muito limpo e arrumado, havia um cartaz informando: não atendemos do por do sol de sexta feira ao por do sol do sábado. Exigência da seita. Embaixo dos palafitas havia crianças encantadas com filhotes recém-nascidos de uma cadela. Liliane, que nos atendeu, contou que tinha parentes em São Luís. Incentivei ela a viajar perguntando quanto tempo ela não via o mar. Há trinta e dois anos, ela respondeu informando sua idade.

Rodeio e Parapente em Apuí

Na área urbana de Apuí a estrada se transforma numa larga avenida com canteiro central. Chegamos ao hotel Silverado em busca do nosso contato para conseguirmos alojamento, porém a simpática recepcionista do hotel já nos esperava com um bom apartamento triplo reservado exclusivamente para nós – intervenção do nosso amigo Edvaldo, “O Cara”, de Jacareacanga! No entanto, por conta do rodeio, a diária seria de R$300,00. Em datas normais era R$115,00. Fazer o quê? Traga-me uma cerveja, menina!


Boa parte da população de Apuí é de gente que veio da Região Sul. Dedicam´se principalmente à pecuária. Tomam chimarrão e mantêm os hábitos gaúchos que são possíveis manter no calor amazônico.

Era noite de domingo (dia 15/09) e quase tudo estava fechado na cidade. Todos estavam no grande parque agropecuário, onde existe um espécie de estádio para rodeios, vendo peões sendo derrubados por touros. Conseguimos uma refeição marromenos e fomos ao parque do rodeio. Muito carros e muito mais motos estacionadas. Deixamos nossas motos estacionadas enquanto um homem e uma mulher discutiam em altos brados e xingamentos. Antes de nos afastarmos da confusão ainda ouvimos o estalo do tapa que o cabra deu na irada mulher, que caiu de quatro no chão. Continuamos nosso rumo para nos mantermos distantes dessa deprimente cena.

Não gosto de multidões, mesmo assim acompanhei os amigos na ida à arquibancada e assistimos as duas montarias finais. Como o grande vencedor foi peão local, o público comemorou com grande vibração.

Nas barracas em volta do estádio tomamos umas cervejas. Muito interessante aquele povo na Amazônia se vestindo como se estivesse em Barretos. Mulheres de botas, chapéu e calças apertadíssimas, muito arrumadas. Muitos casais, sendo boa partes deles o homem claramente gaúcho e a mulher amazonense, muitos com os filhotes à tiracolo.

Ao sairmos de Apuí rumo a Humaitá, encontramos a dupla que estava sobrevoando toda a extensão da BR230 de parapente motorizado e publicando a cruzada aos domingos no programa Fantástico, da Rede Globo. Paramos para fotografar e eles manobraram em nossa direção. Trocamos cumprimentos acenando e seguimos viagem. Certamente eles nos filmaram. Sabe lá se apareceremos no Fantástico?

A estrada era de barro, porém melhor do que muitas asfaltadas por aí. O problema era que com a velocidade mais alta, ultrapassar veículos, principalmente os com tração dianteira, era receber uma chuva de pedriscos no capacete.

Paramos em outra localidade denominada km 180, só que esse era medido a partir de Humaitá. Almoçamos entre a gauchada, arroz, feijão, farinha, bife e ovo frito. Por conta do calor bebemos um garrafão de coca-cola. Abastecemos as motos ( 25,58km/l)

Uma cancela bloqueava a estrada e um velho índio de calção adidas e corpo com desbotada pintura de genipapo nos apresentou um papelucho típico de conta de bar com o valor de R$10,00 para pagarmos por moto. Pagamos sem criar caso. A cancela foi aberta e seguimos pela denominada Terra Indígena Tenharim – Marmelos, de quase 500 mil hectares, por onde passa a BR 230, que pertence à União e por onde, creio eu, todo brasileiro tem o direito de ir e vir. Há agrupamentos de casas bem construídas no interior das terras dos Tenharims. No entanto, considero a cobrança do pedágio um caso de extorsão consentida.

A propósito de índios. Desde Novo Repartimento as diversas conversas que tive a respeito de índios aculturados durante a viagem me levaram a conclusão de que uma boa parte não passa de párias da floresta. Não plantam, não coletam, não criam. Vivem das mais diversas bolsas, cestas e recursos de Ongs, maioria estrangeira. Acobertam fugitivos e negociam garimpos e corte ilegal de árvores. Quando frequentam festas de não índios, se encharcam de bebidas alcoólicas e causam confusão na certa.

Meu único contato direto com índios foi quando paramos para um descanso e, enquanto Joarez e Marcelo foram banhar-se num belo igarapé de águas com tons de esmeralda, tentei conversar com um indígena que atravessava a ponte com seus dois curumins e pedi licença para fotografar. Muito tímidos. Ele tinha muita dificuldade de se expressar em português, entendi que ele me disse que índio não tinha nome, falou alguma coisa sobre os curumins e guaraná e foi embora. Fui com os curumins até a venda próxima pensando que era para comprar algum produto da floresta produzido por eles. Nada disso, me informou a moça da venda. Eles queriam que eu pagasse uma garrafa pet com 2 litros de guaraná desses mesmos, que a gente conhece. Os meninos saíram felizes com o guaraná de homem branco. Ainda os vi bebendo o refrigerante junto com o pai e uma mulher do outro lado do igarapé.

O entardecer ainda me incomodava muito com o sol de proa e a viseira do capacete sempre empoeirada. Passar a luva, mesmo suja, por fora e por dentro da viseira melhorava um pouco, mas por pouco tempo.

Marcelo escrevendo:

“400 e poucos km de moleza... Deu até para almoçar, parar no meio do caminho e tomar banho em um riacho de água corrente abaixo de uma ponte dentro de uma reserva indígena, onde os índios não tem nome, bom pelo menos foi o que o antropólogo e interprete Luiz entendeu, depois de um difícil diálogo com os silvícolas... no fim só sei que ele acabou pagando um guaraná para o índio.”

Por conta da boa média de velocidade, depois de rodar 427,8km no odômetro da moto – o guia 4 Rodas informa 467km - atravessamos o Rio Madeira e chegamos a Humaitá antes das quatro horas da tarde. Desencontrei-me dos amigos na chegada no Hotel Brasil, indicado por amigos, que era logo após o posto na entrada da cidade em que buscamos informações e eu segui em frente, para o centro de Humaitá. Tentei ligar para o Rogério, do Brazil Riders, nosso contato motociclístico na cidade, mas o número que eu tinha estava errado. Bom, pensei, basta achar o Hotel que encontro os amigos. Retornava numa possível contra-mão quando o Marcelo me encontrou e o Tiago, também motociclista Brazil Riders, nos encontrou.

O pneu traseiro da minha já estava ficando liso na parte central da banda de rodagem. Procurei pneus em duas lojas de peças para motos e só encontrei dos tipo motocross e de marcas desconhecidas. Preferi dar um voto de confiança no velho Pirelli MT40. Os pneus da moto do Marcelo continuavam firmes e fortes. Providenciamos recipientes para a gasolina que iríamos precisar na jornada seguinte.

À noite saímos com o Rogério e o Tiago. Ambos têm Ténéré 660 e em breve sairiam em viagem a Machu-Pichu e Chile. Nos levaram num lugar de mesas na rua, cerveja gelada e um jantar caprichado com fartos e suculentos bifes de filé mignon.

Enfrentando a Estrada Fantasma

Acordamos todos bem cedo pois a jornada era incerta. Terminamos nosso trecho de BR 230 – Transamazônica e iniciávamos o trecho de BR 319, a Estrada Fantasma.

Enquanto arrumava minhas coisas, Joarez deu notícia de que o pneu traseiro da minha moto estava vazio. Putz, quase não acreditei no que vi, pneu arriadão. Usei um reparador instantâneo de pneus, que sustentou boa pressão, deixei o café da manhã para lá, e fui em busca de borracheiro. Os dois que encontrei ainda estavam fechados. No Amazonas há fuso horário de 1 hora a menos. Para mim era seis horas e pouco, mas era cinco horas por lá. Voltei ao hotel para arrumar a bagagem e não atrasar a partida. O pneu mantinha-se cheio, o reparador estava funcionando.

Depois de quase derrubar uma caneca de café que o Joarez deixou sobre o banco da minha moto – ô cabra desorganizado! - fomos para um posto na saída da cidade onde havia borracheiro e onde encontramos o Rogério a nossa espera para despedida. O borracheiro local, com fama de bom profissional, examinou o pneu, testou pito e bordas com sabão e não encontrou sinal de furo. Há mais de hora a pressão se mantinha em 27 libras. Meu dilema: verificamos a câmara desembeiçando o pneu ou me meto numa estrada deserta com o pneu inflado com reparador instantâneo? Aconselhado pelo borracheiro, pedi para colocar 20 libras e fiquei com a segunda opção.

Completamos os tanques das motos (27,85km/l) e enchemos os recipientes de reserva. Levei duas garrafas pet com dois litros de gasolina cada. Também amarrei uma garrafa de 2 litros de água sobre as de gasolina, em cima da sacola que ia no lugar da garupa. No dia em que precisávamos sair bem cedo, começamos a viagem as nove e meia... (oito e meia no horário local)

Um pensamento ficou dentro do capacete; será que durante a noite alguém teria esvaziado o pneu da minha moto?

Rodamos mais 20km nos despedindo da BR 230, que prossegue por mais 200km até Lábrea, com o Joarez sumido atrás, chegamos ao entroncamento com a famigerada BR 319, a rodovia Manaus - Porto Velho, conhecida como Estrada Fantasma. Fotografamos a placa, em péssimo estado de conservação, que informa Manaus a 640km, adentramos a 319 e nada do Joarez aparecer. Preocupados, seguimos adiante. Depois de um pequeno trecho com obras tocadas pelo exército, o asfalto sumiu e o Joarez apareceu.

Aquela tal lendária parada de velhos motociclistas ao encontrar outro em sentido contrário na estrada ainda existe. Aconteceu conosco nos dias de hoje. Três motociclistas vinham em sentido contrário pilotando Bros 150 com bagagem e recipientes para gasolina. Trocamos buzinadas e sinais de luz com o primeiro e paramos para falar com o segundo da fila. No fim, todos se reuniram para uma troca de ideias sobre a estrada, o “de onde vens para onde vais” e desejos de boa viagem.

100km depois de Humaitá paramos para completar o tanque na localidade de Realidade. Coube apenas 3,4 litros (29,5km/l), mas era o último posto nos próximos 450km e gasolina e água eram os dois líquidos fundamentais naquele dia.

Uma estreita faixa de asfalto cheio de rachaduras testemunhava que um dia existiu uma estrada em direção a Manaus. A pujança selva ao lado mostrava que em breve a mata cobriria aquela fenda que a cortava. As sobras de asfalto não passavam de poucas centenas de metros. Entre elas havia terreno acidentado, barro endurecido moldado pelas marcas de pneus de caminhões, muralhas esculpidas na lama seca e muitos pedaços de paus usados para desatolar quem por ali passou na época das chuvas mais fortes. Entre o terreno seco e os pedaços de asfalto, havia os bolsões de lama a lembrar como a estrada fica debaixo de chuva.

Por cerca de meia hora andei forte junto com o Marcelo, divertindo-se como se tivesse numa trilha de final de semana. Vez por outra procurava saber se as garrafas de água e gasolina, que chacoalhavam muito, ainda se mantinham firme nas amarrações. Deixamos, porém, o Joarez muito para trás e, lembrando-me do estado do pneu traseiro da minha moto, além de não querer arriscar uma queda, voltei a calçar as sandalhinhas da humildade e da cautela reduzindo a tocada.

Marcelo escrevendo:

“A estrada realmente é cruel, as pontes de madeira em péssimo estado são um risco iminente ( na semana anterior um motociclista caiu de uma ponte e só foi resgatado um dia depois.) A estrada está destruída (dizem que criminosamente) e não se consegue andar a mais de 60 km/h, é cheia de crateras e muiiiiiiito lisa.
Mesmo com a estrada ruim estávamos num ritmo bem forte e confesso que acreditava que chegaríamos em Igapó-Açu em uma pernada. Com o tempo a estrada vai retirando sua força e o ritmo começa a diminuir para algo em torno de 40/50 km em uma hora. Todos levamos gasolina reserva, eu e Joarez 8 litros (que parecia um homem bomba da Alqaeda) e Luiz 4 litros, e toda ela foi usada. Há posto de abastecimento em Realidade, uma vila q fica a 100 km de humaitá, depois só nos Catarinas 250km à frente ( R$10,00/l) e em Igapó, a 430km. De gasolina estávamos tranquilos.”

As pontes da 319 são um perigo a parte. Todas elas estavam em péssimo estado de conservação e possuíam uma rampa de meio metro nas cabeceiras. Quando se escolhia uma linha de tábuas não se via como seria a saída. Na maioria das vezes havia buracos ou pedras na entrada e saída das pontes, sem esquecer as tábuas partidas, fora do lugar ou mesmo inexistentes. Em nenhuma delas havia qualquer proteção nas laterais, olhar para os lados tentando ver um igarapé era sério risco de queda desastrada. Tenso!

Nos lamaçais, entre as poças barrentas formadas pela passagem de caminhões e a lama do centro ou laterais, o melhor é mergulhar na água, na trilha dos pneus, onde não há lama lisa e grudenta, portanto, com menor risco da moto sair debaixo. Quem esquece desse detalhe, cedo ou tarde, termina por comprar terreninho na selva.

Passava de meio dia, o calor era sufocante e o bafo que vinha na mata dava-me a impressão de estar entre dois caminhões. Só quem mantinha a água gelada na bagagem era o Marcelo. Numa parada para matar a sede ganhei um amassado sanduíche de queijo que o Marcelão, lembrando que eu ficara sem café da manhã, guardou para mim. Grande parceiro!

O calor da Amazônia é um tema a parte. A umidade é tanta que tenho a impressão de que a pressão atmosférica é maior. Todo movimento torna-se mais cansativo. Nunca bebi tanta água!

As torres de transmissão da Embratel, que existem a cada 40km na BR 319, são pontos onde se pode escapar de passar a noite no meio da selva. Paramos em uma delas onde havia diversas pessoas trabalhando na capinagem do terreno. Obtive algumas informações e seguimos adiante. 40Km depois, na torre seguinte, Marcelo e Joarez pararam para colocar gasolina reserva no tanque. Ainda não havia necessidade, mas Joarez, com dois galões nas laterais da moto, temia que sua Ténéré virasse carro bomba iraquiano em caso de queda eventual. Avisei que seguiria em frente, devagar, esperando por eles. E lembrei aos amigos que rodassem com cuidado para não caírem, afinal eu não queria ter que retornar...

Em caso de pane numa daquelas torres, grande parte do serviço de telefonia e internet na região deixa de funcionar.

Pilotei sozinho por cerca de meia hora e nada de avistar os faróis das motos dos amigos no retrovisor. O céu nublado e escuro anunciava chuva. Parei sobre uma réstia de asfalto para esperar e as nuvens escuras derramaram um pouco de água sobre a estrada. O vapor que subiu do asfalto deixou a estrada ainda mais fantasmagórica. Estava com sede e a água que eu tinha estava morna. Avistei um cajueiro na beira da mata com frutas maduras ao alcance da mão. Matei a sede e a fome. Cadê os caras que não aparecem?, me perguntava já beirando a angústia. A solidão na selva é opressora. Não tenho ideia de quanto tempo fiquei parado ali, a sensação é de que foi por muito tempo. Uma onça poderia estar se esgueirando naquela mata fechada, me observando sem que eu a visse... de que adiantaria a faca na cintura? Calçava as luvas me preparando para retornar quando vi, duplamente aliviado, as luzes das motos brilhando ao longe.

O que aconteceu? Não precisei da resposta para concluir que é muito fácil comprar terreno naquela BR.

Joarez, por conta do peso da 660 e de sua teimosia em manter os pneus acima de 25 libras, não demonstrou muita intimidade com aquele chão. Cansou precocemente e fez com que diminuíssemos o ritmo. Andei um bom tempo atrás dele, dando dicas para vencer obstáculos e o incentivando a acelerar. Quase me intoxiquei com os gases da peidorrenta Tènèrè.


Marcelo escrevendo:

“O céu de azul vai a cada hora ficando mais escuro, era o pesadelo se anunciando, mas como estamos aqui para isso...
Choveu e a estrada mudou de péssima pra intransitável, atoleiros mil e a pista mais ensebada que pau de sebo deixou tudo bastante divertido, assim como na atração junina.
Sim, larguei a bunda no chão por duas vezes rsrsrs ( ninguém tem foto). Ambas por puro exagero. De que adianta estar na melhor onda e apenas descer direto sem tentar se divertir... Para quem gosta de trilha essa estrada é diversão, claro que com um sofrimentozinho de tempero.
Pelejamos, mas fazendo 30km em uma hora ficou difícil alcançar uma casa ou pousada para dormir. A noite já se aproximava e a estrada piorava. Às 17hs paramos em uma torre da embratel (elas são cercadas e podem servir de abrigo da chuva e dos animais).
Estão distantes uma das outras a cada 40km, geralmente só com uma corrente enrolada no portão. Essa já estava lotada e tivemos informação que existia um local para dormir a 70 km, o pouso da dona Rosa, ou mulher da saiona (ganhou esse apelido por ser crente).
Um pouco antes de ligar a moto e seguir para o novo destino, olhei para o Joarez e não foi preciso perguntar nada para entender que o cara estava exaurido pelo cansaço, seus lábios, os beiços melhor dizendo (sô nem baitola) estavam da cor de papel..... Vixe! pensei o homi Tá morto. Preocupei- me nesse momento... levar uma 660 nas costa cansa.
Escureceria em uns 15 min quando chegamos na outra torre, a pousada da mulher da saiona estava a 30 km, leia-se 1:30h rodando, no mínimo.
Quando escutei um heroico: Bora seguir pra pousada? Na hora veio a música do maluco beleza a cabeça... "eu não sou besta pra tirar onda de herói sou vacinado sou cowboy, cowboy fora da lei... e o Durango Kid só existe no gibi...”
Fiz só uma pergunta à indagação: imagina só uma coisa, você a noite em plena floresta amazônica leva uma quedinha besta e quebra uma peça da moto, ai teremos que dormir na floresta, sem falar nas pontes... ficamos na torre. É o q eu sempre digo, quem tem cu tem medo kkkk”

Com a chuva, todo aquele chão ficou liso como sabão. Minha moto deu umas pequenas derrapadas mas manteve-se embaixo de mim. Em um momento dei uma parada, desci da moto e esperei o Joarez chegar. Meti o dedo nos pitos dos pneus da moto dele e baixei a pressão de ar mesmo com ele reclamando que estava saindo ar demais, ao que respondi: - Isso é vento, Joarez, não é pó de ouro não pooorrraa! Depois disso a tocada do Juju melhorou substancialmente.

Começava a escurecer quando chegamos a mais uma torre da Embratel. Marcelo e Joarez se encaminharam para o portão e eu, sem alternativa, os segui. Travamos o seguinte diálogo:

Marcelão, por mim seguimos em frente. Há uma pousada a 30km daqui.
Joarez tá cansado, Luizão. Olha os beiços do cabra, brancos que nem defunto.
A gente espera ele descansar...
E passar essas pontes sinistras à noite?
Os faróis das motos são bons... a gente vai mais devagar.
E se alguém cair, furar pneu ou uma moto quebrar alguma coisa?
Ok, você venceu. Falou a voz do bom senso, passamos a noite aqui.

Realmente, seria uma situação muito ruim, para não dizer temerosa, passar a noite desprotegidos no meio escuridão daquela estrada deserta, sujeitos a insetos, cobras, onças e tudo mais que mais se imaginar. Levaríamos entre uma hora e meia a duas horas para vencer os 30km até a pousada da “muié-da saia-comprida”.

O modelo de construção desta torre não permitia que se armasse redes entre as paredes. Havia uma calçada elevada, dois prédios separados e atrás, a torre propriamente dita. Estiquei as sacolas de lona grossa que levei para acondicionar as garrafas com gasolina e fiz minha cama sobre a calçada. Dobrei minha jaqueta e fiz meu travesseiro. Marcelo com muita engenhosidade, depois de umas duas horas conseguiu armar a rede dele usando uma árvore pequena e alguma outra coisa na parede. Joarez dedicou-se a acender uma fogueira tendo para isso lenha molhada e parte da gasolina de reserva.

Marcelo escrevendo:

“Cuidamos logo de fazer uma fogueira ( administrada pelo Joarez), o que teria sido muito difícil se não tivéssemos gasolina, pois a madeira que encontramos estava muito molhada. Complementamos a segurança passamos um cadeado que havia trazido na corrente do portão.

Armamos acampamento, eu de rede e os demais em colchão mola cimento (todos tinham rede, mas o cansaço e a preguiça (segundo o Luiz) impediram maiores invenções.

Lá pela meia-noite, já deitado na rede disse: Luiz, tá ouvindo esse barulho, tá chegando um carro. Era uma camionete e apontou para a entrada de "nossa" torre. Luiz, vai lá vê, disse o Juju. Mais corajoso que jumenta no cio, nosso herói armou-se e foi em direção ao portão e, empostando a voz disse: Boa noite, baixe a luz... sem resposta, boa noite, baixe a luz, repetiu e nada. Joarez vamos lá que o negócio ali num tá bom não e fomos chegando perto até que o cara do carro baixou a luz e disse: Quem colocou esse cadeado aqui? Abra !!! Aqui não tem onde dormir mais não, disse o Luiz. Nós vamos dormir dentro da torre!!!!

Rapaz a torre num era nossa não, era DELES, pois eram os responsáveis pela manutenção técnica da embratel (cortando a comunicação dessa torre cai a internet de Manaus e Porto Velho e sua invasão é crime federal)... A sorte, essa nossa garupeira (entenda-se como anjo da guarda), colocou em nossa torre os únicos técnicos motociclistas da embratel. Conversamos bastante sobre minha viagem ao Peru que eles tinham acabado de fazer, kkkkkkkk. Os caras nos deram água, que aquela altura já estava sendo racionada e ainda fizeram uma galinhada para o Jantar com direito a cerva e tudo, mas infelizmente não podíamos dormir dentro da torre (era querer demais também).”


Marcelo não tinha mais água, nó a bebemos durante o dia. Eu tinha minha garrafa com dois litros e Joarez duas garrafinhas de meio litro. Juntei as garrafas e coloquei toda a água em local visível lembrando aos amigos que, com parcimônia, não teríamos problema de falta de água para beber. Havia uma cisterna com água de aparência não muito confiável. Tirei um grande balde para termos água para lavar mãos, etc.

A fogueira pegou bem e a lenha obtida deveria dar para a noite toda. Dizem que fogueira espanta onças e cobras. Havia uma velha corrente pendurada na grade do portão e Marcelo tinha um cadeado (não disse que o cabra tinha de tudo?). Trancamos o portão a cadeado, passamos uma corda grossa na grade e demos fortes nós.

Comemos os lanches que estavam na bagagem, barras de cereal, chocolates, etc. Bebericamos um pouco de água e fomos esticar as carcaças. Joarez não quis sequer forrar o chão para dormir. O problema é que ele deitou-se muito perto de mim, a dois palmos da minha cabeça. Riégua, tive que me afastar um pouco porque o cabra ronca demais! Havia um suave luar e nos calamos para tentar descansar. Bem que eu gostaria que a noite fosse breve.

Ouvimos o ruído de um carro. Ficamos na expectativa de que passasse direto. Que nada! Parou em frente ao portão e começou a buzinar. Levantei-me, chamei o Joarez para ir comigo, coloquei a camiseta para fora da calça para ocultar a faca na cintura e também uma arma de fogo inexistente. Joarez demorou a se levantar e caminhei sozinho em direção ao portão, com o farol alto do carro não me permitindo ver nada, somente ouvia o motor ligado e algumas pessoas falando agitadamente, sem compreender o que diziam. Guardando uma boa distância tentei o primeiro contato:

Boa noite, por favor, baixem o farol. Falei pausadamente em voz alta.

Dei mais uns passos adiante, parei e repeti um sustenido mais alto:

Boa noite, por favor, baixem o farol!

Fiquei parado esperando. Quando finalmente baixaram o farol do carro, uma Hilux cabine dupla, vi que eram três pessoas e aproximei-me do portão. Joarez e Marcelo caminhavam no mesmo sentido uns 20 metros atrás de mim, dando cobertura.

Falei que estávamos viajando de motocicleta e que naquela torre não havia mais lugar para pernoitar. Um japonês meio aborrecido respondeu que iriam dormir DENTRO da torre. Você são da Embratel? Perguntei com minha ficha a cair. Eram. Eram prestadores de serviços à Embratel. - E quem tem o segredo para abrir este cadeado? Perguntou o japa ainda com certa rispidez. Calma, o Marcelo está chegando e vai tirar o cadeado. Os nós da corda eles já haviam desatado. Putz, trancamos a casa com os donos do lado de fora!

Entraram com a caminhonete, abriram a porta da torre onde há um alojamento completo, com quatro camas. Um deles veio conversar com a gente e nos apresentamos. Andava de moto e morava em Manaus. Falei que era amigo do Shigueo, motociclista que nos aguardava em Manaus. Pronto, o gelo foi quebrado. Eram o Adão, o Rafael (o japa) e mais um que não recordo o nome. Rafael e Adão são pilotos de motocros e fazem muitas aventuras off-road na região.

O donos na “nossa” torre ligaram um gerador de energia que fazia um barulho e fumaça infernais, tomaram diversas providência lá por dentro e depois nos convidaram para jantar na copa/cozinha que havia no interior da torre. Guizado de galinha caipira doada por um índio das proximidades, macarrão tipo fuzili, arroz e farinha. Nada poderia ser tão saboroso naquela situação. Rolou refrigerante, cerveja venezuelana e cachaça mineira de Salinas. Água gelada? Havia a vontade!

Antes de se recolher para dormir, Adão, conhecido como Adão Cross, levou um colchão para o Joarez que estava deitado no cimento e um edredon para mim.

Acordei bem cedo, se é que dormi mesmo. A rede do Marcelo estava a quatro dedos do chão e Joarez puxava sono ferrado. Comecei a despertar os amigos e não demorou o terceiro do grupo da Embratel apareceu nos oferecendo uma jarra de café fumegante que tomamos junto com biscoitos oferecidos pelo Adão.

Adão, que tem muito jeito para consertar coisas, conseguiu colocar no lugar a mola do descanso da moto do Joarez, que havia se soltado num lamaçal dia anterior.

Bagagens arrumadas e motos prontas para a estrada, nos despedimos dos novos amigos com abraços agradecidos e troca de endereços na internet e redes sociais. O que se iniciou com certa apreensão terminou muito bem. A chegada do carro desconhecido no meio da noite que pensamos ser ameaça, terminou em amizade. Espero um dia rever estes camaradas.

Após exatos 30km avistei à nossa direita a modestíssima pousada Terra Rica, da tal “muié-da-saia-comprida”, alcunha dada por suas vestes de evangélica. Mais à frente encontramos um comboio de cinco caminhonetes 4x4 em direção contrária a nossa. Pararam, conversamos rapidamente sobre as condições da estrada em ambos sentidos e nos despedimos. Foram os únicos carros que encontramos até então. Mais 50km de estrada ruim e estaríamos em Igapó-Açu.

Marcelo seguia na frente quando encontramos uma equipe do jornal Valor Econômico, que fazia reportagem sobre o abandono da BR 319. O cinegrafista pediu para aguardarmos um pouco, posicionou uma filmadora no final de uma ponte e se posicionou em outro ponto para filmar manualmente nossa passagem. Reencontramos os jornalistas em Igapó-Açu. A filmagem ficou bem legal e eles nos cederam os arquivos.

Enquanto aguardávamos a balsa para mais uma travessia de rio, fomos ver os botos sendo alimentados pelos meninos do lugar. Igapó-Açu é um lugarejo à margens do rio Preto do Igapó-Açu. Um pequeno casario de madeira, a pousada de dona Mocinha e seu Raimundo, suspensa sobre palafitas com telhado de zinco, muito simples, porém de grande ajuda para quem se aventura na 319.

Durante a travessia, concedemos entrevista aos jornalistas. Foram várias perguntas e respostas. Porém na edição que foi publicada no site do jornal não saiu quando eu falei que a estrada estava criminosamente abandonada e que tive informações de que havia sido criminosamente destruída. Sabe-se lá se por conta do tal “politicamente correto”. Consta que um governador com vínculos no transporte fluvial de cargas mandou destruir a estrada para evitar prejuízos no setor. No entanto, a mesma reportagem mostrou entrevista com pessoa que testemunhou máquinas arrancando parte do asfalto.

A partir de Igapó-Açu a estrada estava em obras. Poeira, desníveis, terra remexida, pedriscos e máquinas, tudo uma maravilha para quem passou os 350km anteriores. Região de pouca floresta e muitas pastagens. Minha única preocupação era que minha moto mostrava reserva há algum tempo e o odômetro parcial mais de 400km e eu não sabia quando teria um posto para abastecer. Vi um placa informando venda de gasolina e entrei no lugar – acampamento desativado da Construtora Gautama. Por garantia coloquei dois litros de gasolina a oito reais no tanque.

Chegamos a Careiro com o odômetro marcando 492,5km a partir de Realidade. Com os 6 litros extras colocados durante o percurso, o tanque encheu com 11,8 litros (27,67km/l). Seguimos adiante para pegar a balsa para Manaus em Careiro da Várzea. Ao longo da estrada, agora asfaltada, muitas pequenas fazendas de gado, todas as casas eram de madeira e suspensas por palafitas. Cenário bem pitoresco. Fiz diversas fotos mentais em preto e branco.

Manaus

Embarcamos na balsa para Manaus com tripulantes que mais desorientavam do que organizavam o posicionamento das motocicletas, com o agravante do piso metálico da embarcação estar todo melecado de óleo diesel. Foi uma travessia longa, porém tranquila. Vimos botos nadando perto de nós, apreciamos o encontro das águas do Rio Solimões com o Negro e ainda deu para tomar uma cervejinha no boteco do andar superior.

Durante a travessia telefonei para o Shigeo e este nos orientou a chegar no hotel indicado, o hotel Brasil, na Av Getúlio Vargas, perto do centro de Manaus.

Saímos da balsa por volta das quatro da tarde e tivemos que enfrentar o caótico e barulhento trânsito de cidade grande. Mesmo assim não foi complicado encontrar o hotel. O pior foi a recepcionista desatenciosa, grosseira e despreparada. A gente chega de viagem braba, cansado, cheio de lama e poeira e a primeira coisa que a mulherzinha fala é que as motos não estavam estacionadas em local permitido. Enquanto solicitávamos alguma coisa ela ficava olhando o computador. Deixa pra lá. Pedimos apartamentos individuais - o meu, da sacada via-se o famoso Teatro Amazonas – colocamos as motocicletas na garagem e combinamos de descer uma hora mais tarde.


Banhados, limpos usando bermudas, camisetas e chinelos, nos encontramos na lanchonete diante da portaria do hotel para umas cervas enquanto aguardávamos a visita dos amigos motociclistas Brazil Riders de Manaus. Joarez estava resolvido enviar a moto por transportadora e voltar para Fortaleza de avião.

Considero o trânsito de Fortaleza muito ruim, mas reparei que em Manaus as pessoas só marcam encontros na dependência do horário do trânsito ou dos gargalos das principais artérias da cidade. Passou-me a impressão de que trafegar em Manaus é pior do que em Fortaleza.

Depois da visita dos amigos manauaras, que se guardaram para a farra do dia seguinte, uma sexta feira, pegamos um táxi e fomos ao restaurante recomendado por eles fazer uma refeição decente que há mais de 48 horas não fazíamos. Comemos um belo Tambaqui assado de fazer gosto. Depois curtimos uma bela noite de sono sem que se marcasse hora para nada.


Na manhã seguinte, Marcelo e eu, acompanhados pelo Eduardo, amigo indicado pelo Shigueo para ser nosso cicerone, fomos caminhar pelo centro da cidade, visitar o porto, o mercado de peixes com sua imensa fartura, onde muita gente circulava comprando e vendendo pescados com impressionante variedade de espécies, cores, tamanhos e formas de comercialização. Nunca via tamanha fartura de peixes!

Nesse tempo Joarez estava cuidando dos trâmites para nos abandonar.

Depois fomos aos corretores de viagens para negociar nossas passagens para Belém e transporte das motocicletas. Marcelo, o negociador oficial cuidou disso. Foram muitas consultas a diversos vendedores, pechinchas mil, blefes e malandragem. Até que finalmente fechamos em mil reais o transporte das motos e camarote para dois com banheiro privativo. Pagamos, recebemos a papelada com a recomendação de embarcarmos as motos por volta das oito horas da manhã seguinte, sábado. A partida seria por volta do meio dia, informaram-nos O navio era o Liberty Star.

Gostaríamos de ter passado mais um dia em Manaus, porém só há navios fazendo o percurso para Belém aos sábados e quarta feiras... Também não se tem como escolher navio; ou é aquele ou aquele é. Outro só na quarta!

Resolvida a parada da passagem, Eduardo, nosso paciente guia, pilotando o Jimny do Shigueo nos levou para almoçar numa chácara muito bacana, um pouco distante da cidade. Só deu para nos despedirmos do Joarez por telefone. Bom amigo, divertido e bagunçado parceiro de estrada!

Para a noitada combinei de me encontrar com o amigo, Salama, fotógrafo de olhar preciso, motociclista de boas lembranças e, nas horas vagas competente médico acupunturista, que eu conhecia virtualmente através do blog de fotografia do jornal O Globo, o fotoglobo, juntamente com a turma de motociclistas. Sugerido o boteco, chegamos lá e as cervas custavam mais de vinte contos a ampola.

Em outro boteco cheio de seguranças e tal deu certo. Parte de música e dança separada, muitas mulheres bonitas aparentemente disponíveis, bom rock, boa mesa e boa conversa. Acho que foi possível unir viagens de moto com fotografia nos altos papos que tivemos. Fomos devolvidos ao hotel lá pelas tantas da madrugada. Bom demais!

Navegando no Rio Amazonas

Tomamos café da manhã e levamos as motocicletas sem bagagem ao porto para o embarque. A burocracia portuária demora um tanto, aguardamos sob forte calor os trâmites e, meia hora depois, finalmente estávamos com as motos no píer de embarque. Muita gente aparece se oferecendo para ajudar a colocar as motocicletas a bordo do navio, malandros e mais malandros pedindo 50 reais para ajudar. Marcelão, o negociador, entra em cena e aceita pagar 10 reais... Quando vimos a rampa de madeira ligando o cais ao navio entramos sem a ajuda de ninguém. Imaginem a cara de contrariedade do Marcelo pagando os malandros!

Recepção fria por parte das duas tripulantes encarregadas do recebimento da documentação das Ténérés. Havia grande carga de cebolas e outras sacarias a ser descarregada do navio.

Disseram que nossa passagem era para camarote sem banheiro privativo. Ôpa, o corretor nos vendeu com banheiro! Só pagamos porque era com banheiro! As tripulantes antipáticas e irredutíveis cruzam os braços até que Júnior, um camarada de óculos escuros da moda, com jeitão de cowboy, o dono do Liberty Star, manda que elas nos forneçam um camarote com banheiro. Camarote é sem banheiro. Suíte é que tem banheiro... A contragosto, tivemos que deixar os documentos das motos com as tripulantes. Norma da navegação.

Falaram para a gente embarcar por volta do meio dia e que o navio zarparia às 13:00h. Com a chave da suíte 18 nas mãos retornamos ao hotel de táxi, para arrumar bagagem e acertar contas. Ainda de táxi, retornamos ao porto com toda a tralha que estava sobre as motos no porta malas, chegamos ao porto na hora determinada. Novamente passamos mais de meia hora na burocracia portuária para o táxi ir até o píer. Um carregador de idade já meio avançada se ofereceu para levar toda nossa bagagem até o camarote. Já sabendo da malandragem do lugar, perguntamos quanto cobraria. Melquisedeque, o carregador não malandro, disse que aceitaria o que pagássemos. Levou toda nossa tralha de uma vez só e ficou deveras satisfeito com o que o pagamos.

Instalados no camarote, ou melhor, suíte 18, apertadissimamente instalados para ser mais preciso, Marcelo escolheu a cama de baixo do beliche e tentamos colocar alguma ordem na arrumação das bagagens naquele exíguo espaço, metade no chão metade dividindo a cama com a gente. Pelo menos o ar-condicionado era muito bom. Circulamos pela embarcação e percebemos que teríamos tempo para almoçar nas redondezas do porto. Fora da área portuária almoçamos, compramos água, revistas e algumas lembranças de viagem compatíveis com nosso meio de transporte.

De volta ao navio, Marcelo foi tirar um cochilo e eu fiquei a ver o movimento no porto e na embarcação, fazendo alguma foto aqui e ali. Caminhões, carregadores braçais, cargas de todo tipo sendo colocadas ou retiradas das diversas embarcações atracadas, gente armando redes de dormir nos salões do navio, pequenos barcos transitando entre os maiores, por fim, muita movimentação à minha volta. O Liberty Star tem três andares; o primeiro piso e o porão para carga, a enfermaria e a cozinha também ficam no primeiro piso. No segundo andar fica o restaurante de bordo e o salão vip, onde se arma redes de dormir em ambiente com ar-condicionado, no terceiro andar fica o salão para redes sem ar-condicionado, os camarotes, a cabine de comando na proa, e na popa, o bar e lanchonete. Em todos os pisos há camarotes especiais para a tripulação, alguns amplos e com cama de casal – dever ser o do dono do barco.

O estado geral da embarcação não era bom. Parecia que faltava manutenção geral, da pintura às instalações sanitárias. Mas também não estava caindo aos pedaços. Soube que cada viagem, entre carga e passagens, rende cerca de R$180 000,00. O Liberty Star possui dois grandes motores de 400 hp cada, mais outro motor que aciona o gerador que abastece de eletricidade toda embarcação, incluindo dezenas de aparelhos de ar condicionado.

Chegou quatro horas da tarde e nada do navio sair do cais. Ainda descarregavam sacas e mais sacas de cebola. Nossas motos estavam bem amarradas e protegidas por pedaços de papelão. Fui ao bar e tomei um grande susto: cerveja Bavária ou Nova Schin a seis reais a latinha! Égua! Vou a falência, pensei.

Anoitecia quando o navio finalmente zarpou. Fiquei observando o movimento no rio e tentando fazer algumas fotos do crepúsculo. Conhecemos o Edson, motociclista do interior de São Paulo, Poranga, cuja V-Strom 1000 estava amarrada ao lado das nossas motos. Também fizemos amizade com o “Lôrim”, um cearense figuraça que comercializava com sucesso roupas de grife proveniente das Guianas.

Resolvemos jantar no restaurante de bordo. Marcelo teve o prato literalmente tomado pela azeda tripulante que dizia ter que ser ela a fazer o prato. Pagamos R$15,00 e não podemos nos servir? Quando ela colocou grosseiramente arroz e macarrão no prato, o Marcelo disse que não queria o macarrão. Se olhar de ódio matasse o Marcelão estaria fulminado naquele momento. A galega antipática teve que refazer o prato a muito contragosto. Quando chegou minha vez fui pedindo duas colheres e meia de arroz, meia concha de feijão sem caldo, bifes sem gordura e com o molho de cebola por cima, etc, exigindo precisão da cabrita, que ficou a viagem toda com raiva da gente.

Como sempre temos notícias de naufrágios trágicos nos rios da Amazônia, combinei com o Marcelo que caso houvesse qualquer emergência, movimento estranho, alarmes, etc, buscássemos a cabine de comando, na proa, que ficava no mesmo andar e bem perto do nosso alojamento. Pois ali haveria gente experiente. Que mantivéssemos distância do salão onde ficavam as redes e a maioria dos passageiros, pois certamente haveria pânico no local.

A dormida não foi boa. Na parte superior do beliche se eu sentasse batia a cabeça no teto. O colchão forrado com plástico parecia ser um inflável com pouco ar, afundava no meio e o lençol saía do lugar com facilidade. O ar-condicionado gelava minhas canelas e a lâmpada no meio iluminava meu umbigo de tal forma que para ler um pouco tive que usar a lanterna de testa. A leitura que levei para bordo foi 1942, do João Barone, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Muito bom!

Considero que convivemos muito bem dentro daquele cubículo. Ajustamos o ar-condicionado, harmonizamos os horários de uso do banheiro de modo a manter o conforto interno, e cada um respeitou o ritmo e os horários do outro. Eu praticamente só ficava no camarote para dormir à noite, evidentemente com algumas cervas no couro para ajudar a puxar o sono.


Subversão a Bordo

Domingo. Antes do dia raiar fui para a proa apreciar o momento. O comandante do Liberty era um homem de poucas palavras, cada resposta tinha que ser extraída. Falava muito baixo e parecia ser uma pessoa tristonha, não o vi sorrir. Já o imediato, mais idoso, me pareceu mais acessível e feliz com o que fazia. O “segundo escalão” composto pelos pilotos, Márcio e Kin, e o cozinheiro, Willie, além de outros tripulantes, só começaram a nos ver como gente ao longo da navegação. E isso melhorou muito nossa vida a bordo. Afinal, foram cerca de 80 horas de viagem.

O café da manhã de bordo, R$5,00, compunha-se de pão com queijo frio, café, leite, e um mingau de arroz que refuguei na primeira colherada. Desisti tomar café da manhã e comparecia ao restaurante apenas para filar um cafezinho preto, permitido por uma jovem tripulante com mais de seis meses de gestação, que se mostrava mais amigável que a galega do bucho caído.

Quis conhecer a casa de máquinas e pedi autorização ao comandante. Ele disse que eu procurasse o Batista, o chefe das máquinas. Encontrei o Batista próximo à descida para os motores, com protetores de ouvido por conta do barulho infernal. Tem que falar com o comandante, disse o rabugento Batista. Já falei e ele disse que o procurasse, respondi gentilmente. Tem que falar com o dono do navio, com a capitania dos portos, com o ministro da marinha... ele ia falando e eu fiz um gesto dizendo que não queria mais ver os motores. Afastei-me e, mais tarde, quando o plantão da casa de máquinas mudou, sem o Batista por perto, desci e fotografei todo aquele ambiente abafado, barulhento, cheio de tubulações, medidores diversos e enormes motores.

Ao longo da viagem o navio faz diversas paradas nos atracadouros das cidades ribeirinhas para entrada e saída de passageiros e para carga e descarga. Isso geralmente demorava entre meia e uma hora. A parada em Santarém, no meio da manhã, seria bem mais longa, portanto, aproveitamos, em, Marcelo, o paulista e o Lorim, mais dois tripulantes, para desembarcar. Em um táxi fomos aos mercados da cidade, compramos muitos peixes – mapará, curimatá, tambaqui, etc - caixas de cerveja que foram contrabandeadas para bordo (era proibida a entrada de bebidas alcoólicas a bordo e havia monopólio das skins a seis reais...), farinha e carvão. Com ajuda do “segundo escalão” e demais do lado bom da tripulação, escondemos nossas cervas no freezer da cozinha, acendemos uma churrasqueira no primeiro piso do navio, área de carga, e tivemos um domingão muito animado, com fartura de peixes na brasa, aquela saborosa farinha paraense e uma cervejada e tanto. Bom demais!

No meio da farra, Marcelo derrubou acidentalmente minha máquina grande, a Nikon D5100 com lente 18-300mm, que estava dentro da sacola e sobre a proa de uma voadeira embarcada. Quedinha besta, mas... Tentei de todas a maneiras ao meu alcance, porém a máquina não mais funcionou. E logo ela com a qual eu esperava fazer as melhores fotos das paisagens e pessoas ribeirinhas... Felizmente, soube depois do reparo da máquina em Fortaleza, que a lente não foi danificada. O que aconteceu, segundo o técnico, foram parafusos do espelho que se soltaram ou quebraram, e que a queda apenas foi a gota d’água para o fato. Seja como for, foi frustrante não fazer as fotos que tanto esperava...

Ainda em Manaus, o Marcelo havia me alertado que o escapamento da minha moto estava balançando mais do que o normal. A solda do suporte da ponteira havia se partido. Com uma corda fina amarrei o escapamento na estrutura do bagageiro e assim ficou pelo resto da viagem. Não iria perder uma manhã toda em Belém apenas para soldar aquele suporte.

Durante a navegação conhecemos um subversivo de verdade, diferente de nós que éramos apenas uns desordeiros... Sr Orlando, setentão cujo sonho maior é criar os Estados de Tapajós, Carajás e Solimões, para depois separar a Amazônia do Brasil fundando a República Sustentável do Amazonas. O cidadão falava e falava sobre os erros a séculos cometidos pelo Brasil na Região, sobre fáceis soluções para problemas complexos numa interminável conversa. Eu, cansado de tantas elocubrações, perguntei: - E os políticos desse novo país e estados seriam os mesmos que vocês têm aqui? A partir daí seu Orlando preferiu ocupar os ouvidos do paulista Edson.

A Amazônia tem mesmo muitos problemas. Mas não será com separatismo que eles serão resolvidos. Vi miséria, muita miséria por onde passei. Porém uma miséria diferente da que logo imagina um nordestino, aquela miséria cujo maior componente é a fome. Não, a miséria da Amazônia é uma miséria sem fome, com fartura de alimentos até. A miséria de lá é a miséria do isolamento, da falta de estrutura, do difícil acesso ao estudo, da precariedade de atendimento médico ambulatorial ou hospitalar, a miséria das doenças endêmicas e da impossibilidade de progredir. Fiquemos por aqui que eu não sou o seu Orlando...

A segunda feira teve uma manhã longa. Acomodei-me na proa para leitura e observação da paisagem. Quando o sol chegou onde eu estava me mudei para a popa, onde continuei a ler apesar do barulho dos motores e da música brega do bar comandada pelo Tom. Em todas as paradas busquei captar um pouco da vida das pessoas através da fotografia. Em outras, como Parintins, descemos e fizemos lanche fora do navio. Suprir na geladeira da cozinha com caixas de cerveja nunca era demais.

Três noites dormindo naquele beliche. Chegou a terça feira, último longo dia da viagem e a pergunta no ar era: A que horas chegaremos a Belém?

O rio Amazonas chega ao mar através de uma imensa ramificação de canais. Nestes canais muitas crianças remavam dezenas de pequenas e frágeis canoas para, aproximando-se do navio, ganharem sacos de salgadinhos, tipo chilitos, que os passageiros jogavam de bordo. Há histórias de acidentes fatais envolvendo essas crianças. Meninos e meninas com menos de dez anos de idade agitavam os bracinhos para cima e para baixo no afã de ganhar uma guloseima. À tarde a luz estava perfeita para fotografar esse pitoresco hábito. Como senti falta do foco rápido da minha Nikon! Ao mesmo tempo que observava e registrava as canoas com as crianças, sentia um aperto no coração com a situação destes brasileirinhos tão isolados arriscando a vida por um saco de salgadinho barato. Mesmo longe da margem, ciscos caíam nos meus olhos.

A que horas chegaríamos em Belém? Essa era a pergunta sem resposta durante toda aquela terça feira. Ninguém da tripulação tinha certeza de nada. Falou-se na opção de desembarcarmos em Barcarena, distante 120km de Belém e com uma balsa no caminho. Encilhamos as motos com as bagagens deixando-as prontas para partir. No entanto, anoiteceu e o Liberty Star não parou em Barcarena. Depois de angustiante espera, o navio começou a atracar em Belém as 22,00h. Estávamos decidido não passar mais uma noite naquele camarote e queríamos desembarcar a moto imediatamente. Impossível, a maré estava baixa, deixando grande desnível entre o barco e o cais e, mesmo que desembarcássemos, a burocracia portuária não liberaria as motocicletas antes do início do expediente do dia seguinte.

Caso desembarcássemos sem as motos, no dia seguinte não poderíamos adentrar o cais e dependeríamos terceiros para nos entregar as motocicletas. E agora?

Quando os passageiros, comandante e imediato desembarcaram, nossos amigos do segundo escalão encontraram a solução para nós e os demais que estavam com veículos a bordo. Desatracaram o navio e o conduziram a um atracadouro clandestino, num lugar esquisito, escuro e cercado de construções de madeira sobre palafitas - sinistro. Desembarcamos a pé e aguardamos a maré encher tomando cerveja e comendo linguiças num boteco meio barra pesadíssima juntamente com nossos amigos e tripulantes.

Era madrugada quando a maré chegou a um nível que possibilitava a colocação das rampas de madeira para o desembarque dos veículos. Ao posicionar as pesadas pranchas um tripulante caiu na água escura entre o barco e o atracadouro. Temendo que ele tivesse batido a cabeça em um pilar de madeira, cheguei a fazer o gesto de soltar a pochete para saltar e ajudar o camarada, porém, antes de qualquer outra ação, ele emergiu rapidamente da água e, mais rápido ainda, jogou seu telefone celular para cima, salvando-o. Estava bem, apenas molhado. Logo jogaram uma corda e o cabra foi içado.

Nos despedimos dos amigos prometendo manter contato. Esgueirando-nos por ruelas sombrias, pilotamos até encontrar as avenidas desertas, pegamos um rumo e, com a orientação obtida em viatura policial, chegamos, por fim, ao hotel Ferrador as duas da madrugada. O dono, que ainda estava acordado, nos recebeu muito bem e fomos instalados em um confortável apartamento.

Belém

A quarta feira foi um dia cheio em Belém. Depois do café no hotel, montamos nas motos e fomos ao Mercado do Ver-o-peso, com suas cores cheiros, tucupis, pimentas e óleo da bôta. Caminhamos pelas ruas estreitas. Visitamos o Mercado de Carnes, um tanto vazio de gente, mas com bela estrutura antiga totalmente reconstruída. Num calor da peste comemos delicioso e legítimo Tacacá em carrocinha de rua – esse sim, o Marcelo gostou. Encontramos Alex Reis velho amigo motociclista. Visitamos o Mangal da Garças, lugar muito bacana, mas onde tudo é cobrado por qualquer olhadela, além de estacionamento para moto igual ao de carro. Para compensar, o buffet para o almoço, a R$54,00 por pessoa, estava espetacular.

Ao final do dia visitamos a Academia de Karatê do Machida, pai de campeão mundial de MMA. Assistimos a uma aula do grande Sensei e, ao final, fomos muito bem recepcionados pelo famoso mestre, um dos grandes do karatê no Brasil. Um detalhe; por conta do calor, toda a academia, inclusive o dojô, é refrescada por ar condicionado.

À noite fomos à Estação das Docas, lugar muito bacana e bem frequentado, além de caro. Só não gostei da cerveja artesanal feita por lá. Na tentativa de inovar e regionalizar a sagrada bebida, estão fazendo cervejas com um forte sabor que mais me lembra casca de árvores. Era um pouco tarde para nós que viajaríamos dia seguinte quando o Lorim, cearense que conhecemos na viagem de navio, chegou com animados familiares à Estação das Docas. Ficamos mais um pouco, assistimos o belo Carimbó da Vitória Régia, tomamos umas saideiras e tivemos que nos despedir dos amigos quando já passava das onze da noite.

Não pude deixar de notar, porém, de maneira geral, as pessoas nas ruas e mercados de Belém me pareceram bem mais simpáticas e acolhedoras do que as de Manaus.

De Volta ao Nordeste

Saímos cedo de Belém, por volta das 07:30. Mesmo assim encontramos um trânsito travado em muitos quilômetros da BR316. Abastecemos as motos na saída da cidade (24,66km/l). Acho que somente depois de uns 20km podemos voltar a sentir o gostinho de estrada, pista dupla até Castanhal, que estava em falta a seis dias, desde a chegada em Manaus.

Estrada boa, movimento mediano. As Tenerinhas com seus 95/110km/h tornavam a estrada monótona. Procurei fugir da sonolência cantarolando as poucas músicas que lembro as letras – rolou muito Os Seus Botões, do Roberto Carlos. Vai que era saudade da namorada!

Após 160km rodando, paramos em Capanema, para água, café e gasolina. Minha tenerinha fez 25,31km/l. Uma coisa que rompia brutalmente a monotonia da estrada era ser ultrapassado por treminhões: você esgoelando a motinha lá pelos 120km por hora e aquela montanha de ferro ao teu lado!

Mais uma ruma de quilômetros, mais uma ruma de lombadas a cada aglomerado de casas, entramos no Maranhão ao atravessar a ponte sobre o Rio Gurupi. Fizemos nova parada para espichar o esqueleto, água, pipi, café, cigarro, bate-papo e gasolina em Maracaçumé. 24,96km/l.

“Chovia lá fora e a capa pendurada, assistia tudo, não dizia nada. E aquela blusa que você usava, num canto qualquer, tranquila esperava...” Com o arremedo de Roberto Carlos troando dentro do capacete fomos bebendo quilômetros de estrada mal sinalizada, poucas curvas e muitos campos de pasto nas laterais. Rodamos sem parar por mais de duas horas até que, após 220km de chão chegamos em Santa Inês. Em um posto BR com ótimo atendimento abastecemos as motos e combatemos o calor e a fome com picolé, coca-cola e pastel. O consumo da Tenerinha na tocada na faixa dos 7 mil giros mantinha-se estável em 25,04km/l.

Chegamos a Bacabal, onde prevíamos passar a noite, por volta das quatro horas da tarde. Cedo para parar. Enchendo a carcaça de água, procuramos nos informar sobre hospedagem não muito à frente e as informações não foram consistentes. A não ser para Caxias, 300km adiante, um pouco longe para o horário. - Certamente rodaremos à noite, topa? Perguntei ao Marcelo. Ele topou.

Começou o lusco-fusco, entrou a noite e nós na estrada. A guerrilha dos faróis fez com que a monotonia do dia ficasse para trás. O problema era que a moto do Marcelão estava com o farol desregulado, com o facho da luz baixa voltado para o alto, ou seja, ofuscava em qualquer posição. Se ele ficava na minha frente, os que vinham em sentido contrário nos metralhavam com dezenas de ofuscantes luzes. Se ficava atrás queimava meus olhos pelos retrovisores. Fizemos uma pausa para café e tentamos ajustar o farol da tenerinha vesga. Marcelo, como sempre, tinha a ferramenta ao alcance da mão. O problema era que o comprimento da chave philips, ou estrela, não permitia o ajuste. Vamos embora assim mesmo!

Era perto de oito da noite quando chegamos no hotel que nos indicaram em Caxias, o hotel Padre Cícero, na beira da estrada, bacana, bem arrumado e com garagem fechada. Rodamos quase 300km desde Bacabal e totalizamos a pernada do dia em 840km. Uma jornada e tanto com moto de 250cc. Marcelo, o negociador oficial, foi falar com o recepcionista do hotel e conseguiu um bom desconto. Dessa vez, além da lábia, Josué, o recepcionista, que é guitarrista em banda de rock, notou imediatamente o “Iron Maiden” inscrito na fita de pendurar a chave da moto que o Marcelo levava no pescoço. Fizemos boa refeição no restaurante ao lado do hotel e fomos descansar. Teresina estava logo ali, a 75km. Estávamos com gás para ir, mas entrar em cidade grande no meio da noite é estressante demais.

Café da manhã tomado, motos carregadas, fomos abastecer. Minha moto fez 26,30km/l no trecho Santa Inês/Caxias. Acabou o óleo para as correntes. Comprei 1 litro de óleo SAE 120, fiz um pequeno furo no lacre da embalagem e melecamos as correntes antes de entrarmos na estrada. Começamos a jornada enfrentando um movimento nervoso na rodovia. Um velho conduzindo imprudentemente uma camionete, alguns carros e pequenos caminhões apressados e um imbecil em sentido contrário que, numa lombada quis ultrapassar me tirando da estrada. Sinalizei com o farol, gesticulei e nada. Afastei a moto para o canto, claro, mas sem deixar de tentar quebrar o retrovisor do carro do corno com um “Tetsui” ( martelo), murro de cima para baixo, que lamentavelmente terminou por pegar na porta do carro. Marcelo também partiu para a briga naquela manhã, com um ciclista. Porém, como somos da paz, não matamos ninguém.

Marcelo escrevendo:

“O "Filadaputa" do ciclista, que com certeza tem "alma de carreta", colocou quase meia bicicleta na via e mesmo vendo meu aperreio em me espremer entre os carros e a sarjeta (na esquerda) permanecia imóvel. Ah é bichãozão grandão? Pensei eu e rapidamente baixei meu descanso de pé (aquele que fica fixado ao protetor de carenagem) e........bufo!!! Bati na ponta do pneu da bicicleta. Foi só a conta prá derrubar a "carreta" no chão.”

Atravessamos um trecho feio, barulhento, confuso e sujo de Timon e, cruzando a ponte sobre o Rio Parnaíba, entramos no Piauí, em sua capital Teresina. Contornamos Teresina através de um bem sinalizado anel viário que passa por uma bonita região de chácaras e fazendolas. Todo aquele movimento deve ter tirado o sossego de quem tem sítios para finais de semana na região.

Havia semáforos e muito movimento nas ruas das cidades em volta de Teresina. Ao cruzar um desses aglomerados perdi de vista o Marcelão, que ia apressado na frente. Rodei uns 80km sem vê-lo. Passei por Campo Maior vendo aquela suculentas mantas de cabrito expostas à venda sem caber na minha bagagem e nada do parceiro. A vontade de fazer um xixi aumentou e resolvi parar assim mesmo. Só vim reencontrar o cabra uns 50km adiante, em Capitão de Campos, onde abastecemos (25,77km/l). A proximidade e o cheiro de casa faz com que o peso da mão direita aumente.

O calor piauiense é forte. Diferente do calor amazônico, pesadão e úmido, mas é calor do mesmo jeito e dentro das nossas jaquetas funcionava uma sauna.

28km após Capitão de Campos, pertinho de Piripiri, saímos da BR 343 e entrando à direita numa estrada estadual e 48km depois chegamos em Pedro II, cidade piauiense de clima ameno, temperatura entre 16 e 30°, localizada na Serra dos Matões, com altitude de 603m e população em torno de 40 mil habitantes. A extração e lapidação da opala com a respectiva fabricação de joias é a principal atividade econômica da cidade. Tem um povo muito simpático e muitas belezas naturais. Marcelo sugeriu ficarmos numa pousada com piscina.

Paramos para perguntar e uma moça bonita, com uma cicatriz no belo rosto, indicou a Pousada Rústica. Como a moça estava estava sobre uma motocicleta, perguntei se a indiscreta cicatriz teria sido causada por acidente de moto, e se faltou capacete para proteger. Foi acidente com moto, ela confirmou, e que estava sem o capacete, sim, porém ela estava a pé quando foi atropelada por uma motocicleta...

Na Pousada Rústica fomos recebidos pelo Áureo, dono do lugar com a esposa Marilene. Ficamos cada um em seu apartamento, rústicos, porém confortáveis, limpos e acolhedores. Diária de R$30,00 por pessoa! Antes mesmo de desarrumar toda a bagagem, e como passava um pouco das 11 horas, vesti uma sunga e fui para a piscina reidratar a carcaça com cervas geladíssimas. Engraçado, Marcelo queria uma pousada com piscina, mas não me lembro dele dentro d’água...

Descansados, saímos para almoçar e conhecer o mercado de joias de opala, para presentearmos nossas mulheres. Marcelo inventou de cortar o cabelo num salão que não aceitava marmanjos, só mulheres. O cabra insistiu mas mandaram ele ir aparar a pelagem num tal de Xuxa. Só o que faltava, cortar cabelo com baitola, pensei. Num é que o tal Xuxa não tinha nada de viado? Era bicho bruto mesmo. Aproveitei e mandei passar a máquina nos cabelos que teimam em brotar em torno das minhas orelhas.


Fomos às compras. De loja em loja de artesão em artesão pesquisamos produtos e preços. As joias com opalas eram mais caras do que imaginávamos. Mesmo assim fizemos boas compras e creio que agradamos as destinatárias.

Jantamos pizza nas proximidades e, depois de uma ótima noite de descanso, tomamos café da manhã com os proprietários – éramos os únicos hóspedes – e cuidamos das motos e das bagagens para o último dia de viagem. Prometendo retornar um dia, nos despedimos do casal e fomos para a estrada. Resolvemos fazer um caminho alternativo onde se entra no Ceará pelo município de Poranga.

Costelas de Vaca na Terra de Ninguém

Rodamos 35km por ótima estrada, com boas curvas e belas paisagens até que chegamos à placa que anuncia a divisa do Piauí com o Ceará, onde o asfalto sumiu. O trecho serviu como despedida da poeira e das costelas de vaca que pegamos durante a maior parte da viagem. Afinal, o que são 40km de estrada de terra para quem já rodou mais de 3000km desse jeito? O problema era que a trepidação causada pelas constantes e salientes “costelas de vaca” desse trecho causavam tanto incômodo que pilotamos quase o tempo todo em pé.

Observando depois o mapa do percurso, percebi que aquela é a região onde falta se definir se pertence ao Ceará ou ao Piauí – ou seja, Terra de Ninguém!

Depois de tanto vermos água na Amazônia, nosso cenário naquele momento era de desolação, seca e mata de caatinga esturricada, sem uma poça de água sequer. Eita sertão nordestino!

Em Poranga, no Ceará e de volta ao asfalto, sentimos uma brisa fresca quando, pelas nove e pouco da manhã já deveria estar calor. Aqui deve ser serra, comentamos numa parada para fotos. E é serra mesmo, possivelmente uma linha de crista da Ibiapaba, numa altitude de 750m. Descemos um bom tempo por estrada mal conservada e sinuosa até que, sob forte calor chegamos a Ararendá, depois Catunda e finalmente Santa Quitéria, onde paramos para lanche e abastecimento das motos (25,38km/l).

Impressionante até para mim, que já conheço bem o Nordeste, a secura generalizada vista da estrada. Como pode um vivente sobreviver naquela terra seca e pedregosa? Ô povo teimoso esse nosso sertanejo!

Em Canindé nosso amigo Paulo Walraven nos aguardava com sua BMW F800GS. Depois dos abraços tomamos água, café e jogamos conversa fora sobre a viagem. Era cedo, pouco mais de uma hora da tarde. Nossa chegadeira em Fortaleza estava combinada no Flórida Bar por volta da quatro da tarde. Não tínhamos pressa, pois só nos faltava 120km para chegar.

Chegando em Casa

PW e eu a 100/110 km/h na BR 020 e não demorou o Marcelão sumir na frente. Eita cabra com vontade arretada de chegar! Entramos em Fortaleza e nada do Marcelo. Seguimos portanto para o local combinado, Flórida Bar – 50 anos fazendo amigos, tradicional bar onde conhecemos todos os garçons, caixa e dono. Era três e meia e boa parte do povo ainda não havia chegado. Marcelo, que fez um desvio passando pela loja do Lourinho dos Aros chegou. Nossas amadas mulheres, filhos e pais do Marcelo, nossos queridos amigos foram chegando. Muitos abraços, conversa animada regada a cervejas geladíssimas, uma alegria só. Joarez apareceu e finalmente nos abraçamos os três, brindando a chegada dessa marcante e inesquecível viagem.


Considerações Finais:

Em 22 dias rodamos um total de 6688km, marcados no odômetro da minha moto, sendo que deste total, 2820km foram por estradas sem pavimentação.

O preço das travessias em balsas variou entre 4 e 12 reais por motocicleta. Na viagem cruzamos cerca de uma dúzia de balsas.

A hospedagem mais cara foi em Apuí (R$300,00 ap triplo) e a mais barata foi em Pedro II (R$30,00 ap individual). Na maioria das vezes o ap triplo ficava na faixa de R$40,00 por pessoa.

Três semanas depois que passamos pela reserva dos Tenharim Marmelo, pagando o pedágio cobrado pelos “índios”, eles assassinaram três motociclistas que por lá passavam em vingança pela morte de um índio que foi atropelado em uma cidade.

Dois meses depois da viagem, Joarez encontrou e nos devolveu o protetor solar com hidratante do Marcelo e a corda de varal que sumiram ainda em Carolina.


A despesa total com gasolina foi de R$789,88

A despesa geral, que não contabilizei organizadamente, deve ter ficado na faixa dos R$4500,00.

Do par de pneus, Pirelli MT40 que coloquei na motocicleta para viagem, o pneu traseiro chegou acabado, praticamente liso na banda de rodagem. O dianteiro concluiu a viagem em, digamos, meia vida.

Notas Bibliográficas

Portal do IBGE na Internet – Cidades
Ceplac – Comissão Executiva do Plano de Recuperação da Lavoura Cacaueira
Wikipédia
Amazônia de Euclides da Cunha

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